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Os
santos da casa
Crianças,
vítimas de incêndio e um mendigo
são cultuados como milagreiros em São Paulo
Mônica
Santos*
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| Izildinha,
morta aos 13 anos: um fenômeno popular |
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Antoninho
Marmo: o menino que teria previsto o próprio destino |
Na
próxima sexta-feira, Dia de Finados, cerca de 3 milhões
de paulistanos devem prestar homenagens a seus mortos nos
quarenta cemitérios da cidade. Alguns túmulos
de celebridades, como os de Ayrton Senna, Elis Regina, Jânio
Quadros, Mário de Andrade e marquesa de Santos, recebem
atenção especial dos visitantes. Mas não
são os únicos. Há outros que atraem milhares
de pessoas durante o ano inteiro, sobretudo na segunda-feira,
considerada o "dia das almas". Entre eles estão os
de Izildinha Ribeiro, Felisbina Müller, Antoninho da
Rocha Marmo, "Bento do Portão", "Cezar Rodrigues" e
das chamadas "Treze Almas" mortos não-identificados
no incêndio do Edifício Joelma, em 1974. Trata-se
dos mais conhecidos milagreiros populares da cidade. Sem serem
santos e sem o reconhecimento da Igreja Católica, conquistaram
uma legião de devotos. "Existem uns trinta espalhados
pelos cemitérios de São Paulo", calcula o historiador
Délio Freire dos Santos.
Fotos Renato Chaui

A
sepultura de Bento do Portão, em Santo Amaro, sempre coberta
de flores: orações semanais e uma guardiã que propaga
a história aos devotos |
Enquanto
Santo Expedito é procurado para as causas urgentes
e Santa Edwiges pelos endividados (veja
quadro), esses milagreiros são invocados para
qualquer tipo de problema. "Por favor, tire a Laura de meu
caminho", dizia um bilhete deixado sobre a sepultura de Antoninho
Marmo. Mais romântica, uma moça pedia pela felicidade
dela e do noivo: "Santinha Felisbina, conto com você
para o sucesso de nosso casamento em 2002". A maior parte
das cartas fala de desemprego, doenças e vícios.
"O povo amplia o repertório de santos de acordo com
a necessidade", diz João Décio Passos, professor
de teologia da PUC. Isso explica, segundo ele, o surgimento
contínuo de novos alvos de devoção no
catolicismo, que tem cerca de 700 santos oficializados.
O culto
é visto com cautela pela Igreja Católica. "Rezar
pelos falecidos é um ato de misericórdia", afirma
o padre Eduardo Rodrigues Coelho, membro do Vicariato da Comunicação
da Arquidiocese de São Paulo. "Pode-se pedir para qualquer
um que está no céu interceder junto a Deus para
que algo se realize. Entretanto, quem tem poder para fazer
milagres é Deus." Volta e meia, surgem pedidos de beatificação
desses milagreiros, mas até hoje, de acordo com o padre
Coelho, a Igreja não encontrou motivos para iniciar
um processo de beatificação.
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| Canteiro
do Cemitério São Pedro, com agradecimentos às chamadas
"Treze Almas": vítimas não-identificadas do incêndio do
Edifício Joelma, em 1974, tornaram-se objeto de veneração |
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Escultura
de Cezar Rodrigues, o "Anjinho da Penha": fiéis levam
chupetas, brinquedos e doces |
Todos
eles, em graus diferentes, são fenômenos de devoção
popular que se difundiram sobretudo através do boca-a-boca.
Cláudio Napolitano, administrador do Cemitério
da Quarta Parada, no bairro do Belém, logo que assumiu
o cargo, em fevereiro, surpreendeu-se ao descobrir a quantidade
de devotos de Felisbina Müller, ali enterrada em 1923.
Sua fama começou alguns anos depois da morte, na exumação,
quando o corpo teria se apresentado intacto. Não há
registro algum a respeito, pois nos livros existentes no cemitério
só constam sepultamentos realizados a partir de 1941.
Nada, contudo, parece abalar os fiéis. Pelo menos 400
placas de agradecimento estão sobrepostas ao túmulo.
Em uma delas, é registrada a gratidão "por entrar
no mestrado da USP". A maioria cita curas ou graças
não especificadas. "Alguém ouve falar de uma
graça recebida e pede a sua", acredita Napolitano.
"Se for atendido, passa a fazer propaganda, e a coisa pega."
Ao lado
dos devotos humildes, os milagreiros paulistanos são
também venerados por gente famosa. O auditor Antoninho
Marmo Trevisan, de 52 anos, dono de uma das maiores empresas
de consultoria e auditoria do Brasil, deve seu nome a Antoninho
da Rocha Marmo, que virou "santo" Antoninho após a
morte. Trevisan conta que uma cigana afirmou que sua mãe
perderia o filho durante a gravidez. Ela prometeu que, se
o bebê nascesse com saúde, agradeceria ao milagreiro,
já cultuado na época. "Tornei-me igualmente
devoto", afirma o auditor. "Ando com meu santinho homônimo
todos os dias e, quando viajo, levo um porta-retratos com
uma foto dele. Em Brasília, certa vez, fui procurado
por uma senhora que cultivava um jardim para Antoninho Marmo
do lado do Ministério da Fazenda. Fiquei emocionado."
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| Apesar
de sua história pouco conhecida, Felisbina Müller ganhou
cerca de 400 placas no Quarta Parada: entre as graças
citadas, há até mestrado na USP |
Trevisan
é um entre tantos fiéis do menino que morreu
em 1930, aos 12 anos, com certa aura de santidade. Ela provém,
em primeiro lugar, da resignação com a qual
teria suportado o sofrimento causado pela tuberculose que
o matou. Além disso, diz-se que fazia previsões,
entre elas sobre seu trágico destino. Antoninho chegou
a ser tema de um Caso Verdade (extinto programa da
TV Globo), em 1982. Seu corpo está sepultado no Cemitério
da Consolação. Ao lado, na Rua Mato Grosso,
em uma casa que pertenceu à própria família,
são vendidos santinhos, chaveiros, livros de orações
e camisetas com sua imagem. A renda ajuda na manutenção
de um hospital para crianças carentes em São
José dos Campos.
Dois
outros mortos na infância são bastante venerados
em São Paulo: Izildinha e Cezinha da Penha. Maria Izilda
de Castro Ribeiro, a Izildinha, morreu em Portugal, com 13
anos, em 1911. Na década de 30, seu caixão
com o corpo intacto, de acordo com o que propagam os devotos
foi trazido pelo irmão, o comendador português
Antônio de Castro Ribeiro, e sepultado no Cemitério
São Paulo, em Pinheiros. Em 1958, ele se mudou para
Monte Alto, no interior do Estado, montou uma agroindústria,
passou a fabricar a aveia em flocos Izildinha e transferiu
o jazigo para uma praça da cidade. O comendador morreu
em 1977 e a fábrica fechou, mas a história nunca
parou de arrastar fiéis tanto para Monte Alto como
para o antigo túmulo de Pinheiros, onde muitos rezam
e depositam flores junto a uma foto da menina.
Izildinha
popularizou-se ainda mais graças à novela Torre
de Babel, do paulistano Silvio de Abreu, exibida na Globo
em 1998. Era a ela que a personagem Bina (Claudia Jimenez)
recorria nos momentos de aflição. "Ai, minha
Santa Izildinha", dizia. A Cezar Rodrigues Aguiar são
igualmente creditadas diversas graças. Ele morreu vítima
de meningite, com 5 anos, em 1908. Mãos anônimas
depositam em seu túmulo pequenos presentes: chupetas,
brinquedos, balas, bombons e bolos inteiros, que fazem a festa
de mendigos e gatos. "Ele curou minha filha alcoólatra
e agora peço que ajude meu neto, que levou nove tiros",
disse entre lágrimas, na semana passada, a dona-de-casa
Maria Dolores, enquanto colocava sobre a sepultura uma bandeja
de doces.
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| Eli
Correa, apresentador da Rádio América, costuma divulgar
em seus programas histórias sobre Bento do Portão e guarda
no estúdio uma imagem do mendigo que morreu em 1917: "Visitei
o túmulo duas vezes, mas não fiz pedidos" |
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O
auditor Antoninho Marmo Trevisan recebeu o nome do milagreiro
por causa de uma promessa feita por sua mãe, que temia
perdê-lo durante a gravidez. Hoje, quando viaja, leva
um porta-retratos com a imagem de seu protetor, ladeada
pelas fotos da mulher e da filha |
Eli Correa,
apresentador da Rádio América, ajuda a divulgar
a história dos milagreiros. O radialista não
se diz devoto, mas visitou duas vezes a sepultura de Antoninho
Marmo e a de Bento do Portão. Em seu programa, Correa
volta e meia repete a trajetória deste último.
Antônio Bento (1875-1917) era um mendigo negro que ganhou
o apelido por dois motivos. Vivia de entregar baldes de água
aos moradores de Santo Amaro, onde não havia canalização.
Em troca, recebia alimentos. Comia o que lhe davam no portão
das casas. Acabaria morrendo em outro portão, o do
cemitério do bairro, onde foi sepultado. Cinco anos
mais tarde, em 1922, uma mulher doente pediu para que suas
pernas não fossem amputadas. Teria alcançado
a graça. O túmulo de Bento do Portão
vive repleto de flores e coberto por dezenas de vasos. Toda
segunda-feira, pontualmente às 13 horas, uma sessão
de orações reúne seus devotos. A sepultura
tem uma guardiã, Maria Guerra Feitosa, 66 anos, que
um dia foi ao cemitério em busca de emprego e transformou-se
em devota. Ela dá plantão de segunda a sábado,
das 8 às 17 horas. Troca flores, fala de milagres,
serve água... "Eu não tinha o que comer, agora
tiro uns 100 reais por mês com as doações.
Bento me atendeu", afirma.
O local
onde se encontram sepultados no Cemitério São
Pedro, na Vila Alpina, os treze corpos não-identificados
de vítimas do incêndio do Edifício Joelma,
no qual morreram 188 pessoas, é o mais recente ponto
de peregrinação. Esses mortos são tratados
como "Treze Almas". Ganharam uma capela, erguida há
onze anos por um devoto. Os que vão até lá
rezam, acendem velas, colocam flores e ofertam garrafas d'água.
Como nos demais túmulos dos milagreiros, deixam seus
testemunhos na forma de centenas de placas de agradecimento.
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Os
santos
No
universo dos cerca de 700 santos da Igreja Católica,
alguns são cultuados com maior fervor pelos paulistanos.
Os devotos costumam invocá-los para resolver
problemas específicos, como dívidas. Dos
cinco padroeiros mais populares da cidade, só
Frei Galvão não foi canonizado.

Santa Edwiges
Padroeira dos endividados
Data: 16 de outubro
Principal igreja na cidade: Santuário
Santa Edwiges, Estrada das Lágrimas, 910, Sacomã,
274-2853
Filha de nobres da Baviera, era extremamente simples
e andava descalça sobre o gelo. Usou a fortuna
para construir obras sociais. A partir da década
de 80, passou a ser considerada padroeira dos endividados.
Santo
Expedito
Padroeiro das causas urgentes
Data: 19 de abril
Principal igreja na cidade: Capela Militar de
Santo Expedito, Rua Dr. Jorge Miranda, 264, Luz,
3313-3237
Chefiava uma legião do Império Romano
na região da Armênia. Segundo a lenda,
no momento de sua conversão, um corvo gritou
"cras" (amanhã, em latim). Esmagando o
animal com os pés, o soldado empunhou um crucifixo
e respondeu "hodie" (hoje). Por isso tornou-se
padroeiro das causas urgentes.

São Judas Tadeu
Padroeiro das causas desesperadas
Data: 28 de outubro
Principal igreja na cidade: Santuário
São Judas Tadeu, Avenida Jabaquara, 2682, Mirandópolis,
5072-9928
Foi um dos doze apóstolos, mas pouco se sabe
sobre ele. Em sua epístola, escreveu que a fé
deve perseverar mesmo nos ambientes mais difíceis.
Frei
Galvão
Protetor dos enfermos
Data: 23 de dezembro
Principal igreja na cidade: Mosteiro da Luz,
Avenida Tiradentes, 676,
3311-8745
Tinha fama de curar doentes. Como não podia
atender pessoalmente uma parturiente e um rapaz com
pedra nos rins, escreveu uma oração em
pedacinhos de papel enrolados em forma de pílulas,
dadas aos enfermos, que teriam se curado. Seria a origem
das famosas pílulas do Frei Galvão. Foi
considerado venerável pela Igreja.

Santa Rita de Cássia
Padroeira das causas impossíveis e dos desesperados
Data: 22 de maio
Principal igreja na cidade: Paróquia Santa
Rita de Cássia, Rua Santa Rita, 799, Pari,
6693-7985
Era insultada pelo marido, que lhe pediu perdão
antes de morrer. Conseguiu tornar-se freira, apesar
de só serem aceitas virgens. Em um sermão
sobre crucificação, sentiu um espinho
na testa, que se transformou em ferida. Por causa dela,
ficou reclusa até o fim da vida.
Fotos
Jorge Butsuen, Domingues, Mário Rodrigues e Alexandre
Tokitaka
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Colaborou Lúcia Monteiro
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