Protesto irracional

A irritação de um grupo de colégios com o ranking
das melhores escolas de Veja São Paulo

 
Renato Chaui

Alunos do Porto Seguro: escola teve a maior pontuação


Há várias formas de medir o grau de desenvolvimento de uma sociedade no que diz respeito à cidadania. Uma delas está ligada ao acesso das pessoas a informações que as ajudem a conhecer melhor a qualidade dos serviços que utilizam. Um dos bons instrumentos empregados para tal tarefa são os rankings. Nos Estados Unidos, ranqueia-se de tudo: hotéis, planos de previdência, hospitais, empresas aéreas, restaurantes, bares, locadoras de automóveis, escolas e universidades. Em geral, como resultado desses levantamentos, os que se saem bem dão ampla divulgação à posição que alcançaram. Já os que não se destacam se esforçam para melhorar a performance no ano seguinte.

Em 3 de outubro, Veja São Paulo publicou uma edição especial com o ranking das cinqüenta melhores escolas da cidade. O trabalho, que é fruto de quase um ano de pesquisa, analisa o desempenho apenas dos estabelecimentos que oferecem ensino fundamental e médio. Resultado de uma experiência sem precedentes na imprensa, o levantamento baseia-se num questionário preparado com a ajuda de uma centena de educadores, diretores de escola, especialistas de universidade, psicólogos e psicopedagogos. Como era de esperar, algumas escolas festejaram o resultado, outras lamentaram não ter seu nome incluído. Houve também muita correspondência enviada por pais de alunos contendo elogios e protestos. Mas merece destaque uma reação inédita de uma entidade chamada Grupo – Associação das Escolas Particulares, que congrega cerca de cinqüenta colégios. O tal Grupo não festejou a presença de integrantes seus no ranking, nem lamentou a ausência de outros. Ele simplesmente divulgou aos pais e alunos desses colégios uma carta repudiando o trabalho.

 
Trecho do manifesto do Grupo de Escolas vociferando contra o ranking dos 50 melhores colégios e faixa do I. L. Peretz (abaixo) festejando a classificação: enquanto uns reclamam, outros comemoram

Num texto com direito a infâmias e mentiras, o Grupo acusa Veja São Paulo de cometer um "desvio ético, num pecado original que desqualifica de partida o seu resultado". Continua o texto: "As escolas, todas elas, foram logradas. Nenhuma delas foi informada do verdadeiro objetivo do trabalho. A maioria absoluta das instituições teria de pronto se recusado a participar de um ranking, de uma lista das melhores". Veja São Paulo não cometeu desvio ético algum. Antes de serem entrevistadas por um pesquisador da Ipsos-Marplan, um dos mais conceituados institutos do país, as escolas que atendiam ao critério definido pela revista receberam uma carta de Veja São Paulo, datada de 10 de abril. No texto, a revista dizia: "Caro diretor: a revista VEJA prepara para uma de suas próximas edições uma ampla reportagem sobre educação. A intenção é traçar uma radiografia das melhores escolas da cidade e publicá-la em Veja São Paulo".

Além de informar o propósito do trabalho, a revista assumiu o compromisso de não publicar informações que pudessem prejudicar a imagem das escolas. Por isso, embora tenham sido pesquisadas 324 instituições, Veja São Paulo não divulgou nenhuma classificação além das cinqüenta primeiras. Vê-se que o Grupo mentiu aos pais e alunos, pois todas as escolas estavam devidamente avisadas de que estaríamos tratando das melhores escolas.

Noutro trecho de sua carta, o Grupo faz uma recomendação aos pais: "Para os nossos alunos e suas famílias, deixamos um alerta: que não transfiram a ninguém o direito inalienável que cada um tem de escolher a melhor escola para si e para seus filhos". Pois é exatamente isso que Veja São Paulo pretendeu oferecer a seus leitores: um instrumento a mais capaz de servir como parâmetro na hora de comparar as escolas antes de matricular os filhos. A preocupação da revista está expressa na primeira das reportagens, na qual se lê: "O trabalho, porém, não tem a pretensão de substituir os pais na tarefa de resolver onde matricular o filho. Antes de tomar qualquer decisão, é imprescindível conhecer bem o local e as pessoas a quem se vai entregar a educação do filho. Ao procurar uma escola, tenha uma boa conversa com o diretor. Verifique há quanto tempo os professores e coordenadores trabalham no colégio, pois uma rotatividade muito grande pode indicar fragilidade do projeto pedagógico. Visite a escola num dia de aula, converse com os alunos e observe se eles gostam do colégio".

Algumas páginas depois, em destaque, aparece um quadro com a seguinte frase: "As escolas desta lista não são necessariamente as mais indicadas a seu filho. É sabido que não existe um colégio ideal para todos os tipos de aluno. Por isso, escolha uma escola que pregue valores parecidos com aqueles que você deseja incutir em seus filhos. E não esqueça, é primordial que eles gostem do colégio". Toda e qualquer crítica ao ranking preparado por Veja São Paulo é bem-vinda, desde que o propósito seja ajudar a revista a melhorar a qualidade do que faz. Entretanto, em vez de criticar possíveis falhas no trabalho, algumas instituições optaram por tentar desqualificar a reportagem com anúncios pagos e manifestos irracionais e raivosos. "Se a imprensa não puder avaliar as escolas, quem poderia? Avaliação é algo que contribui para a melhoria do ensino", afirma Ruy Leite Berger Filho, secretário de Educação Média e Tecnologia do Ministério da Educação.

Criado em 1982, o Grupo funciona mais ou menos como um clube grã-fino, uma grife. Ser integrante dessa associação significa fazer parte da fina flor do ensino da cidade. Mas quais os critérios para que um colégio possa ostentar a grife? Ninguém sabe. Sabe-se apenas que são bastante obscuros e subjetivos. A exemplo dos clubes chiques, o Grupo dá bola preta ou branca a novos candidatos. A maior ironia é que a mesma entidade que vocifera contra a avaliação de Veja São Paulo realiza uma avaliação para admitir novos integrantes. Recentemente, um colégio foi recusado. Por quê? Ninguém sabe.

 

Claudio Rossi


"É totalmente lícito avaliar as escolas particulares. Isso ocorre inclusive em diversos países. Não é só o MEC que pode fazer essa avaliação. Acho que
Veja São Paulo realizou um trabalho importante ao criar um questionário para avaliar itens relacionados à qualidade da educação e acredito que os critérios utilizados na reportagem são bastante coerentes. No Brasil, é difícil fazer com que as pessoas aceitem avaliações. Quando lançamos o Provão, enfrentamos uma resistência enorme de alunos e escolas. Hoje, o Provão está consolidado como um instrumento efetivo de avaliação."

PAULO RENATO,
Ministro da Educação

 

VEJA on-line | Veja São Paulo | Veja Rio | Veja Curitiba
Veja BH | Veja Fortaleza | Veja Porto Alegre | Veja Recife
Edições Especiais | Especiais on-line | Estação Veja