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Apartamentos menores e melhores
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O charme de viver no centro
Condomínios: redutos de sossego
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Piscinas: elas refrescam e enfeitam
Meu estilo: Brunete Fraccaroli
Vida de nômade
Terrenos milionários
Ponto de vista: Romeu Chap Chap
   
 

Um jeito descolado de morar

Com pé-direito duplo e ambientes integrados,
os lofts estão em alta, têm liquidez e boa
aceitação no mercado de locação


Por Sandra Soares

 

Fotos Mario Rodrigues
Os arquitetos Lua e Vinicius: loft de 190 metros quadrados na Vila Buarque

O apresentador Luciano Huck teve de quebrar a cabeça e algumas paredes para conseguir morar em um loft em São Paulo há dez anos. "Naquela época, não havia nada bacana no mercado para jovens solteiros", conta ele. Enquanto desconstruía um apartamento de três quartos no Itaim, derrubando divisórias para integrar os ambientes, Huck percebeu que investir em lofts poderia ser um bom negócio. Em 1997, lançou com o arquiteto João Armentano o primeiro edifício do gênero na cidade: o Loft São Paulo I, no Jardim Guedala. Oito anos depois, já sem Huck, Armentano inaugurou o Grand Loft II, seu oitavo empreendimento do tipo.

Se São Paulo tem muitos lofts, a rigor não tem nenhum. "O que se faz por aqui são ambientes loftados", explica a arquiteta Brunete Fraccaroli. "Adaptamos o conceito nova-iorquino à realidade do Brasil, onde não há galpões de fábrica em áreas em que as pessoas gostariam de morar." Em Nova York, regiões industriais então decadentes, como o Soho, se tornaram descoladas a partir da reciclagem de suas antigas fábricas e frigoríficos. Essas construções amplas, com pé-direito alto e vãos livres, atraíram, nos anos 60, artistas plásticos, que as utilizavam como morada e lugar de trabalho. Ateliê, quarto, sala, banheiro e cozinha se confundiam em um mesmo salão. Os lofts eram uma opção barata de moradia. Nos anos 70, com a revitalização de seu entorno pela prefeitura de Nova York, viraram moda e encareceram. Em Manhattan, os menores lofts de West Village (que vão de 55 a 78 metros quadrados) custam entre 800 000 e 1,9 milhão de dólares, segundo dados divulgados em setembro pela empresa americana Corcoran Group.

Loft da atriz Patrícia de Sabrit, no Morumbi: "sensação de aconchego"

No Brasil, o metro quadrado de um loft é cerca de 20% mais caro do que o de um apartamento convencional de mesma localização. A tradução do conceito pelo mercado local resultou em construções de pé-direito duplo e grandes janelas em que a área social se confunde com a de serviço. A ala íntima, quarto e banheiro, fica resguardada em um mezanino. Solteiros e jovens casais sem filhos são o principal público desse tipo de empreendimento. A atriz Patrícia de Sabrit mantém há quatro anos um loft em um condomínio no Morumbi. "Eu me sinto menos só aqui do que num apartamento convencional", diz. "Ter todas as minhas coisas ao alcance da vista me dá uma sensação de aconchego."

Manter a privacidade num ambiente assim, no entanto, pode ser difícil quando ele é dividido com alguém. João Armentano costuma dizer que o loft é mais que um espaço: é um estilo de vida. "Quem não está disposto a ouvir a cantoria da empregada, por exemplo, deve pensar duas vezes antes de optar por esse tipo de imóvel", afirma. Os arquitetos Lua Nitsche, de 32 anos, e Vinicius Andrade, de 37, já avisaram à faxineira para não abrir a torneira da cozinha até que eles se levantem da cama. Eles não têm problema algum em conviver sem paredes entre si. O loft de 190 metros quadrados que dividem na Vila Buarque foi todo mobiliado com móveis sobre rodinhas. Esse recurso garante que, em caso de briga, um dos cônjuges possa se trancar com a TV no único cômodo fechado da casa: o banheiro. Lua e Vinicius projetaram juntos o loft, que construíram reformando um apartamento comum. O resultado fez tanto sucesso entre os amigos do casal que quatro deles hoje ocupam imóveis do mesmo edifício. "Inspiramos outras pessoas a mudar para cá, e o prédio, que era meio caído, ganhou vida de novo", conta Lua.

 

O compositor Blanco: banheiro e quarto no mesmo ambiente

Outro que deu vida nova à vizinhança com um loft foi o compositor Francisco Blanco, de 55 anos. Em 1992, ele comprou uma casinha de vila nos Jardins e uma briga com os vizinhos. Blanco demoliu o imóvel para erguer no local um galpão de 330 metros quadrados, três andares, pé-direito de 12 metros e tijolos aparentes, bem parecido com os americanos. Gastou "uma fortuna" para escorar as casas geminadas à sua. Depois que o lugar ficou pronto, a sinagoga e o antiquário que o cercam pediram para copiar o projeto.

Blanco hoje aluga o loft por 8 000 reais mensais – e não tem dificuldade para conseguir inquilinos. Pelo contrário: ele garante que há uma fila de pessoas interessadas em ocupar a casa, que de tão fiel ao "espírito loft" tem quarto e banheiro no mesmo ambiente. Fábio Rossi, da diretoria do Secovi-SP, o sindicato da habitação, confirma: "Os lofts estão em alta, têm boa liquidez e maior velocidade de venda e locação".

 

O que um loft genuíno tem

Os arquitetos brasileiros costumam criticar os lofts lançados no país dizendo que a popularização do gênero fez com que os projetos se distanciassem cada vez mais do conceito original. Muitos dúplex encontrados no mercado, por exemplo, embora não sejam nada amplos, são vendidos como lofts só por causa do pé-direito duplo. Em Nova York, onde o sucesso desse modelo de habitação também fez surgir adaptações, já se fala em "lofts-fake" ou "apartamentos loft-inspired". Veja a lista de características de um genuíno loft  

• Pé-direito de, no mínimo, 3,20 metros  

• Ausência de paredes como divisões internas  

• Ambientes conjugados preferencialmente em um nível só  

• Colunas de sustentação aparentes  

• Tijolos e tubulações à vista – elétrica, hidráulica e de ar-condicionado  

• Ausência de forro e piso. O chão é de cimento  

• Uso de materiais frios, como cerâmica  

• Iluminação natural garantida por grandes janelas