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Vida de nômade

Cobiçadíssimos por corretores, os "ciganos paulistanos"
agitam o mercado imobiliário com incessantes
mudanças de endereço


Por Alvaro Leme

 

MarioRodrigues
O escritor Walcyr Carrasco, em sua casa no Morumbi: especialista em fazer e desfazer malas após trocar seis vezes de residência em nove anos

Assim que o caminhão de mudança parte com suas caixas recheadas de livros, roupas e objetos pessoais, o autor teatral, jornalista e novelista Walcyr Carrasco inicia um ritual. Ele percorre a casa já vazia e conversa com cada cômodo. "Agradeço aos quartos, ao escritório e à sala pelos momentos vividos ali", conta. A cena se repetiu seis vezes nos últimos nove anos. Foram dez imóveis comprados e reformados desde 1996. Em alguns, Carrasco nem chegou a morar porque mudou de idéia na hora H. "O som dos martelos quebrando azulejos é música para meus ouvidos", escreveu ele, numa de suas crônicas quinzenais publicadas em Veja São Paulo.

Carrasco integra um grupo cobiçado pelos corretores imobiliários: o dos ciganos paulistanos. Gente que adquire uma casa aqui, vende um apartamento acolá e, assim, ajuda a movimentar o mercado. "Essa instabilidade do cliente se traduz em negócios para nós", admite Mariana Galvão, corretora especializada em imóveis de alto padrão. Ela subdivide essa turma de nômades em duas. De um lado, os que compram imóveis. Do outro, a tribo mais numerosa, formada por quem prefere o aluguel. "Esses não param quietos essencialmente por dois motivos: amores e empregos."

Foram exatamente esses fatores que levaram a atriz carioca Gabriela Alves a peregrinar por oito casas e apartamentos desde sua chegada à cidade, quatro anos atrás. Ou seja, uma mudança a cada seis meses. Duas delas em razão de casamentos que não deram certo. Sua situação atual é curiosa. De segunda a quarta, ela divide o teto no Brooklin com o ex-marido, o músico André de Abreu. No resto da semana, ocupa um quarto de hotel na Avenida Paulista, mais perto do trabalho. "É como se eu me mudasse toda semana", diz.

O cigano paulistano geralmente tem entre 25 e 35 anos, é solteiro, sem filhos e com renda mensal na casa dos 6 000 reais. Em média, não passa mais que dois anos na mesma residência alugada. "O objeto de desejo desse público são os lofts, pois conjugam charme e preços acessíveis", explica Fernanda Gonçalves, gerente de locação da imobiliária Coelho da Fonseca, nos Jardins.

Deixar a vida de nômade não faz parte dos planos do host de casas noturnas Sílvio de Abreu (nenhum parentesco com o autor de novelas homônimo). O capixaba de 31 anos, que vive em São Paulo há doze, conta nunca ter passado mais de um ano no mesmo lugar. "Mudar faz com que eu me sinta renovado", afirma. Tanta renovação já lhe custou, calcula, mais de 20 000 reais em multas só por rescisões contratuais. Sem contar que, quando ele se muda, costuma deixar para trás a maioria de seus móveis.

O maior inconveniente da vida cigana, segundo o produtor de televisão paulistano Fred Itioka, nem é a hora de encaixotar e carregar móveis. Ele não gosta mesmo é do trabalho de informar bancos, operadoras de telefone e outros serviços sobre a mudança – o que não o impediu de trocar seis vezes de endereço desde que saiu da casa dos pais, em 1997. "Muitas vezes você atualiza o endereço e eles continuam enviando cartas para o antigo", diz Itioka, que até hoje visita lugares onde morou para pegar correspondência. Isso deve deixar de acontecer com Walcyr Carrasco daqui a dois anos, quando terminar a construção de sua cobertura em Higienópolis. Leva para lá seus 9 000 livros, os dois cachorros dos quais nunca se separa e uma promessa que ele mesmo acha difícil de cumprir: "Desta vez, será a minha última mudança".