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22 de maio de 2002
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CRÔNICA
   

CRÔNICA

O império do silicone

Ainda vamos esquecer como era
nosso rosto antes do bisturi

Walcyr Carrasco

Ando espantado com o número de pessoas que fazem plástica e lipoaspiração. Conheço uma senhora que deve ter sido a pioneira das operações. Pelos meus cálculos, tem uns 70 anos. A aparência é absolutamente indefinível.

– Quando sua família veio do Japão? – perguntei gentilmente dia desses.

Momento constrangedor.

– Sou quatrocentona – respondeu. – Não há um oriental em minha família!

Seus olhos são tão puxados que eu juraria... Faz parte da época em que se esticava tudo. Os olhos chegavam às orelhas. Uma atriz, certa vez, ficou sem fechar os olhos por seis meses. De tão esticada, não conseguia. Dormia com máscara. Atualmente, a plástica avançou. É mais sutil. Mas, no passado, tudo isso era feito discretamente. Senhoras de mais idade se recusam a confessar as plásticas.

– Nunca precisei – garante minha conhecida, embora suas orelhas, de tão puxadas, já estejam se encontrando atrás da cabeça.

O grande fenômeno dos últimos tempos não está na medicina. Mas na sociedade. Tornou-se chique falar em botar silicone, fazer lipo. As mais famosas anunciam aos quatro ventos:

– Vou fazer o peito, o braço, os joelhos, as coxas...

Tornou-se maravilhoso ser transformado em uma experiência cibernética! Meu vizinho já entrou na lipo umas seis vezes. Arranca as adiposidades. Mal convalesce, vai à churrascaria. Enche o bucho com quindins. Dali a pouco, a calça não fecha de novo.

– Está na hora de fazer uma recauchutagem – avisa.

Aconselho:

– Lipo não é para emagrecer. Só deve ser feita depois do regime!

Ele concorda, sorrindo. E se interna no dia seguinte.

Claro que não resisti. Fui fazer uma consulta. Tirei a camisa e mostrei a barriga. Parecia um barril. Mas a plástica não faz milagres?

– Quero ficar mais ou menos como o Reynaldo Gianecchini – expliquei.

O médico me observou. Por um instante, pensei que fosse prescrever uma camisa-de-força. Apalpou-me.

– Bem que eu gostaria de tirar sua barriga – explicou. – Nesse caso saberia o que fazer com a minha, que é bem pior.

Abriu a camisa. O umbigo derramou-se para fora. Oh, horror! Explicou que temos o mesmo tipo de abdome, com gordura espalhada. Lipo não adiantava. Só uma operação. A barriga ficaria esticadíssima. Eu teria de ficar dobrado em dois durante alguns meses, até a barriga recuperar a flexibilidade.

– Tem garantia contra torresmos? – perguntei.

Olhou-me dolorosamente. Não, não havia. Bastavam algumas picanhas bem gordurosas para eu voltar a ser o que sou!

Fui visitar uma amiga, conhecida pelos decotes. Estava murcha.

– Tirei o silicone – revelou.

– Por quê?

– É mais ou menos como mudar o corte de cabelo. Uma hora a gente põe, outra hora tira. Na semana que vem faço o rosto. Tenho um crédito. Qualquer hora boto os seios de novo!

Um amigo trouxe a solução definitiva para minha barriga. Uma prótese. Inventaram placas para ser colocadas no peito e no abdome. A do tórax simula músculos de atleta. A outra faz a gente ficar com barriga de tanquinho, como qualquer surfista.

– Mas escute... E minhas medidas? A tal barriga de tanquinho vai ser projetada para a frente. Ficará parecendo uma máquina de lavar.

Silêncio. Ninguém havia pensado nisso.

Desisti. Será que daqui a alguns anos vamos esquecer como eram o nariz, as orelhas, o jeito do rosto, antes de todo mundo querer atingir determinado padrão de beleza? Orelhas grandes não têm charme? Nariz torto? Tudo bem querer ficar mais bonito. Mas ainda não consigo entender por que as pessoas andam fazendo tanta plástica. O que era segredo tornou-se motivo de ostentação.

 

         
     
 
 
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