| |

Quanto
pior melhor
O sucesso
de programas baratos que
detonam os clichês do mundo pop
Rodrigo
Pereira e Fernando Souza
Antonio Milena

|
| Carla
Tenore, a
Vampira: audiência alavancada
no Cine Sinistro |
Uma deliciosa sugadora de sangue, um VJ metido a engraçadinho
e cinco patetas que parecem saídos de uma pornochanchada
da Boca do Lixo são os atuais mestres na arte de transformar
lixo em audiência. Sob o comando de Marcos Mion, Os
Piores Clipes do Mundo virou cult na MTV, assim como o
besteirol nonsense de Hermes e Renato. Ambos estão
entre os programas mais vistos da emissora. Mas o grande vitorioso
da atual onda trash televisiva é o Cine Sinistro,
da Bandeirantes. Na Grande São Paulo, a sessão
de filmes de terror B dá 6 pontos no Ibope, o correspondente
a 480.000 espectadores. Algo como
seis estádios do Morumbi assistindo, à meia-noite
de sábado, a aberrações como Grito
de Horror 6 e O Santuário do Medo 2. Parte
do, vá lá, fascínio do Cine Sinistro
deve-se a Carla Tenore, 27 anos, que encarna a apresentadora
Vampira. A ex-modelo estreou em outubro, com uma peruca morena
e um figurino kitsch que incluía biquíni e capinha
de super-heroína. A boa audiência levou a Band
a investir mais na personagem.
Vampira
agora tem o cabelo loiro tingido de ruivo e usa short e top
minúsculos assinados por Alexandre Herchcovitch. Ganhou
um quadro no programa SuperPositivo, foi escalada para
cobrir o Carnaval e deve ter em breve o próprio site.
"As pessoas assediam muito, mas parecem ter medo de que eu
morda pescoços", diz ela. Medo? Como assim? O formato
é herdeiro direto do Cine Trash, que José
Mojica Marins, o Zé do Caixão, apresentava com
sucesso no mesmo canal em 1996. "Adoraria saber a opinião
dele sobre meu trabalho", declara (então, Vampira,
veja quadro). A cada intervalo, a
anfitriã tira um barato dos defeitos especiais e roteiros
precários das produções que exibe. Cinco
horas são gastas para gravar, num estúdio, os
oito minutos em que ela permanece no ar. As piadas infames
dão o tom. Dia desses, numa referência ao serial
killer que escalpela suas vítimas no filme Skinner,
Vampira disparou: "O que existe entre mim e ele é uma
coisa de pele".
Renata Ursaia

Hermes
e Renato,
os malandros
lesados:
seriado
besteirol em
clima de pornochanchada |
Na MTV, o grotesco dá as cartas em Hermes e Renato,
d MTV, o grotesco dá as cartas em Hermes e Renato,
dupla cômica de malandros lesados que passa às
segundas, das 23h45 à meia-noite. Baseado nas pornochanchadas
dos anos 70, o seriado abusa de palavrões, pancadaria,
ambientes urbanos decadentes, samba-rock e figurino à
Castor de Andrade. A caracterização é
propositadamente precária a personagem Jandira,
por exemplo, não disfarça o cavanhaque e os
pêlos do comediante Adriano Pereira da Silva. Às
vezes não tem graça, e até por isso é
engraçado. Criada pelos fluminenses Marco Antonio Alves
(Hermes), Fausto Fanti Jasmin (Renato) e outros três
amigos, a produção tem como cenário um
imóvel na City Lapa. Uma semana por mês, os cinco
jovens, cuja idade média é 21 anos, vestem perucas,
roupas de brechós e óculos de sol antigos para
gravar os programetes. "O espectador se identifica porque
percebe que ele próprio poderia estar produzindo aquilo",
afirma Gustavo Guimarães, diretor do programa. Em breve,
a grife A Mulher do Padre deve lançar uma coleção
inspirada na série, e até o final do ano Hermes
e Renato poderão estrelar um longa-metragem.
Renato Chaui

Mion,
do Piores Clipes:
deboche e muita bobagem |
O VJ revelação Marcos Mion ancora outra atração
do gênero. Os Piores Clipes do Mundo foi inspirado
num projeto da matriz americana que nunca saiu do papel. "Pára,
pára, pára, volta, volta, volta", pede o apresentador
dezenas de vezes a cada edição, enquanto aponta
no telão as deficiências técnicas dos
clipes. Com improvisos, algumas sacadas e muita bobagem (como
contracenar com um cavalinho de pau), ele ganhou público
e espaço na MTV. Neste ano, Piores dobra de
duração e ocupa horário nobre
terças, das 22 horas às 23 horas. Dos inevitáveis
banhos de sangue nos filmes do Cine Sinistro ao músico
que erra a coreografia nos Piores Clipes, a ordem é
descortinar os lugares-comuns da cultura pop. O público-alvo,
adolescentes que não engolem o pretenso realismo das
novelas globais, vai ao delírio. Os próprios
apresentadores compartilham esse gosto pela avacalhação.
"Adoro fitas de terror explícito, cheias de gosma e
monstros", jura Carla Tenore. "Não sei fazer outra
coisa. Estaria pedindo esmolas se não tivesse sido
contratado", brinca Marco Antonio, o Hermes. E Marcos Mion,
vale lembrar, era ator no seriado Sandy e Junior antes
de ser VJ.
|
O
pai da criança ataca novamente
Leo Feltran

Mojica,
o Zé
do Caixão: de
cineasta maldito
ao inofensivo
Caldeirão
do
Huck |
Justiça seja feita: o primeiro a aterrorizar
a TV brasileira foi o diretor, ator e figuraça
José Mojica Marins. Nos anos 60, ele comandou
Além, Muito Além do Além
e O Estranho Mundo de Zé do Caixão.
Em 1981, voltou com Um Show do Outro Mundo. Ele
próprio dirigia a maioria dos episódios
que apresentava. O horror enlatado só surgiu
em 1996, quando esteve à frente do Cine Trash,
na Band. "As fitas do Cine Sinistro são
as mesmas, e a menina fala diretamente para a câmara,
como eu sempre fiz", reclama. Mas ele não tem
muito do que se queixar. Maldito, documentário
sobre sua carreira, acaba de receber uma menção
especial do Júri de Cinema Latino no Festival
de Sundance, nos Estados Unidos. Além disso,
Mojica vai roteirizar e dirigir um vídeo, A
Razão da Minha Vida, para o programa global
Caldeirão do Huck. "Nada a ver com esse
trash atual, que mais parece uma comédia-pastelão",
esquarteja.
|
|