Índice
A São Paulo fértil
Tatuapé: a pérola do leste
Meu estilo: Sig Bergamin
A Freguesia de 1580
Meu cantinho preferido
Meu estilo: Fernanda Marques
Lofts: um jeito descolado de morar
Apartamentos menores e melhores
Meu estilo: Ruy Ohtake
Moradias classe AAA
Os endereços de ouro
Meu estilo: Débora Aguiar
O charme de viver no centro
Condomínios: redutos de sossego
Vistas de tirar o fôlego
Meu estilo: Gilberto Elkis
Meu estilo: Isabel Duprat
Fábricas de arranha-céus
Enxame de escritórios
À caça de inquilinos
Investir em flats? Já era
Financiamentos: vai comprar uma casa?
Meu estilo: Roberto Migotto
Piscinas: elas refrescam e enfeitam
Meu estilo: Brunete Fraccaroli
Vida de nômade
Terrenos milionários
Ponto de vista: Romeu Chap Chap
   
 

A Freguesia de 1580

Um dos bairros mais antigos da cidade,
a Freguesia do Ó mantém costumes
e lembranças do tempo em que era
parada obrigatória dos bandeirantes


Por Míriam Scavone

 

Reprodução/Freguesia News
Paróquia Nossa Senhora da Expectação: erguida em 1610, pegou fogo e foi reconstruída em 1901

O Largo da Matriz Velha, no alto de uma das colinas da Freguesia do Ó, não é ponto turístico da cidade de São Paulo nem aparece muito nos documentos históricos oficiais. Mas experimente passar por lá no meio da tarde e puxar "um dedo de prosa" com os moradores mais velhos que se reúnem para jogar malha no meio da praça. Eles contam histórias que raros paulistanos conhecem. "Está vendo aquela casa? A marquesa de Santos morou nela", garante o barbeiro aposentado José Rodrigues de Matos, de 82 anos, antes de começar a lançar os discos de aço na pista lisa e, assim, dar início a mais uma disputa. "Sabe aquela outra? Era da namorada do Casimiro de Abreu, por isso ele vivia recitando poesia nos saraus daqui", continua. Essas são apenas algumas das interessantes histórias relacionadas a um dos bairros mais tradicionais da capital. O início de seu povoamento se deu em 1580, o que o torna um dos mais antigos de São Paulo, entre aqueles que ficavam distantes do colégio jesuíta que originou a cidade.

Localizada na Zona Norte, bem no limite com a Oeste, a Freguesia do Ó está a 18 quilômetros do centro. Pode parecer pouco, mas imagine o que era essa distância no século XVI, quando o bandeirante português Manoel Preto saiu da Vila de São Paulo de Piratininga levando a mulher e 155 índios escravizados para tomar posse da imensa gleba que o pai, Antonio Preto, havia lhe dado. Presente, aliás, que a família recebeu diretamente do rei de Portugal. "Eles vieram de canoa pelo Rio Tamanduateí, depois pelo Tietê, e desembarcaram no porto de areia que ficava onde é hoje a Rua da Balsa", afirma o ex-vereador e advogado José Viviani Ferraz, um dos muitos moradores cujo hobby é escarafunchar o passado da região. De lá, teriam subido a pé até a colina, onde Manoel Preto construiu a casa que virou sede de sua fazenda. "A capelinha ficou provisoriamente na parte baixa, para o pessoal todo poder freqüentar, até que se fundasse lá no alto a Igreja de Nossa Senhora da Expectação, em 1610", complementa Viviani Ferraz.

 
Fotos Mario Rodrigues
Acima, a Igreja Nossa Senhora do Ó, no Largo da Matriz. Casas do século XIX como a da foto abaixo, à esquerda e a reunião de antigos moradores em torno do dominó e da malha dão ao bairro um ar de interior

Quem vê o velho largo com suas casas simples e com jeitão de interior não imagina que da Freguesia do Ó saíram diversas expedições de bandeirantes na direção das atuais cidades de Jundiaí e Campinas, em busca de minérios e índios para trabalhar nos canaviais da região. O local também foi ponto de partida para os viajantes franceses Saint-Hilaire e Hercule Florence, que navegavam pelo Tietê interior adentro. Mesmo sinais de um passado mais recente foram apagados. O coreto desapareceu há muitas décadas, e quase todas as casas que ainda traziam marcas do século XIX acabaram totalmente reformadas ou postas abaixo pouco antes do anúncio do tombamento desse pedaço do bairro, em 1992. As edificações mais conservadas ficam logo ao lado, no novo Largo da Matriz, onde desde 1901 reina soberana a Igreja de Nossa Senhora do Ó. É em torno dela que até hoje acontecem as festas religiosas que viraram tradição no bairro: a do Divino (em abril), a do Assentamento da Cruz (em maio) e a de Nossa Senhora do Ó (em agosto).

De 1610 a 1896, o ponto de encontro era no largo antigo. Isso até o sacristão resolver exterminar uma colméia de vespas com fogo e, acidentalmente, incendiar a igreja construída pelo próprio Manoel Preto. "Tudo o que restou dela é a cabeça de Nossa Senhora das Dores", afirma o gráfico húngaro João Pinki, de 76 anos. Como ele, há muitos outros imigrantes europeus e descendentes por lá. Eles vieram em diversas épocas. A leva mais recente, formada principalmente por alemães, chegou após a II Guerra. Mas antes surgiram italianos como Bruno Bertucci, que em 1939 começou a vender suas pizzas feitas no óleo quente e levou a fama da Pizzaria do Bruno para toda a cidade. Depois de sua morte, o filho passou a tocar o negócio, até hoje no número 87 do Largo da Matriz. Os padres húngaros também marcaram presença. Uma vez por ano, preparavam as romarias para Santo Estêvão, que chegavam até o Pico do Jaraguá. Em 1967, as irmãs filipinas vieram dos Estados Unidos e Canadá para fundar o convento que se transformou numa das marcas da paisagem do bairro.

Os primeiros imigrantes não puderam morar no alto da colina onde ficava a Igreja de Nossa Senhora do Ó. Esse pedaço nobre era reservado aos descendentes do núcleo original do povoado, que com os anos passaram a se autodenominar caipiras do Ó. Ou "óienses", título que os moradores mais velhos do bairro ainda ostentam com orgulho. "Essa casa foi do meu pai, que a recebeu do meu avô", comenta Benedito Luís Ribeiro, dono da residência mais antiga do Largo da Matriz Velha. Segundo a lenda, teria sido mais uma das inúmeras moradas da marquesa de Santos no período em que foi amante do imperador dom Pedro I.

Figuras da elite, aliás, nunca faltaram no bairro. A rica matriarca e mecenas Veridiana Prado, por exemplo, possuía uma chácara imensa na Freguesia. São lendários seus passeios pelas estradas de terra a bordo de um Motobloc, diante do olhar espantado dos moradores que nem sabiam que existia automóvel. "Era uma área muito isolada", conta Viviani Ferraz. "A região só passou a se integrar mais com o resto da cidade com a construção da ponte sobre o Rio Tietê, em 1956." Antes disso, já havia começado o ciclo industrial do bairro com a chegada de fábricas como a Lopes Meias, em 1925. Nos anos 50 viriam indústrias ainda maiores, como a Carbex, em 1951, e depois a Editora Abril, em 1964. Dessa forma, a Freguesia do Ó saía definitivamente do cinturão caipira de São Paulo. Aos poucos sua vocação para o comércio se acentuou, com as lojas tomando por completo avenidas como a Nossa Senhora do Ó.

Mas o sabor de coisa antiga continua nos dois largos no topo da colina. No mais novo, é comum ver a população local e muita gente de fora passear em volta da igreja como nas cidades interioranas. Ou jogar conversa fora nas mesas dos bares e restaurantes que ocupam as belas casas do século XIX. No mais velho, os moradores jogam malha e, entre um arremesso e outro, relembram histórias que não deixam o passado ser enterrado.

 

Fé, escravos e muita história

1580 O bandeirante português Manoel Preto muda-se com a mulher e 155 índios escravizados para a imensa sesmaria à margem direita do Rio Tietê, herdada do pai, próxima às minas de ouro do Pico do Jaraguá.

1610 A capela de Nossa Senhora da Expectação ou Esperança é erguida no topo da colina, onde hoje fica o Largo da Matriz Velha.

1630 Manoel Preto morre com uma flecha no peito ao enfrentar índios. A sesmaria começa a ser dividida pelos descendentes.

1796 A capela é elevada à categoria de paróquia (a segunda na cidade, depois da Sé).

1824 A duquesa de Goiás, filha bastarda do imperador dom Pedro I com a marquesa de Santos, é batizada na Paróquia Nossa Senhora do Ó.

1896 Na tentativa de extinguir um enxame de vespas, o sacristão incendeia a igreja. Sobrou apenas a cabeça de Nossa Senhora das Dores.

1901 São inaugurados o cemitério e a paróquia no Largo da Matriz Velha. Os moradores assistem estupefatos aos passeios de dona Veridiana Prado, uma das mais conhecidas figuras da sociedade paulista, em um automóvel Motobloc. Ela tinha uma bela chácara na região.

1915 Durante a Festa do Divino, a luz elétrica ilumina o Largo da Matriz. É o fim dos lampiões de gás. Começam a aparecer os imigrantes italianos, poloneses e húngaros.

1920 Chegam o primeiro telefone e a primeira padaria.

1925 É inaugurada a fábrica de meias Lopes, pioneira de uma série de estabelecimentos a promover o desenvolvimento do bairro.

1929 A Cia. Predial faz o primeiro loteamento.

1936 O coreto do Largo da Matriz Velha dá lugar a uma enorme caixa-d'água.

1939 Redondas preparadas em panelas cheias de óleo quente viram atração na Pizzaria do Bruno. A receita do italiano Bruno Bertucci, que morreu em 1976, ainda é sucesso na casa hoje comandada pelos descendentes do imigrante.

1947 A CMTC inaugura a linha que liga a Freguesia ao centro.

1951 A energia elétrica chega ali, mas para terem luz em casa os moradores devem arranjar postes e puxar a fiação.

1953 Uma televisão comunitária vira a atração do bairro.

1956 Após ser inaugurada às pressas em 1950, por razões políticas, a Ponte da Freguesia do Ó fica pronta e tira o bairro do isolamento.

1964 A Editora Abril instala-se na região e desde então é a maior empresa do bairro.

1968 O aniversário da Freguesia é comemorado com uma grande Festa do Bandeirante, organizada pelo Centro de Tradições Paulistas (CTP).