Índice
A São Paulo fértil
Tatuapé: a pérola do leste
Meu estilo: Sig Bergamin
A Freguesia de 1580
Meu cantinho preferido
Meu estilo: Fernanda Marques
Lofts: um jeito descolado de morar
Apartamentos menores e melhores
Meu estilo: Ruy Ohtake
Moradias classe AAA
Os endereços de ouro
Meu estilo: Débora Aguiar
O charme de viver no centro
Condomínios: redutos de sossego
Vistas de tirar o fôlego
Meu estilo: Gilberto Elkis
Meu estilo: Isabel Duprat
Fábricas de arranha-céus
Enxame de escritórios
À caça de inquilinos
Investir em flats? Já era
Financiamentos: vai comprar uma casa?
Meu estilo: Roberto Migotto
Piscinas: elas refrescam e enfeitam
Meu estilo: Brunete Fraccaroli
Vida de nômade
Terrenos milionários
Ponto de vista: Romeu Chap Chap
   
 

O charme de morar no centro

Mais bonita, mais limpa e com uma farta oferta de
serviços e transportes públicos, a região central
oferece imóveis residenciais – com áreas amplas
e boa vista – a preços acessíveis. É possível comprar
ali um apartamento de 250 metros quadrados por
300 000 reais, um terço do que se pagaria por um
imóvel semelhante em um bairro como a Vila Olímpia


Por Carolina Chagas

 

Fotos Mario Rodrigues
O artista plástico Emanoel Araújo em sua cobertura dúplex no Edifício São Luís: projeto do arquiteto francês Jacques Pilon

A atriz Bárbara Paz, o artista plástico Emanoel Araújo, o maestro Roberto Minczuk, a atriz Mika Lins e o executivo Marco Antonio Ramos de Almeida engrossam o time dos 70 000 paulistanos que moram no centro da cidade. É pouco se comparado ao número de pessoas que residem, por exemplo, no Jabaquara (224 000) ou em Perdizes (144 000). Mas devagarzinho a região vem conquistando novos fãs. Gente interessada nos prédios com fachadas tombadas, apartamentos amplos e preços mais acessíveis em relação a outros bairros. Sem falar na fartura de transporte público – são 250 linhas de ônibus, sete estações de metrô e duas ferroviárias –, serviços e patrimônios culturais de primeira linha, como o Pátio do Colégio, a Estação Júlio Prestes, com sua magnífica sala de concertos, o Teatro Municipal, a Pinacoteca do Estado e os mosteiros de São Bento e da Luz.

O presidente executivo da Associação Viva o Centro, Marco Antonio Ramos de Almeida, decidiu há um ano trocar seu apartamento na Alameda Jaú, nos Jardins, por um na região central, mais exatamente na Praça da República. Assim que terminar a trabalhosa reforma – que prevê atualização elétrica e hidráulica –, ele deve se mudar para o apartamento de 135 metros quadrados no Edifício São Nicolau, cujo metro quadrado custa, em média, 1 200 reais. "A região voltou a ser procurada", diz ele. "Por isso não é tão fácil encontrar apartamentos residenciais de qualidade desocupados."

 

O maestro Roberto Minczuk (acima) mora com a mulher e os quatro filhos em um apartamento na Praça Roosevelt. A atriz Mika Lins (abaixo) preferiu um imóvel de 180 metros quadrados no 28° andar do Edifício Copan: sonho de infância realizado

A atriz Bárbara Paz teve menos dificuldade que Almeida. Mas começou sua busca antes, há três anos. Hoje, comemora o investimento em seu apartamento de 200 metros quadrados no Edifício Santa Rita, na Avenida São Luís. "A região é charmosa e tem a arquitetura mais bonita da cidade", acredita. "Acho que o imóvel já se valorizou perto de 30%." O corretor Carlos Roberto Bomfim calcula que o metro quadrado de um apartamento na região subiu de 700 para 1 300 reais nos últimos cinco anos.

O centro de São Paulo começou a perder seu glamour nos anos 1970, quando a cidade ganhou novos pólos financeiros na região da Avenida Paulista e, mais tarde, nas avenidas Faria Lima e Luís Carlos Berrini. Como as áreas residenciais costumam acompanhar os endereços financeiros – todos preferem morar perto do trabalho –, o centro foi perdendo sua importância e saiu de moda. "A região se popularizou", explica Nadia Somekh, diretora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Mackenzie.

A qualidade do imóvel que namorava "desde criança" e o bom preço (1 000 reais o metro quadrado) levaram a atriz Mika Lins a adquirir um apartamento de 180 metros quadrados no Edifício Copan, finalizado em 1966 a partir de projeto de Oscar Niemeyer. "Não achava nada que fosse compatível com o que queria e com o dinheiro que eu tinha", afirma. O fato de contar com apenas uma vaga na garagem, um problema comum na região, não a fez desistir da idéia. "Quando vi, fiquei apaixonada", diz Mika. A atriz lembrou-se então de que o Copan havia passado por anos sombrios e resolveu fazer visitas ao lugar de madrugada, conversar com moradores e checar estatísticas policiais. Só encontrou boas-novas: "O Copan conseguiu sua própria reabilitação, os anos barras-pesadas ficaram para trás".

 

Bárbara Paz em seu apartamento de 200 metros quadrados na Avenida São Luís: valorização de 30% em três anos

Ao contrário do que se imagina, os índices de violência no centro são baixos em relação aos de outros bairros da cidade. A área tem incidência média de assaltos e pequena de homicídios. De acordo com uma pesquisa da Fundação Seade, a taxa de homicídios na Praça da República é de 33,50 por 100 000 habitantes, abaixo da média da cidade, de 36,93 por 100 000 habitantes. "Minha mulher já foi assaltada algumas vezes aqui, mas isso não é exclusividade do centro", afirma o maestro Roberto Minczuk, que vive com a mulher e os quatro filhos em um apartamento de 300 metros quadrados na Praça Roosevelt. Foi a comodidade de morar perto do trabalho que levou Minczuk a buscar o endereço há cerca de dois anos, quando ainda trabalhava na Osesp. "Sou um apaixonado pela cidade, detesto dirigir e queria um espaço amplo", conta ele, que, depois de assumir a direção da Orquestra Sinfônica Brasileira, com sede no Rio de Janeiro, em agosto, se divide na ponte aérea. Com um projeto arrojado, que imita um loft, Minczuk acabou transformando sua moradia numa área de lazer para os filhos. "Eles andam de bicicleta e até jogam futebol aqui."

O artista plástico Emanoel Araújo diz ter uma relação de amor e ódio com a região. Desde a primeira vez que veio a São Paulo, em 1964, é freqüentador e morador da área central. "Vivi a febre da casa de campo nos anos 70, fui para Taboão da Serra, mas acabei voltando para respirar gás carbônico", ironiza. Há dois anos vive no Edifício São Luís, prédio tombado do arquiteto francês Jacques Pilon, com vista para a Praça da República e o colégio Caetano de Campos. "Sempre tive paixão por este edifício", diz ele, na sala de sua cobertura dúplex de 380 metros quadrados e pé-direito de 4 metros. "De noite, aqui de cima tudo fica lindo."

 

A força do centro

Área
4,4 quilômetros quadrados  

População
70 000
moradores nos distritos Sé e República e uma população flutuante de 3 milhões de pessoas  

Imóveis
1 300
reais é o valor médio do metro quadrado dos apartamentos residenciais na Avenida São Luís. 1 000 reais é o valor médio do aluguel de um apartamento de três dormitórios com garagem  

Transporte público
250
linhas de ônibus
7 estações de metrô
2 estações de trem

Segurança
33,50
homicídios por 100 000 habitantes (a taxa do município é de 36,93 homicídios por 100 000 habitantes)

Prédios em alta
Edifício São Luís ­ Praça da República, 77
Moreira Salles ­ Avenida São Luís, 141
Louvre ­ Avenida São Luís, 192
Edifício Conde Silvio Penteado ­ Avenida São Luís, 130/140
Edifício Esther ­ Praça da República, 76
Copan ­ Avenida Ipiranga, 200  

Comércio
9 281
estabelecimentos que empregam cerca de 65 000 pessoas  

Hotéis
Entre 160 estabelecimentos, o mais novo é o Formule 1, no Largo do Arouche, que deve ser inaugurado em novembro  

Restaurantes
Cerca de 580. O mais antigo é a Cantina Capuano. Funciona na Rua Conselheiro Carrão, 416, na Bela Vista, desde 1907

Fontes: Associação Viva o Centro, SPTrans, Metrô, Secovi, Associação Comercial de São Paulo, Neves Bomfim Imóveis, Fundação Seade, Sindicado de Hotéis, Restaurantes, Bares e Similares de São Paulo