| | Investir
em flats? Já era O número de unidades construídas saltou
de 7 000 para 35 000 desde 1998. A superoferta de apartamentos transformou
o negócio em um mico  Por
Maurício Moraes
Fotos Mário Rodrigues
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| No
ano passado, nenhum flat foi lançado na cidade: crise no setor | Hotéis
econômicos: forte concorrência aos flats | Tinha
tudo para ser um excelente negócio. Na cidade que recebe quase 9 milhões
de visitantes por ano (a maioria a negócios), os flats pareciam a alternativa
ideal para oferecer conforto e serviços a quem dispensasse hotéis
de luxo. Melhor ainda se os prédios fossem novos, modernos e confortáveis.
No fim da década de 1990, investir em flats foi tido como um negocião.
Os corretores prometiam um rendimento mensal equivalente a até 1,5% do
valor do imóvel, porcentual considerado excelente por investidores do mercado
imobiliário. Ou seja, quem pagasse 70 000 reais por um apartamento de 25
metros quadrados receberia cerca de 1 000 reais por mês. Tamanha procura
fez os preços disparar: o metro quadrado chegou a saltar de 2 800 para
5 000 reais. O número de unidades construídas passou de 7 000 flats
para impressionantes 35 000 entre 1998 e 2003. A demanda por hospedagem, no entanto,
não acompanhou esse ritmo. O setor entrou
em uma crise tão grande que no ano passado não ocorreu nenhum lançamento.
"Houve uma superoferta, e muita gente teve de baixar as diárias para conseguir
hóspedes", afirma o engenheiro Caio Calfat, presidente da Sociedade Latino-Americana
de Estudos Imobiliários (Lares). Quem tentou vender seus imóveis
descobriu que o flat passara a valer menos da metade. Os que investiram em um
apartamento no Holiday Inn Parque Anhembi, por exemplo, pagaram 113 000 reais
há quatro anos. Hoje, o mesmo imóvel é vendido por 40 000
reais. Exceções existem, claro, mas são raras.
Muitos profissionais liberais e acionistas de pequenas empresas embarcaram nas
promessas feitas pelos corretores e incorporadores na esperança de diversificar
seus investimentos. O empresário Ivan Turri, de 48 anos, comprou nove unidades
em flats e amargou prejuízos. "Os incorporadores preocuparam-se com o projeto,
mas se esqueceram dos contratos com as administradoras, muitas vezes leoninos,
mal redigidos e com falhas legais graves", explica. Em geral, o problema está
nas taxas pagas às empresas responsáveis pela administração
elas abocanham em média 10% do faturamento mensal do empreendimento.
Diante dos baixos rendimentos, algumas entraram em acordo com os proprietários
e renegociaram os valores. Outras se mantiveram intransigentes.
A ascensão e decadência dos flats não é novidade. O
fenômeno ocorreu também no início dos anos 80, quando eles
surgiram como uma alternativa para quem queria investir em imóveis sem
estar sujeito à antiga Lei do Inquilinato. Na época, a propriedade
dos prédios ficava dividida entre os que queriam obter renda e os paulistanos
de classe média alta que desejavam morar em um espaço que contasse
com farta oferta de serviços. Isso causaria, mais tarde, um grande conflito.
Com dez anos de uso, os prédios começaram a pedir reformas mais
profundas e moradores e investidores se viram em desacordo enquanto os
primeiros não queriam arcar com taxas ainda mais altas de condomínio,
os últimos impunham as melhorias para continuar a obter retorno do investimento.
As brigas se arrastaram, e muitos empreendimentos acabaram desativados, transformados
em imóveis residenciais. Os hotéis
econômicos e supereconômicos também surgiram como fortes concorrentes.
Construídos em terrenos baratos, oferecem conforto com preços que
equivaleriam ao de um hotel de duas ou três estrelas. As cotas para os investidores
variam entre 50 000 e 75 000 reais. Como trabalham com margens pequenas de lucro,
têm de funcionar com uma ocupação de aproximadamente 75% para
ser rentáveis número bem acima da média em São
Paulo, hoje de 51%. Embora muitos consigam atingir esse porcentual e tenham apresentado
bons rendimentos atualmente de 0,7% a 1% sobre o dinheiro investido ,
não se sabe como será o futuro. "Pode ocorrer uma situação
parecida com a dos flats, embora em escala menor", prevê Eduardo Gentil,
sócio da Trust Gestão Patrimonial. Muitos flats já vêm
baixando seus preços justamente na esperança de conseguir abocanhar
parte desses hóspedes. Um risco e tanto para quem sonha com uma renda obtida
com tranqüilidade. Tire
suas dúvidas
• Quanto
custa investir em um flat?
Os preços
despencaram. É possível adquirir um apartamento de 50 metros quadrados
por 50 000 reais, pouco mais da metade do que era cobrado no fim dos anos 90.
Mesmo assim, pouca gente se aventura a comprar. Quem teve prejuízo sonha
com um momento melhor para vender.
• Quanto
o negócio rende?
Atualmente, são poucos os flats que rendem alguma coisa
em torno de 0,3% do valor do imóvel. O número de prédios
desse tipo aumentou tanto na cidade que hoje os investidores lidam com os baixos
índices de ocupação (em torno de 50%) e as altas taxas cobradas
pelas administradoras.
• Há
perspectivas de a situação melhorar?
Tudo depende do fluxo de turistas em São
Paulo, que não tem aumentado em um ritmo grande o suficiente para lotar
os hotéis e flats. Em 2004, a cidade recebeu 8,7 milhões de visitantes,
com uma rede hoteleira de cerca de 60 000 leitos. No ano anterior, foram 7,5 milhões.
Um comparativo: com 70 000 quartos quantidade um pouco maior que a da capital
paulista , Nova York recepcionou 39,6 milhões de turistas no ano
passado e registrou uma taxa de ocupação de 83%.
• O
que tem sido feito para enfrentar a crise no setor?
Vários flats têm baixado os preços
de suas diárias (cobram em média 110 reais),
concorrendo assim com os hotéis econômicos (86
reais, em média). Outros acabaram transformados em
imóveis residenciais. Algumas administradoras aceitaram
reduzir seus índices de remuneração nos
contratos de 10% para entre 4% e 7%, segundo dados da Riema
Empreendimentos Imobiliários. |
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