MEU
ESTILO Ruy Ohtake  Por
Bianca Fincati
Heudes
Régis
 |
Ele
projetou a mansão de cinco andares do ex-banqueiro Edemar Cid Ferreira,
o moderníssimo Unique (aquele hotel em forma de meia melancia) e mais recentemente
o novo templo de 17 000 metros quadrados de padre Marcelo Rossi. Há os
que torcem o nariz para os desenhos que saem de suas pranchetas. O inegável,
no entanto, é que com traços ousados e polêmicos o arquiteto
Ruy Ohtake transforma a paisagem de São Paulo como ninguém.
Qual o segredo de um projeto de sucesso? É
fazer com muita garra e não ter medo de polêmica, porque toda vanguarda
é polêmica. Historicamente, sempre foi. Quem tem medo nunca vai ser
de vanguarda. Tem cliente que pede coisas malucas,
que ficam difíceis de botar no papel? Para mim sempre foi possível.
O importante é saber filtrar o sonho da pessoa. Quais
são suas referências? Procuro estar atento ao mundo, assino
várias revistas de fora (a inglesa The Architectural Review, as
japonesas G e A+U Architecture and Urbanism, a americana
Progressive Architectures e a argentina Suma) e, de vinte anos para
cá, faço minhas viagens em função do trabalho. Tem
esta vantagem: passeando pela rua você respira arquitetura.
Um pecado na sua profissão... Eu não
sou religioso, então um crime em arquitetura é o desrespeito à
cidade. É fazer um projeto hoje olhando para o passado. Também não
gosto de modismo. Por quê? A cidade
tem de olhar o presente ou o futuro. Não pode olhar para trás. Tem
de contar a história pela sua arquitetura. O
que nunca cai da moda? A arquitetura de conteúdo forte, que consiga
interpretar a fase contemporânea em que a gente está. A Estação
da Luz foi feita há quase 150 anos, o Masp, pela Lina Bo Bardi, na década
de 60. São obras contemporâneas. É isso que tento fazer.
Você fez um projeto na Favela de Heliópolis.
É possível transformar lugares feios em bonitos? Todos os
lugares têm jeito. Pus um colorido forte nas casas, resgatando as cores
da nossa cidade. Por que a cidade foi
ficando cinza? Porque passou a imitar as cidades européias.
E elas são feias? São bonitas,
algumas lindas, mas são sem cor. Brasil é cor. Toda arquitetura
que eu faço é para resgatar essa cor. Qual
foi seu projeto mais difícil? A Embaixada do Brasil em Tóquio,
há vinte anos. Estava em outro país, o contato com a construtora
japonesa era distante, não existia computador. Teve uma vez em que viajei
até lá para ficar apenas dois dias. Fui para resolver uma dúvida
urgente e a obra não parar. Qual
é o valor mínimo que cobra por um projeto? Por Heliópolis
eu cobrei zero, mas o trabalho precisa ser reconhecido e remunerado. Teve um caso
curioso: um projeto que fiz em troca de oitenta jantares. No
Fasano? Nãããoo! Era um restaurante mais simples.
O melhor e o pior em ser arquiteto? O
melhor é a invenção e criação de formas, cores,
participar da história da cidade. Eu sou um cara muito otimista, não
sei se tem pior... Qual é o alicerce
da sua vida? De um lado é acreditar muito naquilo que faço.
Do outro, levar isso na humildade, sem ser prepotente e convencido. |