| | Tatuapé:
a pérola do leste Não tem para ninguém:
quando o assunto é o bairro que mais cresceu na cidade em 2004,
as honras vão todas para o Tatuapé, a menina-dos-olhos da Zona
Leste  Por
Míriam Scavone
Heudes
Régis
 | | Prédios
de luxo: a nova aposta das construtoras no Tatuapé |
Para muitos paulistanos das zonas Sul, Norte ou Oeste, que só uma vez ou
outra passam pelo Tatuapé, pode parecer estranha a notícia de que
ele é o bairro que mais cresceu em São Paulo no ano passado. Mas,
para quem nasceu ou viveu na Zona Leste e acompanhou a trajetória desse
pedaço da cidade, localizado a 8 quilômetros do centro, a informação
casa direitinho com a conclusão da Empresa Brasileira de Estudos de Patrimônio
(Embraesp). A entidade elabora o ranking dos bairros da capital que mais crescem
com base no número de unidades residenciais aprovadas no período
de um ano. Em 2004, o Tatuapé chegou a 1 905 unidades, à frente
do Morumbi, com 1 121. O
ritmo acelerado do bairro salta aos olhos. A cada ano surgem novos edifícios
de alto padrão, faculdades, escolas e lojas tão sofisticadas quanto
as de bairros reconhecidamente nobres. Isso sem falar nos bares e restaurantes,
que estão transformando a região da Praça Silvio Romero e
arredores em um point de ferveção noturna. É uma mudança
rápida e avassaladora que se deu especialmente nos últimos dez anos.
Ela assusta os moradores antigos, mais conservadores, que lastimam o fim do ambiente
interiorano de outrora. Ao mesmo tempo, anima a moçada, que já nem
precisa mais sair da vizinhança na hora da balada, das compras ou até
de cursar uma faculdade, pois o Tatuapé conta com três universidades:
a Paulista (Unip), a São Marcos e a Cruzeiro do Sul (Unicsul). O coro dos
contentes também é engrossado por empresários e comerciantes,
certos de que vale apostar na região. Segundo Tadeu Masano, presidente
da consultoria Geografia de Mercado, 48% da população do Tatuapé
é da classe B, enquanto a média paulistana é de 31%. O salário
médio da principal fonte de renda da família gira em torno de 4
000 reais e o potencial de consumo equivale ao de cidades como Araraquara, em
São Paulo, e Anápolis, em Goiás.
O setor imobiliário iniciou a revolução no Tatuapé.
Cientes de que muita gente endinheirada ia embora de lá a contragosto,
porque não encontrava imóveis de alto padrão para morar,
investidores apostaram pesado na construção de edifícios
residenciais de alto luxo. O epicentro desse novo estilo de morar tem sido o Jardim
Anália Franco. Antes um conjunto de terrenos descampados, cortado pela
Avenida Regente Feijó, tornou-se o "Morumbizinho" da Zona Leste. Renata
Ursaia
 | | Copacabana:
um dos points da região |
Diante do novo
padrão de moradia do Tatuapé, não só permaneceram
os antigos habitantes como começaram a chegar novos inquilinos. Alguns
porque tinham negócios no bairro. Outros porque se deram conta da ótima
relação custo-benefício oferecida pelas empreendedoras imobiliárias.
"Um apartamento de quatro dormitórios custa em média 460 000 reais
no Tatuapé, enquanto a média de preço na cidade é
de 750 000 reais", compara Luiz Paulo Pompéia, diretor da Embraesp. A mudança
imobiliária foi só o começo. "A rede de comércio e
serviços se sofisticou muito para atender a população dos
apartamentos de alto padrão", afirma o engenheiro Walter José Pires
Bellintani, subprefeito da Mooca, que engloba o Tatuapé. A distrital Tatuapé
da Associação Comercial de São Paulo confirma a informação.
Tanto que ela hoje conta com cerca de 1 800 associados, que vão de flats
a spas urbanos. Fincado numa área de 8,2
quilômetros quadrados e servido por duas estações de metrô,
a Carrão e a Tatuapé, o bairro conta com quatro shoppings para atender
às necessidades de seus mais de 100 000 habitantes. O Anália Franco
faz a linha mais cara, mas há ainda o Shopping Metrô Tatuapé,
com perfil popular, e os menores Shopping Silvio Romero e Shopping Plaza Chic.
Isso sem falar no comércio de rua que se espalha da Praça Silvio
Romero para ruas como Tuiuti, Emília Marengo e Serra de Bragança.
Renata
Ursaia
 | | O
apresentador Gilberto Barros: dezesseis anos no Tatuapé |
O Shopping Metrô Tatuapé recebe diariamente 70 000 pessoas e quase
100 000 nos fins de semana. Cerca de 70% são das classes B e C e nem todas
moram no bairro. "Nosso movimento é incrementado pelos passageiros do metrô",
diz Claudio Voso, gerente de marketing do shopping, inaugurado em 1997. Ele deverá
sofrer uma ampliação a partir deste mês, com a construção
do Shopping Tatuapé 2, do outro lado da linha do metrô. "Serão
mais 160 lojas, quatro salas de cinema e um teatro", afirma Voso. O Shopping Anália
Franco, hoje com 240 lojas voltadas para o atendimento da classe de consumidores
de alto padrão, conta com onze âncoras. Entre elas a Zara, a Saraiva
Mega Store, a Tok&Stok, a academia Companhia Athletica e uma filial dos laboratórios
Fleury. Muitas grifes da moda, como Cori, Zoomp e Forum, também marcam
presença. No ano passado, o shopping recebeu em seus 200 000 metros quadrados
cerca de 22 milhões de consumidores, que deixaram nas lojas em torno de
300 milhões de reais. Mario
Rodrigues
 | | Shopping
Metrô Tatuapé: 70 000 pessoas por dia |
"O
bacana é que mesmo com tanta mudança o bairro continua a cara de
cidades como Bauru ou Ribeirão Preto", diz o apresentador Gilberto Barros.
Ele mora no Tatuapé desde 1989. "Todo mundo se conhece e a gente fica à
vontade para colocar o chinelo no fim de semana e ir até a padaria bater
papo." Seus points preferidos são a padaria Perfil, a loja de carros do
Luizinho e a churrascaria Bracia Parrilla. A gerente de vendas Carla Cristina
Damaso Rosa, de 34 anos, compartilha da mesma opinião. Ela se mudou da
Mooca para o Tatuapé há treze anos. Mora perto do Shopping Anália
Franco, onde faz ginástica todos os dias pela manhã e, ao final,
segue para um cafezinho com outras mulheres que batem cartão na academia.
"A gente tem muita qualidade de vida", diz Carla.
A
vida noturna do bairro concentra-se nos bares da Praça Silvio Romero e
nas ruas vizinhas, como a Coelho Lisboa, a Euclides Pacheco e a Itapura. "Há
reclamação de barulho e de invasão de calçada, mas
estamos fazendo um trabalho educativo com os bares para melhorar a convivência",
explica o subprefeito Bellintani. Um ano e meio atrás, animado com o crescimento
do Tatuapé, o empresário da noite Maurício Capello resolveu
investir no próprio bairro onde mora. Tornou-se sócio de três
bares: Copacabana, Proffissional e Studio 1. As casas atendem a públicos
diferentes. No Copacabana, o forte é o chope na tulipa, e o público
é bem eclético, dos 18 aos 50 anos. Ao Proffissional, que faz o
estilo botecão, vão os solteiros em busca de paquera. Já
o Studio 1, que segue a linha pizza-bar, é procurado por casais. "Recebemos
gente jovem, bem vestida e transada. A diferença é que aqui a galera
é mais desencanada, as pessoas não são tão malhadas,
não cultuam tanto as formas conquistadas na academia", diz ele. "Todo mundo
é mais autêntico." | |