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Walcyr
Carrasco
Crise
doméstica
Some
comida, somem objetos.
Mas de quem era mesmo a culpa?
Minha
amiga foi ao supermercado. Abarrotou a despensa, com detergente
para um mês. Três dias depois, a nova empregada
veio avisar:
Acabou.
De fato.
Havia só um pouquinho no fundo do último frasco.
Será que ela bebeu detergente? pensou.
Dali
a dois dias, não havia bife para o jantar. Estremeceu.
A empregada era magrinha. Não dormia no emprego. Surgiu
a primeira suspeita. Comentou com a faxineira, velha conhecida.
Ela come muito, não come?
Ih... sem parar!
Sentiu-se
miserável. Avarenta. Nunca tinha passado por isso,
controlar o apetite da empregada. Voltou ao supermercado.
Trouxe uma caixa de leite desnatado. Peixes variados. Frutas.
Estou de regime, quero só peixe grelhado com legumes.
Sim senhora.
Fez uma
pequena viagem. Ao voltar, teve um desejo incontrolável
de verificar a despensa. Contou o leite. Só havia metade
das caixinhas. Ficou em dúvida. Calculou:
Bebo meio litro por dia... meu filho dois copos... ela bebeu
o resto!
Voou
para o freezer. Quase todos os peixes tinham desaparecido.
Fofocou com a faxineira:
Ela comeu peixe?
Fritou, sim.
A dúvida
aumentava. Falou com um amigo.
Acho que a empregada está levando comida para casa.
Você vai regular um pouco de comida?
Resolveu
fechar os olhos. Comprou mais leite. As caixinhas criaram
asas. Adotou uma nova rotina. Em vez de fazer compras uma
vez por mês, passou a fazer toda semana. Nos dias seguintes,
deu adeus a 2 quilos de lingüiça, três pacotes
de macarrão e algumas latas de conservas. A dúvida
persistia.
E se eu estiver sendo injusta? Se não tiver contado
bem a comida?
Domésticas,
só tivera as mais honestas que são a
esmagadora maioria. Do tipo que contava moedinha para dar
o troco. Custava a acreditar. Abriu a geladeira e um potinho
de caviar reservado para uma ocasião superespecial
tinha desaparecido. Consolou-se:
Não avisei que não podia comer. A coitada nem
devia saber o que era!
Aconselhou-se.
É normal a empregada levar uma coisa ou outra
disse uma amiga.
Que diferença faz, você está bem de vida!
refletiu a irmã.
Sentiu-se
um monstro. Imaginou a família da empregada feliz,
quando ela chegava com as delícias do dia. Transformou-se
em um feixe de nervos, sentindo-se mesquinha enquanto vigiava
a despensa.
Se ela está roubando, por que a constrangida é
você? admirou-se o terapeuta.
Em casa,
não tinha coragem de encarar a empregada. No fim da
tarde, se escondia no quarto, para a outra ir embora à
vontade. Se a pegasse enchendo a sacola, que desagradável!
A faxineira saiu de férias e voltou com 1 litro de
mel, com favo.
É lá da minha cidade.
Deixou
em cima da mesa. De noite, havia apenas um terço. Já
não era possível fechar os olhos, era atrevimento
demais. Pusera decerto em outro vidro para levar. Envergonhadíssima,
fez as contas, pagou aviso prévio e demitiu. A moça
nem perguntou por quê. Quando ela partiu, notou a sacola
cheia, mas disfarçou, sem coragem de pedir para ver.
No outro dia, deu por falta de duas blusas de lã.
Os amigos
criticaram. Disseram que demitir alguém por uns litros
de leite e mel é coisa de gente pão-dura. Um
dia, ligaram para pedir referências. Hesitou. Não
teve coragem de atrapalhar a vida da empregada.
É ótima, muito ordeira...
Depois,
sentiu-se um traste. Até hoje não entende o
que aconteceu na sua cabeça. A outra roubou. Mas é
ela quem se acha culpada.
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