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TEATRO
A
dupla que é
uma comédia
Escrito
e produzido por duas atrizes
do Rio, o espetáculo Cócegas
lota
o
Tom Brasil, populariza gírias e se
transforma em um grande sucesso
da temporada
Lúcia
Monteiro


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| Ingrid
Guimarães e Heloísa Périssé
no quadro do pinto e do pingüim: vida dura de figurante
de comercial de televisão |
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Silvio
Santos foi atrás de ingressos, não conseguiu e acabou
pedindo por telefone que o encaixassem entre os convidados, junto
com a mulher e as filhas. Gabriela Duarte assistiu seis vezes. Sandy,
Junior e família rolaram de rir em um camarote. Kaká,
que é evangélico, só não gostou de um
quadro em que aparece uma pastora. Raí, Serginho Groisman,
Marisa Orth e Fernanda Young também se divertiram. Como eles,
12 000 pessoas já se apertaram nas desconfortáveis
mesas da casa de espetáculos Tom Brasil, com 1 200 lugares,
para ver Cócegas.
Montada com um orçamento inicial baixíssimo, de 40
000 reais, a comédia escrita e protagonizada pela dupla Ingrid
Guimarães e Heloísa Périssé caiu no
gosto do público e, na base do boca-a-boca, atraiu 100 000
espectadores no Rio de Janeiro. Em São Paulo, estreou no
início do mês com previsão de ficar dois meses
em cartaz. As apresentações devem estender-se até
o próximo ano.
É
um fenômeno surpreendente. Cócegas
virou a montagem mais comentada e mais concorrida
de uma temporada repleta de boas comédias e teatros cheios
(veja
quadro). Nos fins de semana,
o público congestiona as ruas da Vila Olímpia, e as
filas na frente do Tom Brasil chegam a provocar tumulto.
À saída, quem deixou o carro com o manobrista espera
uns quarenta minutos. Não se trata, naturalmente, de nenhuma
obra-prima da dramaturgia. O texto é simples e tem piadas
previsíveis. Há alguns momentos de reflexão,
como a cena das atrizes frustradas que têm de fantasiar-se
de pingüim e pintinho para sobreviver, mas ninguém sai
de lá pensando na vida. "O espetáculo até faz
uma crítica aos valores vigentes, mas é besteirol",
diz Maria Lúcia Candeias, professora do departamento de artes
cênicas da Unicamp e crítica teatral.
Fotos Mario Rodrigues
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drigues
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| Heloísa,
perdida em São Paulo: "Nossa, a Oscar Freire é um luxo. Parece
Paris!" |
Ingrid,
de volta à cidade onde estudou: "Sonho é
o que está acontecendo agora" |
Cócegas
caiu no gosto dos paulistanos e, antes, no dos cariocas por sua
capacidade de fazer rir. O talento da dupla para reproduzir trejeitos
e gírias do cotidiano é infalível. Cada um
dos nove esquetes se baseia em personagens daqueles que todo mundo
viu pelo menos uma vez por aí, temperados, é claro,
com boas doses de exagero e escracho. "A comédia funciona
quando a platéia se identifica com o que acontece no palco",
afirma a veterana atriz cômica Berta Loran, com 52 anos de
carreira. É o que acontece quando entra no palco a hilária
professora de ginástica criada por Heloísa, que passa
os exercícios para os alunos, lixa a unha, briga com o filho
pelo telefone e ainda vende roupas, tudo ao mesmo tempo. Para criar
tipos como esse, Ingrid e Heloísa dizem que se inspiraram
em sua própria vida. "Fui viciada em ginástica e hoje
malho pelo menos três vezes por semana, com personal trainer",
conta Heloísa.
João Passos
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Mario Rodrigues
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| Silvio
Santos queria ver a peça, mas os ingressos estavam esgotados.
Ligou pessoalmente e pediu que a produção o incluísse entre
os convidados |
O
craque Kaká sentou na primeira fila com o colega Júlio
Batista: "Ri o tempo todo. Só não gostei
da pastora. Acho ruim fazer humor com religião"
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As
duas têm a rara capacidade de rir de si mesmas. Ingrid, que
namorou o músico Davi Moraes, filho de Moraes Moreira e recém-casado
com Ivete Sangalo, faz um quadro de uma mulher encalhada que teve
apenas dois namorados. Um deles, músico. "Todos acham que
é o Davi e vivem perguntando a mesma coisa para mim e para
ele", diverte-se. "Foi um outro namorado que eu tive, bem brega,
que ia para a praia tocando violão no carro. E mal." Um dos
pontos altos é a cena em que Ingrid faz uma pastora charlatã,
empenhada em conseguir doações para sua igreja. "Pastora
não, é perua de Deus", corrige Heloísa, que
é presbiteriana, reza sempre antes de entrar em cena e fala
por telefone com seus pastores toda semana. O melhor é quando
pega pessoas da platéia para ser purificadas, cantar e repetir
os passinhos de uma coreografia no palco. Serginho Groisman, Gabriela
Duarte e o DJ Zé Pedro pagaram esse mico, além de
vários outros colaboradores anônimos. É de chorar
de dar risada. "Eu fiquei muito sem jeito. Os espectadores se divertiram
à minha custa, mas consegui me divertir também", afirma
Serginho, que foi chamado de "emaconhado" por Ingrid na estréia
paulistana.
"Quis
fazer uma crítica às igrejas que se aproveitam dos
momentos de crise para explorar os fiéis", diz Ingrid, que
escreveu o quadro. As diferenças entre ela e Heloísa
são enormes, embora convivam como amigas há dez anos,
desde as aulas de teatro no Tablado e uma oficina de humor na TV
Globo. Heloísa, ou Lolô, nasceu no Rio de Janeiro,
mora na Barra da Tijuca, tem 36 anos e foi casada com um filho de
Chico Anysio, Lug de Paula, o "Seu Boneco" da Escolinha do Professor
Raimundo. Com ele teve Luísa, de 3 anos, fonte de inspiração
para a peça infantil Cosquinha (veja
quadro). Ingrid é de Goiânia, mora no
Leblon, tem 30 anos e quer ser mãe. Em São Paulo,
ela aproveita o tempo livre para ir às compras nos Jardins.
Saiu da butique moderninha Cavalera com uma calça jeans nova.
Heloísa é mais perdida por aqui. "Nossa, que luxo!
Isso parece Paris", disse ao chegar à Rua Oscar Freire. Na
segunda passada, voltou para o Rio de cabelo novo, cortado e repicado
pela tesoura de Wanderley Nunes.
Eliane Coster
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Fernando Figueiredo
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| Na
estréia, o apresentador Serginho Groisman foi chamado
de "emaconhado" pela pastora e teve de dançar
no palco: "Adoro as meninas, mas fiquei sem jeito"
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Numa
mesinha do camarote ao lado do irmão Junior e dos pais,
a cantora Sandy causou frisson na platéia e fez muita
gente entortar o pescoço para vê-la |
Lolô
é fã de Groucho Marx e superacelerada. Ingrid prefere
Chaplin e é, como diz Lolô, uma "atriz-processo". Participou
durante oito meses das aulas do Centro de Pesquisas Teatrais, o
CPT, em São Paulo, com o diretor Antunes Filho. Alguns de
seus personagens de Cócegas surgiram há mais
de dez anos, durante as turnês de Confissões de
Adolescente, espetáculo visto por 800.000
pessoas, em que contracenou com Maria Mariana, Carol Machado, Bebel
Lobo e Gabriela Duarte. "Vi a modelo anoréxica nascer", lembra
Gabriela, referindo-se à personagem Leandra, que come alface,
rúcula, brócolis e gelo. "A Ingrid ficava imitando
essas meninas desde que a gente tinha uns 17 anos." Tati, a adolescente
"tipo assim" de Heloísa, surgiu para a peça, mas estreou
antes na Escolinha do Professor Raimundo. O sucesso da garota
que fica o tempo inteiro ao telefone e tem uma mãe "mocréia"
e "nojenta" que "ninguém merece" foi parar no Fantástico.
No Tom Brasil, assim que muda o cenário e surgem a parede
coberta de pôsteres de artistas e um armário bem bagunçado,
a platéia aplaude. Cara, você não tem noção!
É um legítimo carioquês adolescente. A platéia
sai do teatro imitando.
O
sotaque da peça as fez pensar e repensar antes de vir para
cá, temendo que as piadas não surtissem o mesmo efeito.
"Quando elas estrearam aqui, ficaram surpresas com o sucesso", diz
o DJ Zé Pedro, que se tornou amigo da dupla depois de adorar
o espetáculo. "A linguagem da Tati é do Rio, mas adolescente
é assim no mundo inteiro", afirma a crítica Maria
Lúcia Candeias. Apesar disso, elas tiveram de mexer aqui
e ali, pois algumas coisas não faziam sentido para o público
paulistano.
Renato Chaui
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Leo Feltran
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| Amiga
de Ingrid Guimarães há mais de dez anos, a atriz Gabriela Duarte
já foi assistir seis vezes: "Gosto muito desse humor de observação
e crítica" |
O
DJ Zé Pedro viu Cócegas e o infantil Cosquinha:
"Um fenômeno. E olha que, como sou engraçado,
acho difícil rir dos outros" |
Nos
poucos minutos que separam um esquete do outro, as duas se encontram
nas coxias e trocam impressões sobre as reações
de cada piada. "A gente tem de encontrar um equivalente para a calça
da Gang. Ninguém ri...", diz uma, referindo-se à marca
preferida das "cachorras" cariocas. "Para onde vai o pessoal paz
e amor de São Paulo? Precisamos substituir Mauá por
outro lugar", sugere a outra. No meio do almoço, lembram
que precisam consertar a cadeira do cenário. De férias
em Paris no Carnaval do ano passado, acabaram trancadas no hotel,
escrevendo textos e projetos. Elas não param um minuto. É
essa obsessão pelo trabalho que une as autoras-atrizes. Mesmo
com a convivência longa e intensa, ainda têm assunto
de sobra. Nos intervalinhos, além de opiniões sobre
a peça, falam sobre cabelo, maquiagem, roupa nova, namorados...
Ingrid namora há sete meses o fotógrafo Zeca Fonseca,
e Lolô, há cinco, o cineasta Mauro Farias, filho do
cineasta Roberto Farias e sobrinho do ator Reginaldo Faria.
Na
esteira do sucesso, elas escreveram um livro de crônicas e
gravaram CD com a trilha de Cosquinha. Recentemente, venderam
o texto para uma produção argentina e receberam propostas
de Portugal e Miami. Foram contratadas como autoras e atrizes pela
Rede Globo desde fevereiro deste ano. Querem transformar o espetáculo
em filme e trocar os esquetes de tempo em tempo, para que não
se esgotem. "Sonho para mim é o que está acontecendo
agora", suspira Ingrid. Como diz Tati, elas mandaram muito bem.
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Quando
os pais saem, as
meninas fazem a festa
Sérgio
Martins
Divulgação
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| Imaginação
solta: aula de balé de faz-de-conta |
Cosquinha
é um besteirinho (a versão caçula do
besteirol) em que a interpretação das atrizes
Heloisa Périssé e Ingrid Guimarães supera
a rasa lição de moral e os claudicantes números
musicais. Domingo à tarde, no mesmo Tom Brasil onde
apresentam Cócegas, elas interpretam Luísa
e Amanda, crianças que viram o apartamento de cabeça
para baixo durante uma pequena escapada dos pais. O detalhe
moderno é que o pai de Amanda é casado com a
mãe de Luísa o que incita as meninas
a comparar o tratamento dado numa casa e noutra. Após
o estranhamento inicial, as duas saqueiam a geladeira, bagunçam
o guarda-roupa da mãe, fazem uma crítica inocente
à eterna falta de tempo dos pais para brincar com os
filhos, infernizam a vida dos vizinhos e, por fim, chegam
à conclusão de que são boas amigas.
Ambas
estão ótimas no papel, mas Ingrid leva uma boa
vantagem sobre a companheira de cena. A expressão de
pé-atrás com que Amanda entra na casa do pai
e suas caretas na hora em que brinca de aula de balé
e modelo valem o ingresso. Os melhores momentos de Heloisa
são quando ela encarna uma mãe perua a dar broncas
no ex-marido.
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Rir
ainda é o melhor remédio
Várias
comédias fazem sucesso nos teatros da cidade. Algumas
provocam boas risadas do começo ao fim. Em outras,
as piadas são mais sutis. E, claro, existem as que
usam e abusam de palavrões.
COM
A PULGA ATRÁS DA ORELHA. Um marido, uma mulher
e a suspeita de traição. A fórmula para
confusões em cena e muito riso na platéia funciona
nessa trama protagonizada por Maitê Proença.
CONVERSA
PRIVADA. A trupe carioca O Grelo Falante provoca e às
vezes constrange a platéia. São quatro atrizes
que falam sobre sexo, homens, regime e aspectos, digamos assim,
da fisiologia humana.
Lenise Pinheiro
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A
IMPORTÂNCIA DE SER FIEL. O texto do irlandês
Oscar Wilde não é para dar gargalhadas. Trata-se
de um humor fino, com ironias e críticas ao esnobismo
da sociedade vitoriana.
AS
MENTIRAS QUE OS HOMENS CONTAM. Levadas ao palco, as crônicas
de Luis Fernando Verissimo revelam divertidos tipos caricatos
do universo masculino.
Divulgação
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OS
MONÓLOGOS DA VAGINA. O sucesso dirigido por Miguel
Falabella já ultrapassou a marca de 500 apresentações.
Os espectadores rolam de rir com um bate-papo sobre orgasmo
e outros temas afins.
QUEM
VAI FICAR COM A VELHA? A comédia de costumes chega
à cidade embalada por muitos aplausos no Rio de Janeiro.
Berta Loran vive a tia velha que a família tenta colocar
num asilo.
SETE
MINUTOS. Cansado dos maus modos de seu público,
Antonio Fagundes é autor e protagonista dessa sátira
sobre o assunto. As pessoas se reconhecem e não conseguem
conter o riso.
SEXO.
Tiradas cômicas na ponta da língua são
as armas da Cia. Os Melhores do Mundo. Desde agosto, o grupo
de Brasília levou 10.000 pessoas
ao Teatro Folha. Os atores encarnam esdrúxulos personagens
em risíveis momentos de intimidade.
TERÇA
INSANA. No show de variedades que está em cartaz
há um ano no Cabaré N.Ex.T, há personagens
engraçadíssimos, como uma traficante de drogas
e uma viciada em Lexotan.
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