Índice
A São Paulo fértil
Tatuapé: a pérola do leste
Meu estilo: Sig Bergamin
A Freguesia de 1580
Meu cantinho preferido
Meu estilo: Fernanda Marques
Lofts: um jeito descolado de morar
Apartamentos menores e melhores
Meu estilo: Ruy Ohtake
Moradias classe AAA
Os endereços de ouro
Meu estilo: Débora Aguiar
O charme de viver no centro
Condomínios: redutos de sossego
Vistas de tirar o fôlego
Meu estilo: Gilberto Elkis
Meu estilo: Isabel Duprat
Fábricas de arranha-céus
Enxame de escritórios
À caça de inquilinos
Investir em flats? Já era
Financiamentos: vai comprar uma casa?
Meu estilo: Roberto Migotto
Piscinas: elas refrescam e enfeitam
Meu estilo: Brunete Fraccaroli
Vida de nômade
Terrenos milionários
Ponto de vista: Romeu Chap Chap
   
 

MEU ESTILO

Ruy Ohtake


Por Bianca Fincati

Heudes Régis


Ele projetou a mansão de cinco andares do ex-banqueiro Edemar Cid Ferreira, o moderníssimo Unique (aquele hotel em forma de meia melancia) e mais recentemente o novo templo de 17 000 metros quadrados de padre Marcelo Rossi. Há os que torcem o nariz para os desenhos que saem de suas pranchetas. O inegável, no entanto, é que com traços ousados e polêmicos o arquiteto Ruy Ohtake transforma a paisagem de São Paulo como ninguém.  

Qual o segredo de um projeto de sucesso?
É fazer com muita garra e não ter medo de polêmica, porque toda vanguarda é polêmica. Historicamente, sempre foi. Quem tem medo nunca vai ser de vanguarda.

Tem cliente que pede coisas malucas, que ficam difíceis de botar no papel?
Para mim sempre foi possível. O importante é saber filtrar o sonho da pessoa.  

Quais são suas referências?
Procuro estar atento ao mundo, assino várias revistas de fora (a inglesa The Architectural Review, as japonesas G e A+U ­ Architecture and Urbanism, a americana Progressive Architectures e a argentina Suma) e, de vinte anos para cá, faço minhas viagens em função do trabalho. Tem esta vantagem: passeando pela rua você respira arquitetura.  

Um pecado na sua profissão...
Eu não sou religioso, então um crime em arquitetura é o desrespeito à cidade. É fazer um projeto hoje olhando para o passado. Também não gosto de modismo.

Por quê?
A cidade tem de olhar o presente ou o futuro. Não pode olhar para trás. Tem de contar a história pela sua arquitetura.

O que nunca cai da moda?
A arquitetura de conteúdo forte, que consiga interpretar a fase contemporânea em que a gente está. A Estação da Luz foi feita há quase 150 anos, o Masp, pela Lina Bo Bardi, na década de 60. São obras contemporâneas. É isso que tento fazer.  

Você fez um projeto na Favela de Heliópolis. É possível transformar lugares feios em bonitos?
Todos os lugares têm jeito. Pus um colorido forte nas casas, resgatando as cores da nossa cidade.  

Por que a cidade foi ficando cinza?
Porque passou a imitar as cidades européias.  

E elas são feias?
São bonitas, algumas lindas, mas são sem cor. Brasil é cor. Toda arquitetura que eu faço é para resgatar essa cor.  

Qual foi seu projeto mais difícil?
A Embaixada do Brasil em Tóquio, há vinte anos. Estava em outro país, o contato com a construtora japonesa era distante, não existia computador. Teve uma vez em que viajei até lá para ficar apenas dois dias. Fui para resolver uma dúvida urgente e a obra não parar.  

Qual é o valor mínimo que cobra por um projeto?
Por Heliópolis eu cobrei zero, mas o trabalho precisa ser reconhecido e remunerado. Teve um caso curioso: um projeto que fiz em troca de oitenta jantares.  

No Fasano?
Nãããoo! Era um restaurante mais simples.  

O melhor e o pior em ser arquiteto?
O melhor é a invenção e criação de formas, cores, participar da história da cidade. Eu sou um cara muito otimista, não sei se tem pior...

Qual é o alicerce da sua vida?
De um lado é acreditar muito naquilo que faço. Do outro, levar isso na humildade, sem ser prepotente e convencido.