Índice
A São Paulo fértil
Tatuapé: a pérola do leste
Meu estilo: Sig Bergamin
A Freguesia de 1580
Meu cantinho preferido
Meu estilo: Fernanda Marques
Lofts: um jeito descolado de morar
Apartamentos menores e melhores
Meu estilo: Ruy Ohtake
Moradias classe AAA
Os endereços de ouro
Meu estilo: Débora Aguiar
O charme de viver no centro
Condomínios: redutos de sossego
Vistas de tirar o fôlego
Meu estilo: Gilberto Elkis
Meu estilo: Isabel Duprat
Fábricas de arranha-céus
Enxame de escritórios
À caça de inquilinos
Investir em flats? Já era
Financiamentos: vai comprar uma casa?
Meu estilo: Roberto Migotto
Piscinas: elas refrescam e enfeitam
Meu estilo: Brunete Fraccaroli
Vida de nômade
Terrenos milionários
Ponto de vista: Romeu Chap Chap
   
 

Tatuapé: a pérola do leste

Não tem para ninguém: quando o assunto
é o bairro que mais cresceu na cidade em
2004, as honras vão todas para o Tatuapé,
a menina-dos-olhos da Zona Leste


Por Míriam Scavone

 

Heudes Régis
Prédios de luxo: a nova aposta das construtoras no Tatuapé

Para muitos paulistanos das zonas Sul, Norte ou Oeste, que só uma vez ou outra passam pelo Tatuapé, pode parecer estranha a notícia de que ele é o bairro que mais cresceu em São Paulo no ano passado. Mas, para quem nasceu ou viveu na Zona Leste e acompanhou a trajetória desse pedaço da cidade, localizado a 8 quilômetros do centro, a informação casa direitinho com a conclusão da Empresa Brasileira de Estudos de Patrimônio (Embraesp). A entidade elabora o ranking dos bairros da capital que mais crescem com base no número de unidades residenciais aprovadas no período de um ano. Em 2004, o Tatuapé chegou a 1 905 unidades, à frente do Morumbi, com 1 121.

O ritmo acelerado do bairro salta aos olhos. A cada ano surgem novos edifícios de alto padrão, faculdades, escolas e lojas tão sofisticadas quanto as de bairros reconhecidamente nobres. Isso sem falar nos bares e restaurantes, que estão transformando a região da Praça Silvio Romero e arredores em um point de ferveção noturna. É uma mudança rápida e avassaladora que se deu especialmente nos últimos dez anos. Ela assusta os moradores antigos, mais conservadores, que lastimam o fim do ambiente interiorano de outrora. Ao mesmo tempo, anima a moçada, que já nem precisa mais sair da vizinhança na hora da balada, das compras ou até de cursar uma faculdade, pois o Tatuapé conta com três universidades: a Paulista (Unip), a São Marcos e a Cruzeiro do Sul (Unicsul). O coro dos contentes também é engrossado por empresários e comerciantes, certos de que vale apostar na região. Segundo Tadeu Masano, presidente da consultoria Geografia de Mercado, 48% da população do Tatuapé é da classe B, enquanto a média paulistana é de 31%. O salário médio da principal fonte de renda da família gira em torno de 4 000 reais e o potencial de consumo equivale ao de cidades como Araraquara, em São Paulo, e Anápolis, em Goiás.

O setor imobiliário iniciou a revolução no Tatuapé. Cientes de que muita gente endinheirada ia embora de lá a contragosto, porque não encontrava imóveis de alto padrão para morar, investidores apostaram pesado na construção de edifícios residenciais de alto luxo. O epicentro desse novo estilo de morar tem sido o Jardim Anália Franco. Antes um conjunto de terrenos descampados, cortado pela Avenida Regente Feijó, tornou-se o "Morumbizinho" da Zona Leste.

 

Renata Ursaia
Copacabana: um dos points da região

Diante do novo padrão de moradia do Tatuapé, não só permaneceram os antigos habitantes como começaram a chegar novos inquilinos. Alguns porque tinham negócios no bairro. Outros porque se deram conta da ótima relação custo-benefício oferecida pelas empreendedoras imobiliárias. "Um apartamento de quatro dormitórios custa em média 460 000 reais no Tatuapé, enquanto a média de preço na cidade é de 750 000 reais", compara Luiz Paulo Pompéia, diretor da Embraesp. A mudança imobiliária foi só o começo. "A rede de comércio e serviços se sofisticou muito para atender a população dos apartamentos de alto padrão", afirma o engenheiro Walter José Pires Bellintani, subprefeito da Mooca, que engloba o Tatuapé. A distrital Tatuapé da Associação Comercial de São Paulo confirma a informação. Tanto que ela hoje conta com cerca de 1 800 associados, que vão de flats a spas urbanos.

Fincado numa área de 8,2 quilômetros quadrados e servido por duas estações de metrô, a Carrão e a Tatuapé, o bairro conta com quatro shoppings para atender às necessidades de seus mais de 100 000 habitantes. O Anália Franco faz a linha mais cara, mas há ainda o Shopping Metrô Tatuapé, com perfil popular, e os menores Shopping Silvio Romero e Shopping Plaza Chic. Isso sem falar no comércio de rua que se espalha da Praça Silvio Romero para ruas como Tuiuti, Emília Marengo e Serra de Bragança.

 

Renata Ursaia
O apresentador Gilberto Barros: dezesseis anos no Tatuapé

O Shopping Metrô Tatuapé recebe diariamente 70 000 pessoas e quase 100 000 nos fins de semana. Cerca de 70% são das classes B e C e nem todas moram no bairro. "Nosso movimento é incrementado pelos passageiros do metrô", diz Claudio Voso, gerente de marketing do shopping, inaugurado em 1997. Ele deverá sofrer uma ampliação a partir deste mês, com a construção do Shopping Tatuapé 2, do outro lado da linha do metrô. "Serão mais 160 lojas, quatro salas de cinema e um teatro", afirma Voso. O Shopping Anália Franco, hoje com 240 lojas voltadas para o atendimento da classe de consumidores de alto padrão, conta com onze âncoras. Entre elas a Zara, a Saraiva Mega Store, a Tok&Stok, a academia Companhia Athletica e uma filial dos laboratórios Fleury. Muitas grifes da moda, como Cori, Zoomp e Forum, também marcam presença. No ano passado, o shopping recebeu em seus 200 000 metros quadrados cerca de 22 milhões de consumidores, que deixaram nas lojas em torno de 300 milhões de reais.

 

Mario Rodrigues
Shopping Metrô Tatuapé: 70 000 pessoas por dia

"O bacana é que mesmo com tanta mudança o bairro continua a cara de cidades como Bauru ou Ribeirão Preto", diz o apresentador Gilberto Barros. Ele mora no Tatuapé desde 1989. "Todo mundo se conhece e a gente fica à vontade para colocar o chinelo no fim de semana e ir até a padaria bater papo." Seus points preferidos são a padaria Perfil, a loja de carros do Luizinho e a churrascaria Bracia Parrilla. A gerente de vendas Carla Cristina Damaso Rosa, de 34 anos, compartilha da mesma opinião. Ela se mudou da Mooca para o Tatuapé há treze anos. Mora perto do Shopping Anália Franco, onde faz ginástica todos os dias pela manhã e, ao final, segue para um cafezinho com outras mulheres que batem cartão na academia. "A gente tem muita qualidade de vida", diz Carla.

A vida noturna do bairro concentra-se nos bares da Praça Silvio Romero e nas ruas vizinhas, como a Coelho Lisboa, a Euclides Pacheco e a Itapura. "Há reclamação de barulho e de invasão de calçada, mas estamos fazendo um trabalho educativo com os bares para melhorar a convivência", explica o subprefeito Bellintani. Um ano e meio atrás, animado com o crescimento do Tatuapé, o empresário da noite Maurício Capello resolveu investir no próprio bairro onde mora. Tornou-se sócio de três bares: Copacabana, Proffissional e Studio 1. As casas atendem a públicos diferentes. No Copacabana, o forte é o chope na tulipa, e o público é bem eclético, dos 18 aos 50 anos. Ao Proffissional, que faz o estilo botecão, vão os solteiros em busca de paquera. Já o Studio 1, que segue a linha pizza-bar, é procurado por casais. "Recebemos gente jovem, bem vestida e transada. A diferença é que aqui a galera é mais desencanada, as pessoas não são tão malhadas, não cultuam tanto as formas conquistadas na academia", diz ele. "Todo mundo é mais autêntico."