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18 de maio de 2005
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Língua estrangeira

Ivan Angelo

Nosso dia-a-dia é bilíngüe, mas em flashes. Controles remotos sinalizam up, down, search, stop, power. Vitrines proclamam off, sale. Esportes da moda são surf, skate, trail, sky diving, bungee jumping. O computador populariza chat, blog, mouse, download. Não dá para contornar rock, reggae, rap, hip hop, funk. É isso aí, brother.

O fascínio que temos pela língua estrangeira não passa necessariamente pela aprendizagem. O presidente não fala inglês. O anterior fala o francês, o portunhol e o portinglês. O embaixador foi para Roma sem falar o italiano nem o inglês. Diplomatas, com a liberalidade atual do Itamaraty, poderão vir a precisar de intérpretes. Tradutores simultâneos ficam para trás nas transmissões da festa de entrega do Oscar.

Brasileiros que retornam do exterior dão risadas com os enganos dos companheiros. Uma comadre minha foi à Disney World e quis visitar uma amiga que mora na região, em Kisseemee. Chegou o táxi, o motorista abriu-lhe a porta e ela disse para onde queria ir. Ele levou um choque. Ficaram os dois de pé, ela insistindo na palavra Kisseemee e ele não entendendo a pronúncia dela, e ela repetia "Kiss me!", que quer dizer beija-me, e quase batia nele de tão veemente, querendo que ele entendesse, insistindo, "Kiss me!" – e ele olhava para a cara dela, estupefato, até que deu meia-volta, entrou no carro e foi embora. Nenhum dos dois entendeu nada.

No pós-guerra era popular aquela piada do presidente Dutra recebendo o presidente americano Truman, que nos visitava. O americano saudou "How do you do, Dutra?". O brasileiro ouviu, raciocinou rápido, relacionou o "do" com a sílaba "Du" de seu próprio nome e sapecou a resposta: "How tru you tru, Truman?".

E no entanto o brasileiro tem bom ouvido para sons estrangeiros. Quanta gente comum canta músicas "em inglês" sem saber uma palavra? "Toca" de ouvido, e só o som é parecido.

Alguns que vivem fora e se aplicam conseguem falar quase sem sotaque. Por imitação. A habilidade de uma jovem professora paulista em universidade dos Estados Unidos irrita um amigo meu, escritor: ele acha falta de patriotismo ela não falar com sotaque brasileiro.

Um jovem conta-me um caso em que o som teve mais importância que as palavras. Entrou com um colega numa lojinha tradicional do bairro japonês da Liberdade. Este, um folgado, brincalhão, dirigiu-se ao senhor idoso do caixa e – para surpresa do amigo – falou alguma coisa no que parecia japonês. O senhor respondeu longamente, delicadamente. O rapaz fez uma saudação com a cabeça, dizendo arigatô, e se retiraram. O amigo: "Eu não sabia que você falava japonês". O rapaz: "Eu também não".

Na São Paulo das primeiras décadas do século passado, faziam sucesso em jornais humorísticos e programas radiofônicos pessoas com habilidade para imitar sotaques dos imigrantes. O italiano macarrônico do Juó Bananére, que é dessa época, é estudado hoje nos cursos de letras. Chegou aos anos 50 o semanário U Governador, no qual colunistas imitavam os sotaques alemão (coluna Chopps Topla, ou Chope Duplo), português (coluna O Sarravulho, de Zé Fidélis), judeu e italiano. O povo se divertia com os sons.

E há quem se embale pelo som. Uma amiga, para adormecer, liga o rádio baixinho em uma língua desconhecida. Tem de ser desconhecida, senão começaria a prestar atenção e perderia o sono. Faz efeito de música para ela.

Termino com o caso da menininha cujo pai, professor paulista de filosofia, costumava adormecê-la lendo histórias. Uma noite, por curiosidade, trocou a historinha pelo texto de um filósofo em alemão. A certa altura fez uma pausa longa e ela, já meio adormecida, murmurou: "E depois?".

     
   
 
 
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