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Freguesia de 1580 Um dos bairros mais antigos da cidade,
a Freguesia do Ó mantém costumes e lembranças do tempo
em que era parada obrigatória dos bandeirantes  Por
Míriam Scavone
Reprodução/Freguesia
News
 | | Paróquia
Nossa Senhora da Expectação: erguida em 1610, pegou fogo e foi reconstruída em
1901 |
O Largo da Matriz Velha, no alto
de uma das colinas da Freguesia do Ó, não é ponto turístico
da cidade de São Paulo nem aparece muito nos documentos históricos
oficiais. Mas experimente passar por lá no meio da tarde e puxar "um dedo
de prosa" com os moradores mais velhos que se reúnem para jogar malha no
meio da praça. Eles contam histórias que raros paulistanos conhecem.
"Está vendo aquela casa? A marquesa de Santos morou nela", garante o barbeiro
aposentado José Rodrigues de Matos, de 82 anos, antes de começar
a lançar os discos de aço na pista lisa e, assim, dar início
a mais uma disputa. "Sabe aquela outra? Era da namorada do Casimiro de Abreu,
por isso ele vivia recitando poesia nos saraus daqui", continua. Essas são
apenas algumas das interessantes histórias relacionadas a um dos bairros
mais tradicionais da capital. O início de seu povoamento se deu em 1580,
o que o torna um dos mais antigos de São Paulo, entre aqueles que ficavam
distantes do colégio jesuíta que originou a cidade.
Localizada na Zona Norte, bem no limite com a Oeste, a Freguesia do Ó está
a 18 quilômetros do centro. Pode parecer pouco, mas imagine o que era essa
distância no século XVI, quando o bandeirante português Manoel
Preto saiu da Vila de São Paulo de Piratininga levando a mulher e 155 índios
escravizados para tomar posse da imensa gleba que o pai, Antonio Preto, havia
lhe dado. Presente, aliás, que a família recebeu diretamente do
rei de Portugal. "Eles vieram de canoa pelo Rio Tamanduateí, depois pelo
Tietê, e desembarcaram no porto de areia que ficava onde é hoje a
Rua da Balsa", afirma o ex-vereador e advogado José Viviani Ferraz, um
dos muitos moradores cujo hobby é escarafunchar o passado da região.
De lá, teriam subido a pé até a colina, onde Manoel Preto
construiu a casa que virou sede de sua fazenda. "A capelinha ficou provisoriamente
na parte baixa, para o pessoal todo poder freqüentar, até que se fundasse
lá no alto a Igreja de Nossa Senhora da Expectação, em 1610",
complementa Viviani Ferraz. Fotos
Mario Rodrigues
 | | Acima,
a Igreja Nossa Senhora do Ó, no Largo da Matriz. Casas do século XIX como a da
foto abaixo, à esquerda e a reunião de antigos moradores em torno do dominó e
da malha dão ao bairro um ar de interior |  |  |
Quem vê o velho largo com suas casas simples e com jeitão de interior
não imagina que da Freguesia do Ó saíram diversas expedições
de bandeirantes na direção das atuais cidades de Jundiaí
e Campinas, em busca de minérios e índios para trabalhar nos canaviais
da região. O local também foi ponto de partida para os viajantes
franceses Saint-Hilaire e Hercule Florence, que navegavam pelo Tietê interior
adentro. Mesmo sinais de um passado mais recente foram apagados. O coreto desapareceu
há muitas décadas, e quase todas as casas que ainda traziam marcas
do século XIX acabaram totalmente reformadas ou postas abaixo pouco antes
do anúncio do tombamento desse pedaço do bairro, em 1992. As edificações
mais conservadas ficam logo ao lado, no novo Largo da Matriz, onde desde 1901
reina soberana a Igreja de Nossa Senhora do Ó. É em torno dela que
até hoje acontecem as festas religiosas que viraram tradição
no bairro: a do Divino (em abril), a do Assentamento da Cruz (em maio) e a de
Nossa Senhora do Ó (em agosto). De 1610
a 1896, o ponto de encontro era no largo antigo. Isso até o sacristão
resolver exterminar uma colméia de vespas com fogo e, acidentalmente, incendiar
a igreja construída pelo próprio Manoel Preto. "Tudo o que restou
dela é a cabeça de Nossa Senhora das Dores", afirma o gráfico
húngaro João Pinki, de 76 anos. Como ele, há muitos outros
imigrantes europeus e descendentes por lá. Eles vieram em diversas épocas.
A leva mais recente, formada principalmente por alemães, chegou após
a II Guerra. Mas antes surgiram italianos como Bruno Bertucci, que em 1939 começou
a vender suas pizzas feitas no óleo quente e levou a fama da Pizzaria do
Bruno para toda a cidade. Depois de sua morte, o filho passou a tocar o negócio,
até hoje no número 87 do Largo da Matriz. Os padres húngaros
também marcaram presença. Uma vez por ano, preparavam as romarias
para Santo Estêvão, que chegavam até o Pico do Jaraguá.
Em 1967, as irmãs filipinas vieram dos Estados Unidos e Canadá para
fundar o convento que se transformou numa das marcas da paisagem do bairro.
Os primeiros imigrantes não puderam morar no alto da colina onde ficava
a Igreja de Nossa Senhora do Ó. Esse pedaço nobre era reservado
aos descendentes do núcleo original do povoado, que com os anos passaram
a se autodenominar caipiras do Ó. Ou "óienses", título que
os moradores mais velhos do bairro ainda ostentam com orgulho. "Essa casa foi
do meu pai, que a recebeu do meu avô", comenta Benedito Luís Ribeiro,
dono da residência mais antiga do Largo da Matriz Velha. Segundo a lenda,
teria sido mais uma das inúmeras moradas da marquesa de Santos no período
em que foi amante do imperador dom Pedro I. Figuras
da elite, aliás, nunca faltaram no bairro. A rica matriarca e mecenas Veridiana
Prado, por exemplo, possuía uma chácara imensa na Freguesia. São
lendários seus passeios pelas estradas de terra a bordo de um Motobloc,
diante do olhar espantado dos moradores que nem sabiam que existia automóvel.
"Era uma área muito isolada", conta Viviani Ferraz. "A região só
passou a se integrar mais com o resto da cidade com a construção
da ponte sobre o Rio Tietê, em 1956." Antes disso, já havia começado
o ciclo industrial do bairro com a chegada de fábricas como a Lopes Meias,
em 1925. Nos anos 50 viriam indústrias ainda maiores, como a Carbex, em
1951, e depois a Editora Abril, em 1964. Dessa forma, a Freguesia do Ó
saía definitivamente do cinturão caipira de São Paulo. Aos
poucos sua vocação para o comércio se acentuou, com as lojas
tomando por completo avenidas como a Nossa Senhora do Ó.
Mas o sabor de coisa antiga continua nos dois largos no topo da colina. No mais
novo, é comum ver a população local e muita gente de fora
passear em volta da igreja como nas cidades interioranas. Ou jogar conversa fora
nas mesas dos bares e restaurantes que ocupam as belas casas do século
XIX. No mais velho, os moradores jogam malha e, entre um arremesso e outro, relembram
histórias que não deixam o passado ser enterrado. Fé,
escravos e muita história 1580
O bandeirante português Manoel Preto muda-se com a mulher e 155 índios
escravizados para a imensa sesmaria à margem direita do Rio Tietê,
herdada do pai, próxima às minas de ouro do Pico do Jaraguá.
1610 A capela
de Nossa Senhora da Expectação ou Esperança é erguida
no topo da colina, onde hoje fica o Largo da Matriz Velha.
1630 Manoel Preto morre com uma flecha no
peito ao enfrentar índios. A sesmaria começa a ser dividida pelos
descendentes. 1796
A capela é elevada à categoria de paróquia (a segunda na
cidade, depois da Sé). 1824
A duquesa de Goiás, filha bastarda do imperador dom Pedro I com a marquesa
de Santos, é batizada na Paróquia Nossa Senhora do Ó.
1896 Na tentativa de extinguir um enxame de
vespas, o sacristão incendeia a igreja. Sobrou apenas a cabeça de
Nossa Senhora das Dores. 1901
São inaugurados o cemitério e a paróquia no Largo da Matriz
Velha. Os moradores assistem estupefatos aos passeios de dona Veridiana Prado,
uma das mais conhecidas figuras da sociedade paulista, em um automóvel
Motobloc. Ela tinha uma bela chácara na região.
1915 Durante a Festa do Divino, a luz elétrica
ilumina o Largo da Matriz. É o fim dos lampiões de gás. Começam
a aparecer os imigrantes italianos, poloneses e húngaros.
1920 Chegam o primeiro telefone e a primeira
padaria. 1925 É
inaugurada a fábrica de meias Lopes, pioneira de uma série de estabelecimentos
a promover o desenvolvimento do bairro. 1929
A Cia. Predial faz o primeiro loteamento. 1936
O coreto do Largo da Matriz Velha dá lugar a uma enorme caixa-d'água.
1939 Redondas
preparadas em panelas cheias de óleo quente viram atração
na Pizzaria do Bruno. A receita do italiano Bruno Bertucci, que morreu em 1976,
ainda é sucesso na casa hoje comandada pelos descendentes do imigrante.
1947 A CMTC
inaugura a linha que liga a Freguesia ao centro.
1951 A energia elétrica chega ali,
mas para terem luz em casa os moradores devem arranjar postes e puxar a fiação.
1953 Uma televisão
comunitária vira a atração do bairro.
1956 Após ser inaugurada às
pressas em 1950, por razões políticas, a Ponte da Freguesia do Ó
fica pronta e tira o bairro do isolamento. 1964
A Editora Abril instala-se na região e desde então é a maior
empresa do bairro. 1968
O aniversário da Freguesia é comemorado com uma grande Festa do
Bandeirante, organizada pelo Centro de Tradições Paulistas (CTP). |
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