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30 de outubro de 2002
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A OPINIÃO DO LEITOR
CRÔNICA
   

TEATRO

A dupla que é
uma comédia

Escrito e produzido por duas atrizes
do Rio, o espetáculo
Cócegas
lota o
Tom Brasil, populariza gírias e se
transforma em um grande sucesso
da temporada

Lúcia Monteiro




Ingrid Guimarães e Heloísa Périssé no quadro do pinto e do pingüim: vida dura de figurante de comercial de televisão



Veja também
Trechos do livro
Ouça músicas do CD Cosquinha
  Amanda e Luísa  
  Forrósamba da Cozinha  
  Aula de Balé  
  Cosquinha (A Canção)  

Silvio Santos foi atrás de ingressos, não conseguiu e acabou pedindo por telefone que o encaixassem entre os convidados, junto com a mulher e as filhas. Gabriela Duarte assistiu seis vezes. Sandy, Junior e família rolaram de rir em um camarote. Kaká, que é evangélico, só não gostou de um quadro em que aparece uma pastora. Raí, Serginho Groisman, Marisa Orth e Fernanda Young também se divertiram. Como eles, 12 000 pessoas já se apertaram nas desconfortáveis mesas da casa de espetáculos Tom Brasil, com 1 200 lugares, para ver Cócegas. Montada com um orçamento inicial baixíssimo, de 40 000 reais, a comédia escrita e protagonizada pela dupla Ingrid Guimarães e Heloísa Périssé caiu no gosto do público e, na base do boca-a-boca, atraiu 100 000 espectadores no Rio de Janeiro. Em São Paulo, estreou no início do mês com previsão de ficar dois meses em cartaz. As apresentações devem estender-se até o próximo ano.

É um fenômeno surpreendente. Cócegas virou a montagem mais comentada e mais concorrida de uma temporada repleta de boas comédias e teatros cheios (veja quadro). Nos fins de semana, o público congestiona as ruas da Vila Olímpia, e as filas na frente do Tom Brasil chegam a provocar tumulto. À saída, quem deixou o carro com o manobrista espera uns quarenta minutos. Não se trata, naturalmente, de nenhuma obra-prima da dramaturgia. O texto é simples e tem piadas previsíveis. Há alguns momentos de reflexão, como a cena das atrizes frustradas que têm de fantasiar-se de pingüim e pintinho para sobreviver, mas ninguém sai de lá pensando na vida. "O espetáculo até faz uma crítica aos valores vigentes, mas é besteirol", diz Maria Lúcia Candeias, professora do departamento de artes cênicas da Unicamp e crítica teatral.


Fotos Mario Rodrigues
drigues
Heloísa, perdida em São Paulo: "Nossa, a Oscar Freire é um luxo. Parece Paris!" Ingrid, de volta à cidade onde estudou: "Sonho é o que está acontecendo agora"

Cócegas caiu no gosto dos paulistanos e, antes, no dos cariocas por sua capacidade de fazer rir. O talento da dupla para reproduzir trejeitos e gírias do cotidiano é infalível. Cada um dos nove esquetes se baseia em personagens daqueles que todo mundo viu pelo menos uma vez por aí, temperados, é claro, com boas doses de exagero e escracho. "A comédia funciona quando a platéia se identifica com o que acontece no palco", afirma a veterana atriz cômica Berta Loran, com 52 anos de carreira. É o que acontece quando entra no palco a hilária professora de ginástica criada por Heloísa, que passa os exercícios para os alunos, lixa a unha, briga com o filho pelo telefone e ainda vende roupas, tudo ao mesmo tempo. Para criar tipos como esse, Ingrid e Heloísa dizem que se inspiraram em sua própria vida. "Fui viciada em ginástica e hoje malho pelo menos três vezes por semana, com personal trainer", conta Heloísa.


João Passos
Mario Rodrigues
Silvio Santos queria ver a peça, mas os ingressos estavam esgotados. Ligou pessoalmente e pediu que a produção o incluísse entre os convidados O craque Kaká sentou na primeira fila com o colega Júlio Batista: "Ri o tempo todo. Só não gostei da pastora. Acho ruim fazer humor com religião"

As duas têm a rara capacidade de rir de si mesmas. Ingrid, que namorou o músico Davi Moraes, filho de Moraes Moreira e recém-casado com Ivete Sangalo, faz um quadro de uma mulher encalhada que teve apenas dois namorados. Um deles, músico. "Todos acham que é o Davi e vivem perguntando a mesma coisa para mim e para ele", diverte-se. "Foi um outro namorado que eu tive, bem brega, que ia para a praia tocando violão no carro. E mal." Um dos pontos altos é a cena em que Ingrid faz uma pastora charlatã, empenhada em conseguir doações para sua igreja. "Pastora não, é perua de Deus", corrige Heloísa, que é presbiteriana, reza sempre antes de entrar em cena e fala por telefone com seus pastores toda semana. O melhor é quando pega pessoas da platéia para ser purificadas, cantar e repetir os passinhos de uma coreografia no palco. Serginho Groisman, Gabriela Duarte e o DJ Zé Pedro pagaram esse mico, além de vários outros colaboradores anônimos. É de chorar de dar risada. "Eu fiquei muito sem jeito. Os espectadores se divertiram à minha custa, mas consegui me divertir também", afirma Serginho, que foi chamado de "emaconhado" por Ingrid na estréia paulistana.

"Quis fazer uma crítica às igrejas que se aproveitam dos momentos de crise para explorar os fiéis", diz Ingrid, que escreveu o quadro. As diferenças entre ela e Heloísa são enormes, embora convivam como amigas há dez anos, desde as aulas de teatro no Tablado e uma oficina de humor na TV Globo. Heloísa, ou Lolô, nasceu no Rio de Janeiro, mora na Barra da Tijuca, tem 36 anos e foi casada com um filho de Chico Anysio, Lug de Paula, o "Seu Boneco" da Escolinha do Professor Raimundo. Com ele teve Luísa, de 3 anos, fonte de inspiração para a peça infantil Cosquinha (veja quadro). Ingrid é de Goiânia, mora no Leblon, tem 30 anos e quer ser mãe. Em São Paulo, ela aproveita o tempo livre para ir às compras nos Jardins. Saiu da butique moderninha Cavalera com uma calça jeans nova. Heloísa é mais perdida por aqui. "Nossa, que luxo! Isso parece Paris", disse ao chegar à Rua Oscar Freire. Na segunda passada, voltou para o Rio de cabelo novo, cortado e repicado pela tesoura de Wanderley Nunes.


Eliane Coster
Fernando Figueiredo
Na estréia, o apresentador Serginho Groisman foi chamado de "emaconhado" pela pastora e teve de dançar no palco: "Adoro as meninas, mas fiquei sem jeito" Numa mesinha do camarote ao lado do irmão Junior e dos pais, a cantora Sandy causou frisson na platéia e fez muita gente entortar o pescoço para vê-la

Lolô é fã de Groucho Marx e superacelerada. Ingrid prefere Chaplin e é, como diz Lolô, uma "atriz-processo". Participou durante oito meses das aulas do Centro de Pesquisas Teatrais, o CPT, em São Paulo, com o diretor Antunes Filho. Alguns de seus personagens de Cócegas surgiram há mais de dez anos, durante as turnês de Confissões de Adolescente, espetáculo visto por 800.000 pessoas, em que contracenou com Maria Mariana, Carol Machado, Bebel Lobo e Gabriela Duarte. "Vi a modelo anoréxica nascer", lembra Gabriela, referindo-se à personagem Leandra, que come alface, rúcula, brócolis e gelo. "A Ingrid ficava imitando essas meninas desde que a gente tinha uns 17 anos." Tati, a adolescente "tipo assim" de Heloísa, surgiu para a peça, mas estreou antes na Escolinha do Professor Raimundo. O sucesso da garota que fica o tempo inteiro ao telefone e tem uma mãe "mocréia" e "nojenta" que "ninguém merece" foi parar no Fantástico. No Tom Brasil, assim que muda o cenário e surgem a parede coberta de pôsteres de artistas e um armário bem bagunçado, a platéia aplaude. Cara, você não tem noção! É um legítimo carioquês adolescente. A platéia sai do teatro imitando.

O sotaque da peça as fez pensar e repensar antes de vir para cá, temendo que as piadas não surtissem o mesmo efeito. "Quando elas estrearam aqui, ficaram surpresas com o sucesso", diz o DJ Zé Pedro, que se tornou amigo da dupla depois de adorar o espetáculo. "A linguagem da Tati é do Rio, mas adolescente é assim no mundo inteiro", afirma a crítica Maria Lúcia Candeias. Apesar disso, elas tiveram de mexer aqui e ali, pois algumas coisas não faziam sentido para o público paulistano.


Renato Chaui
Leo Feltran
Amiga de Ingrid Guimarães há mais de dez anos, a atriz Gabriela Duarte já foi assistir seis vezes: "Gosto muito desse humor de observação e crítica" O DJ Zé Pedro viu Cócegas e o infantil Cosquinha: "Um fenômeno. E olha que, como sou engraçado, acho difícil rir dos outros"

Nos poucos minutos que separam um esquete do outro, as duas se encontram nas coxias e trocam impressões sobre as reações de cada piada. "A gente tem de encontrar um equivalente para a calça da Gang. Ninguém ri...", diz uma, referindo-se à marca preferida das "cachorras" cariocas. "Para onde vai o pessoal paz e amor de São Paulo? Precisamos substituir Mauá por outro lugar", sugere a outra. No meio do almoço, lembram que precisam consertar a cadeira do cenário. De férias em Paris no Carnaval do ano passado, acabaram trancadas no hotel, escrevendo textos e projetos. Elas não param um minuto. É essa obsessão pelo trabalho que une as autoras-atrizes. Mesmo com a convivência longa e intensa, ainda têm assunto de sobra. Nos intervalinhos, além de opiniões sobre a peça, falam sobre cabelo, maquiagem, roupa nova, namorados... Ingrid namora há sete meses o fotógrafo Zeca Fonseca, e Lolô, há cinco, o cineasta Mauro Farias, filho do cineasta Roberto Farias e sobrinho do ator Reginaldo Faria.

Na esteira do sucesso, elas escreveram um livro de crônicas e gravaram CD com a trilha de Cosquinha. Recentemente, venderam o texto para uma produção argentina e receberam propostas de Portugal e Miami. Foram contratadas como autoras e atrizes pela Rede Globo desde fevereiro deste ano. Querem transformar o espetáculo em filme e trocar os esquetes de tempo em tempo, para que não se esgotem. "Sonho para mim é o que está acontecendo agora", suspira Ingrid. Como diz Tati, elas mandaram muito bem.

 

Quando os pais saem, as
meninas fazem a festa

Sérgio Martins


Divulgação
Imaginação solta: aula de balé de faz-de-conta

Cosquinha é um besteirinho (a versão caçula do besteirol) em que a interpretação das atrizes Heloisa Périssé e Ingrid Guimarães supera a rasa lição de moral e os claudicantes números musicais. Domingo à tarde, no mesmo Tom Brasil onde apresentam Cócegas, elas interpretam Luísa e Amanda, crianças que viram o apartamento de cabeça para baixo durante uma pequena escapada dos pais. O detalhe moderno é que o pai de Amanda é casado com a mãe de Luísa – o que incita as meninas a comparar o tratamento dado numa casa e noutra. Após o estranhamento inicial, as duas saqueiam a geladeira, bagunçam o guarda-roupa da mãe, fazem uma crítica inocente à eterna falta de tempo dos pais para brincar com os filhos, infernizam a vida dos vizinhos e, por fim, chegam à conclusão de que são boas amigas.


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Mais informações sobre Cosquinha
Ouça músicas do CD Cosquinha
  Amanda e Luísa  
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  Aula de Balé  
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Ambas estão ótimas no papel, mas Ingrid leva uma boa vantagem sobre a companheira de cena. A expressão de pé-atrás com que Amanda entra na casa do pai e suas caretas na hora em que brinca de aula de balé e modelo valem o ingresso. Os melhores momentos de Heloisa são quando ela encarna uma mãe perua a dar broncas no ex-marido.

 

Rir ainda é o melhor remédio

Várias comédias fazem sucesso nos teatros da cidade. Algumas provocam boas risadas do começo ao fim. Em outras, as piadas são mais sutis. E, claro, existem as que usam e abusam de palavrões.

COM A PULGA ATRÁS DA ORELHA. Um marido, uma mulher e a suspeita de traição. A fórmula para confusões em cena e muito riso na platéia funciona nessa trama protagonizada por Maitê Proença.

CONVERSA PRIVADA. A trupe carioca O Grelo Falante provoca e às vezes constrange a platéia. São quatro atrizes que falam sobre sexo, homens, regime e aspectos, digamos assim, da fisiologia humana.

Lenise Pinheiro

A IMPORTÂNCIA DE SER FIEL. O texto do irlandês Oscar Wilde não é para dar gargalhadas. Trata-se de um humor fino, com ironias e críticas ao esnobismo da sociedade vitoriana.

AS MENTIRAS QUE OS HOMENS CONTAM. Levadas ao palco, as crônicas de Luis Fernando Verissimo revelam divertidos tipos caricatos do universo masculino.

Divulgação

OS MONÓLOGOS DA VAGINA. O sucesso dirigido por Miguel Falabella já ultrapassou a marca de 500 apresentações. Os espectadores rolam de rir com um bate-papo sobre orgasmo e outros temas afins.

QUEM VAI FICAR COM A VELHA? A comédia de costumes chega à cidade embalada por muitos aplausos no Rio de Janeiro. Berta Loran vive a tia velha que a família tenta colocar num asilo.

SETE MINUTOS. Cansado dos maus modos de seu público, Antonio Fagundes é autor e protagonista dessa sátira sobre o assunto. As pessoas se reconhecem e não conseguem conter o riso.

SEXO. Tiradas cômicas na ponta da língua são as armas da Cia. Os Melhores do Mundo. Desde agosto, o grupo de Brasília levou 10.000 pessoas ao Teatro Folha. Os atores encarnam esdrúxulos personagens em risíveis momentos de intimidade.

 
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Horários e endereços das comédias em cartaz

TERÇA INSANA. No show de variedades que está em cartaz há um ano no Cabaré N.Ex.T, há personagens engraçadíssimos, como uma traficante de drogas e uma viciada em Lexotan.

         
     
 
 
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