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CRÔNICA
Língua estrangeira
Ivan Angelo
Nosso dia-a-dia é bilíngüe,
mas em flashes. Controles remotos sinalizam up, down, search, stop,
power. Vitrines proclamam off, sale. Esportes da moda são
surf, skate, trail, sky diving, bungee jumping. O computador populariza
chat, blog, mouse, download. Não dá para contornar
rock, reggae, rap, hip hop, funk. É isso aí, brother.
O fascínio que temos pela
língua estrangeira não passa necessariamente pela
aprendizagem. O presidente não fala inglês. O anterior
fala o francês, o portunhol e o portinglês. O embaixador
foi para Roma sem falar o italiano nem o inglês. Diplomatas,
com a liberalidade atual do Itamaraty, poderão vir a precisar
de intérpretes. Tradutores simultâneos ficam para trás
nas transmissões da festa de entrega do Oscar.
Brasileiros que retornam do exterior
dão risadas com os enganos dos companheiros. Uma comadre
minha foi à Disney World e quis visitar uma amiga que mora
na região, em Kisseemee. Chegou o táxi, o motorista
abriu-lhe a porta e ela disse para onde queria ir. Ele levou um
choque. Ficaram os dois de pé, ela insistindo na palavra
Kisseemee e ele não entendendo a pronúncia dela, e
ela repetia "Kiss me!", que quer dizer beija-me, e quase batia nele
de tão veemente, querendo que ele entendesse, insistindo,
"Kiss me!" e ele olhava para a cara dela, estupefato, até
que deu meia-volta, entrou no carro e foi embora. Nenhum dos dois
entendeu nada.
No pós-guerra era popular
aquela piada do presidente Dutra recebendo o presidente americano
Truman, que nos visitava. O americano saudou "How do you do, Dutra?".
O brasileiro ouviu, raciocinou rápido, relacionou o "do"
com a sílaba "Du" de seu próprio nome e sapecou a
resposta: "How tru you tru, Truman?".
E no entanto o brasileiro tem
bom ouvido para sons estrangeiros. Quanta gente comum canta músicas
"em inglês" sem saber uma palavra? "Toca" de ouvido, e só
o som é parecido.
Alguns que vivem fora e se aplicam
conseguem falar quase sem sotaque. Por imitação. A
habilidade de uma jovem professora paulista em universidade dos
Estados Unidos irrita um amigo meu, escritor: ele acha falta de
patriotismo ela não falar com sotaque brasileiro.
Um jovem conta-me um caso em
que o som teve mais importância que as palavras. Entrou com
um colega numa lojinha tradicional do bairro japonês da Liberdade.
Este, um folgado, brincalhão, dirigiu-se ao senhor idoso
do caixa e para surpresa do amigo falou alguma coisa
no que parecia japonês. O senhor respondeu longamente, delicadamente.
O rapaz fez uma saudação com a cabeça, dizendo
arigatô, e se retiraram. O amigo: "Eu não sabia que
você falava japonês". O rapaz: "Eu também não".
Na São Paulo das primeiras
décadas do século passado, faziam sucesso em jornais
humorísticos e programas radiofônicos pessoas com habilidade
para imitar sotaques dos imigrantes. O italiano macarrônico
do Juó Bananére, que é dessa época,
é estudado hoje nos cursos de letras. Chegou aos anos 50
o semanário U Governador, no qual colunistas imitavam
os sotaques alemão (coluna Chopps Topla, ou Chope Duplo),
português (coluna O Sarravulho, de Zé Fidélis),
judeu e italiano. O povo se divertia com os sons.
E há quem se embale pelo
som. Uma amiga, para adormecer, liga o rádio baixinho em
uma língua desconhecida. Tem de ser desconhecida, senão
começaria a prestar atenção e perderia o sono.
Faz efeito de música para ela.
Termino com o caso da menininha
cujo pai, professor paulista de filosofia, costumava adormecê-la
lendo histórias. Uma noite, por curiosidade, trocou a historinha
pelo texto de um filósofo em alemão. A certa altura
fez uma pausa longa e ela, já meio adormecida, murmurou:
"E depois?".
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