"Estou mais para intelectual"

Cansada de badalação, Yara Baumgart vira empresária de sucesso, entra na faculdade e diz odiar o rótulo "socialite"

Daniela Pinheiro

 
Mário Rodrigues
Yara em sua clínica estética: o hábito pessoal tornou-se
um grande negócio

Há socialites e socialites. Todas fazem muitas compras, são aficionadas a cabeleireiros e adoram aparecer em colunas sociais. Mas há aquelas que não se contentam em ser apenas uma figura sorridente ao lado do marido rico ou do cachorrinho em um retrato estampado em jornais. Mais que tudo, querem provar que o binômio madame-trabalho é viável. Em alguns casos, muito lucrativo. Aos 53 anos, a paulistana Yara Rossi Baumgart conseguiu. Ela é o melhor exemplo de quem se livrou dos rótulos de perua, locomotiva e dondoca arregaçando as mangas de seda pura e transformando os hábitos pessoais em ainda mais dinheiro para sua já gorda conta bancária. Acostumada com cremes, massagens, plásticas e muita ginástica, Yara fez disso um grande negócio. Há dez anos, abriu modestamente a clínica de estética Kyron no bairro do Itaim. Agora, o negócio está prestes a se tornar o maior empreendimento do ramo de que se tem notícia. Depois do Carnaval, com a inauguração da primeira filial da Kyron no Shopping Iguatemi, Yara Baumgart passa a ser a rainha das clínicas brasileiras de beleza. Somadas, as duas Kyron são imbatíveis: área total de quase 2.000 metros quadrados, dez consultórios médicos, sessenta profissionais e um faturamento esperado de 6 milhões de reais por ano.

 
Lourival Ribeiro
Egberto Nogueira
Os Baumgart reunidos, a partir da esq.: Beatriz, Otto, Cristina, Karin, Yara e Roberto. Acima, a filha Karin vestida de Versace em seu concorrido début em Paris

As clínicas, porém, são fichinha na vida de Yara Baumgart, que ela mesma define como "uma delícia". Tem quatro filhos e é casada há trinta anos com o empresário Roberto Baumgart – a quem chama carinhosamente de "Rolly" –, herdeiro do grupo Center Norte-Vedacit, que além dos shoppings Lar Center e Center Norte engloba a maior fábrica de produtos químicos para construção civil do país. Embora more em uma das mais espetaculares casas de São Paulo, a família Baumgart procura preservar ao máximo sua privacidade. Abre os imensos portões somente para os amigos. Yara pouco fica lá, pois acorda às 6 da manhã, faz ginástica na academia que montou junto da garagem, sai para ir à luta e em geral volta tarde da noite. Durante o dia, divide seu tempo entre a Kyron e a Faculdade de Filosofia da PUC, onde cursa o 2º ano. Está animada com a perspectiva de dividir a classe neste semestre com o ex-jogador Raí. "Não seria nada mau", brinca. Outro foco de sua atenção é a galeria de arte que abriu no ano passado. A Art Millenium tem um acervo de 300 obras, a maioria de artistas nacionais. Entre as jóias, há uma tela de Cícero Dias, de 1928, avaliada em 600.000 reais. Para reformar a galeria, com 550 metros quadrados, gastou 800.000 reais – incluindo a colocação de mármore de Carrara. Vista assim, Yara não é mesmo uma dondoca típica. O.k., ela deixa uma nuvem de perfume Gardenia, da Chanel, por onde passa. Até seu chinelinho é Chanel, mas ela tem virtudes inconfundíveis. Não esconde de ninguém sua predileção pelos livros. Compra-os a quilos quando viaja para o exterior. Gasta fortunas em raridades, como uma biografia de São Bernardo editada em 1508, e adora citar a torto e a direito frases de filósofos gregos.



Yara comemora seus 15 anos no Fasano: desde cedo acostumada com o bom e o melhor

Yara firmou reputação como ótima anfitriã. "Fui muito festeira", admite. "Hoje estou mais para intelectual", acredita. "Não agüento mais qualquer bobagem." A fase festeira, socialite com todas as letras, pode estar adormecida, não se sabe. Mas ficaram na memória de quem esteve lá os grandes eventos da casa dos Baumgart. Há sete anos, foram reunidas 1.000 pessoas para o casamento da filha mais velha, Beatriz. No ano passado, os 180 convidados de Rolly, em black-tie, brindaram seus 60 anos com champanhe La Grande Dame Veuve Clicquot. Mundo afora, os Baumgart pontificam. A filha mais nova, Karin, debutou meio tarde, aos 20 anos, no baile de gala do Hotel Crillon, em Paris. Foi a única brasileira escolhida para desfilar grifes famosas no salão lotado de herdeiras milionárias de toda a Europa. "Achei que ela fosse ganhar o Versace que usou", conta Yara. "No fim, tivemos de comprá-lo." Mas pode saber que ela não se limita a falar de roupas. Sua conversa impressiona principalmente pelos relatos de viagem. Vai pouco a Nova York. Seu negócio são os roteiros incomuns: praia em Bali, degustação de vinhos na Borgonha, safári no Nepal ou uma visita à biblioteca feita de madeira de sândalo no Butão. "Lamento não ter ido ainda ao Japão ver as cerejeiras em flor", diz. Boa parte de suas viagens é retratada pela revista Caras, com a qual já viajou oito vezes.

Quem convive com Yara costuma ter uma opinião parecida. Ela é doce, simples, agradável, inteligente e ilustrada. Orgulha-se de falar alemão, inglês, francês, italiano e espanhol. E português bem ardido quando está irritada. Perguntem à socialite Joaninha Kuschakarian, mulher de um investidor a quem os Baumgart acusam de ter desaparecido com cerca de 2 milhões de dólares em aplicações da família. Yara encontrou-a no consultório do ginecologista. O bate-boca na ante-sala por pouco não chegou às vias de fato. Alguns esnobes da alta-roda paulistana consideram Yara aparecida demais. Ou procuram colocá-la na mesma prateleira da emergente carioca Vera Loyola. Uma injustiça. Ela detesta a comparação. Como detesta ser chamada de perua (por esse motivo, processou o colunista José Simão, da Folha de S.Paulo). De fato, ao lado de Hebe Camargo e Vera Loyola, Yara parece minimalista. Magra e elegante, veste-se com grifes internacionais que abastecem seu guarda-roupa nas viagens ao exterior. Daslu, nem pensar. Fez plástica no rosto e no nariz, colocou uma grande prótese de silicone no seio, depois mudou para uma menor, tem especial apreço pelo Botox e colágeno na boca. Está invariavelmente com seu indefectível coque banana e rímel. Muito rímel preto.

 

Bruno Veiga/Strana

É curioso imaginar por que uma milionária troca a mansidão da vida pela rotina de lidar com problemas e chateações da vida prática, como pagar contas e brigar com funcionários. O estalo se deu quando trabalhava nas empresas da família. "Um dia percebi que eu era nada ali dentro", lembra. "Foi uma sensação horrível." Decidiu montar seu negócio. Não sabia o quê. Bastou prestar um pouco de atenção em sua agenda para ter a idéia. "Eu fazia tratamento ortomolecular na Suíça. Resolvi trazer para cá e foi um sucesso." Hoje, ao lado de terapias como a ortomolecular – que consiste em repor vitaminas, minerais e aminoácidos com comprimidos –, a clínica oferece desde banhos de pétalas de rosa até medicina chinesa, implante de silicone nas nádegas e tratamento contra impotência masculina. A cada semana, 350 pessoas vão à Kyron, onde trabalham 35 profissionais, entre médicos, cirurgiões, terapeutas, fisioterapeutas e esteticistas. A carteira de clientes é de primeira linha e inclui nomes como Chiquinho Scarpa, Franziska Hübener, Janete Boghosian e Cecília Szajman. Sim, clínica de socialite quem freqüenta são os amigos. Não só eles. Vivem por lá a apresentadora Fernanda Lima e as atrizes Isadora Ribeiro, Luiza Thomé e Rosamaria Murtinho. Barato não é. Mas não é necessário ter um baita sobrenome para entrar. Até a gordinha Elaine, a de No Limite, virou freguesa. Por duas horas de "banho Cleópatra", com direito a banho de leite, cromoterapia, massagem e esfoliação na pele com cenoura e gergelim, pagam-se cerca de 110 reais. É um dos serviços mais caros da clínica. Por 45 reais, é possível ter meia hora de massagem.

 
Mário Rodrigues
Fotos Antonio Milena
Algumas paixões da família: a galeria de arte com seus mármores de Carrara e quadros brasileiros; a estupenda mansão em estilo toscano, com 5 100 metros quadrados, invisível para quem passa pela rua; Roberto Baumgart com um Rolls-Royce Silver Dawn 1950, uma das jóias de sua frota, e na adega em que guarda 7 000 garrafas de vinho

Muito mais que a clínica, o que impressiona é a fortuna dos Baumgart. Não, eles não têm motivos para escondê-la. Tudo o que conseguiram é resultado de muito trabalho. Nunca foram acusados de se meter em negociatas com o governo nem tiveram cargo público. É dinheiro amealhado suando a gravata, através de gerações. Ocorre que rico, rico de verdade, odeia que fiquem esmiuçando seu patrimônio. E que patrimônio. A família mantém uma casa de verão em Angra dos Reis e uma de inverno em Campos do Jordão. No exterior, ficam em hotéis. "Para que pagar casa em Paris se podemos nos hospedar no Plaza Athenée com toda a mordomia possível?", indaga Yara. Há 26 anos, ela passa temporadas no hotel, cuja diária chega aos 2.000 reais. "Os concierges ajudaram a criar meus filhos", diz. O mesmo vale para justificar a venda do avião bimotor King Air. "Para que avião se tem primeira classe em companhia aérea?", pergunta de novo, com toda a naturalidade. A casa da família é uma maravilha à parte. A construção do palácio em estilo toscano levou onze anos. Isso mesmo: onze anos! Pudera. É uma imensidão da qual não se tem a mais pálida idéia do lado de fora. Quem trabalhou no projeto garante que são 5.100 metros quadrados de área construída, com duas piscinas, uma delas coberta, quadra de tênis (igualmente coberta) e seis suítes. Equivale a uns cinqüenta apartamentos de três quartos. Não se faz nada parecido com menos de 25 milhões de reais.

Depois do tamanho, objetos de arte são o que mais chama a atenção na casa dos Baumgart. A sala de jantar, com mesa e cadeiras inglesas, iluminada por lustres franceses, exibe uma sublime coleção de louças Companhia das Índias que o casal levou quase dez anos para montar. As paredes são decoradas com telas de Portinari, Volpi, Di Cavalcanti e Bonadei. É provável que os Baumgart sejam os maiores colecionadores de vasos e luminárias Emille Gallé no Brasil. Em uma das salas da mansão estão expostas 45 peças. Você não leu errado. São 45 mesmo. Esse acervo é avaliado por baixo em 3 milhões de reais. Carros e vinhos estão entre as outras paixões da família. Na casa, existem duas adegas, que comportam mais de 7.000 garrafas. Uma é para os vinhos que estão envelhecendo. A outra abriga os prontos para beber. Especialistas afirmam que é uma das três ou quatro melhores do país. Ao lado, a garagem com espaço para trinta carros é mais um espanto. Abriga três Rolls-Royce, um Porsche turbo, dois Mercedes e veículos para o dia-a-dia. Quinze empregados cuidam de tudo.

Erra, no entanto, quem pensa que Yara é uma nova-rica. Seus pais lhe proporcionaram desde o berço uma vida para lá de confortável. Quando adolescente, morou em Londres e em Frankfurt para aprender idiomas e estudar piano. Ela gosta de lembrar aos amigos que sua avó era uma Almeida Prado e seu tio, o maestro Spartaco Rossi. Seu pai, Waldemar Rossi, foi o dono da Casa Beethoven, um dos melhores estabelecimentos comerciais de música que São Paulo conheceu. O tio, Breno Rossi, criou uma loja de discos na Rua 24 de Maio que marcou época na cidade. A família tinha dinheiro e podia pagar festas de princesa para a jovem Yara. Seu début foi no jardim-de-inverno Fasano, que funcionava na Avenida Paulista. A diferença entre uma rica qualquer e Yara Baumgart é que, definitivamente, ela não aceita ser apenas mais uma. "Ouse, torne-se quem você é", diz ela, em mais uma de suas citações (esta é do filósofo alemão Friedrich Nietzsche). "Eu tenho certeza de que a frase é a minha mais perfeita tradução."

 

Fortuna construída

Mario Rodrigues
Vedacit: a marca de um império


Herdeiros de uma riqueza sólida e antiga, os Baumgart são donos de um colossal império que começou a ser construído há sessenta anos pelo patriarca, Otto Baumgart, que morreu em 1973. Hoje, a família é proprietária dos dois shopping centers que juntos mais faturam no país (Lar Center e Center Norte) e de uma das maiores fábricas de produtos químicos para a construção civil da América Latina. Eles produzem impermeabilizantes, piche, tinta asfáltica, chapiscos e aditivos que substituem a cal misturada no cimento e são usados tanto em barracos como em mansões, em pontes como em avenidas. Também tocam negócios no ramo imobiliário, da pecuária e da hotelaria. Atualmente, as empresas estão nas mãos dos irmãos Curt Walter, Roberto e Úrsula. Em uma lista vazada da Receita Federal há dois anos, os três Baumgart aparecem entre os dez maiores contribuintes para o imposto de renda do país. Num rol de dez, eles só deixam espaço para outros sete. É espantoso que três pessoas da mesma família tenham aparecido no alto do ranking, mas trata-se de um indicador louvável para os Baumgart. Vice-presidente do grupo, Roberto Baumgart afirma ter sido surpreendido pela informação. "Quanta gente que ganha mais do que nós e não aparece lá...", diz ele.

 

 

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