Walcyr Carrasco

Recuperando a forma

Como sobreviver às aulas de um personal trainer

De tempos a tempos, eu me contemplo no espelho e pergunto: "Espelho, ó espelho meu, existe alguém mais barrigudo do que eu?"

É quando corro atrás de um personal trainer. Quer dizer, não corro. Telefono. Se corresse, minha forma já seria melhor. Desta vez, a necessidade se fez mais urgente. De tanto escrever, percebi que estava ficando mais curto. Decidi chamar um personal trainer, em domicílio. Assim, não posso fugir! Inicialmente, foi difícil achar um. Personal trainers são seres adaptados a uma vida esportiva e saudável. Cada telefonema, um calafrio!

– Tenho horário às 6 da manhã e outro às 7. Qual você prefere?

– Aos sábados, podemos escalar montanhas!

– Ei, só quero entrar em forma. Não participar das Olimpíadas!

Dava sono só de imaginar abdominais às 6 da matina. Seria capaz de roncar no levantamento de peso! Finalmente, encontrei Marco Aurélio.

– Participo de maratonas e você vai participar também – prometeu.

Pedi algo mais simples:

– Só quero perder a barriga, deixar o pescoço mais comprido e alongar a silhueta para ganhar alguns centímetros na estatura.

– Você quer um personal trainer ou prefere fazer uma novena para padre Cícero?

Verdade seja dita. Quem busca um personal trainer preferiria, muito mais, um milagre. Começamos as aulas. Percebendo a intensidade de minha disposição para fazer ginástica, ele partiu para o método de puxar. Deito e ele puxa minhas pernas. Dobra. Sento e puxa minhas costas. Fico de pé e puxa meus braços. Minha contribuição é gemer:

– Ai, ai... Chega, chega!

– Inspira, expira... Inspira...

Ando, dobrando a perna da frente e a de trás, sincronizadamente! Mexo os braços para cima, para baixo, para os lados, que nem um polvo bêbado. Agacho com as mãos na cintura.

– Um, dois... São só quinze.

Desembesto.

– Conte mais devagar. Não valeu. Vamos lá. Eu conto.

De repente, ele empaca.

– Três, três, três...

– Não vale, depois do três vem quatro!

Tento argumentar.

– Estou exausto.

– Só teve dez minutos de aula! Mais um pouquinho.

A faculdade de educação física deve ensinar como adoçar os ginastas amadores com promessas. "Mais um pouquinho", "Só mais três", "Está quase terminando". Ou pior: "Viu como melhorou?", ideal para os dias em que eu me torço semelhante a roupa na máquina de lavar.

– Você precisa de uma esteira.

– Para quê?

– Também podemos correr perto do seu apartamento. Acha que dá?

Moro no centro da cidade. Imaginei a cena: eu e ele correndo pelo Viaduto do Chá. Metade da população iria atrás, pensando que seriam dois batedores de carteira em fuga. Linchamento, na certa!

Um, dois... 100, 200, 300, 400. Assim é uma esteira. Quem corre é ela. Eu apenas tento me manter em pé.

Outro dia ele puxou meus braços para trás. As mãos encostaram uma na outra. Eu me senti um chiclete. Deu os parabéns.

– Até hoje, você nunca tinha conseguido.

Se eu fosse convidado para a Academia Brasileira de Letras, não me sentiria tão realizado! Faz pouco, encontrei uma amiga. Comentou, surpresa:

– Você está diferente!

– Bem... Você acha? – respondi modestamente, mas por dentro virando pavão!

– É... engordou?

Tive vontade de esganá-la! Depois refleti: com quatro aulas, ainda é cedo. Quem sabe da próxima vez ela dirá, com os olhos brilhando:

– É vocêêêê!?

Definitivamente, a esperança é a última que morre! E lá vou eu... Um, dois, um, dois!

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