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CRÔNICA
Deixem estar
Ivan Angelo
Largo
da Batata... Viriam aqui comerciar os batateiros de antigamente?
E era tanta batata assim? Bairro do Limão... Haveria ali,
no passado, limoeiros perfumando as várzeas e encostas, durante
a florada? Viaduto do Chá... Que espécie de chá
seria, e quem o consumia naqueles tempos cafeeiros? Freguesia do
Ó: não um espanto, como pode parecer, mas uma invocação...
Tenho muita simpatia pelos antigos
nomes de lugares na cidade, não escamoteados ainda pela bajulação
dos vereadores e administradores, que trocam denominações
evocativas e históricas por nomes, muitas vezes, de poderosos
sem mérito e familiares desconhecidos. Sim, devemos homenagear
figuras históricas, mas por que não em ruas, praças,
pontes e viadutos novos? Na cidade que descuida da memória,
perdemos não só prédios históricos,
mas nomes também. Deixem estar os nomes.
Já perdemos tanta poesia
e graça por culpa de reformadores... A Rua Triste e a Rua
Alegre corriam paralelas em Santa Ifigênia, uma ia para o
cemitério, a outra, para as alegrias... Hoje chamam-se Cásper
Líbero e Brigadeiro Tobias. Felizmente ainda existem a Estrada
das Lágrimas, a Rua do Bosque, o Largo da Memória,
a Rua Tanquinho... Perdemos referências históricas.
O Largo da Forca, onde ficava a última forca da cidade, virou
Praça da Liberdade; o Largo do Pelourinho é agora
de Sete de Setembro; o Pátio da Cadeia virou Praça
João Mendes.
Nomes divertidos sumiram, alguém
deve ter pensado que não ficavam bem numa capital de grande
destino. O Beco dos Chifres, também referido como dos Cornos,
ficava na região de um antigo matadouro e hoje se chama Álvares
Machado. O Beco do Mata-Fome tornou-se Rua Araújo.
Não é saudosismo,
porque esse inventário de perdas nos mostra que perdemos
até o que nunca tivemos, o que já não tínhamos
quando aqui chegamos, há duas ou três gerações.
Já não eram nossos nomes de ruas e lugares que talvez
nos contassem alguma coisa sobre o que fomos antes de sermos.
Proclama-se a República
e oportunamente desaparecem as ruas do Imperador, da Imperatriz,
da Princesa, do Príncipe, do Conde d'Eu, trocados por nomes
republicanos; aparece a Praça da República.
À parte o oportunismo
político, seria bom que alguns nomes tivessem sido preservados,
pois nos remeteriam a uma época em que outras pessoas andaram
pelos mesmos caminhos e deram a eles nomes que indicavam um destino,
ensinavam o melhor rumo a seguir, marcavam referências nos
trajetos. Se havia uma bica, era a rua da biquinha, se havia uma
igreja, era a da igreja tal.
Assim, a Rua da Caixa d'Água,
onde havia o reservatório, virou Barão de Paranapiacaba;
a Estrada da Água Branca, que levava para o sítio
do mesmo nome e para Jundiaí, tinha um significado que Rua
Turiaçu não tem; a Rua do Rosário levava para
a Igreja do Rosário; a Rua Baixa de São Bento informava
o que 25 de Março não informa. Quando se abriu o bairro
de Santa Ifigênia, a Rua dos Bambus era a principal, hoje
é a Avenida Rio Branco. E a Rua do Jogo da Bola, hoje Benjamin
Constant que jogo seria aquele que dava nome a uma rua?
Em compensação,
outras mantêm o nome, embora a coisa indicada já não
exista. Porto Geral era o nome de um beco que levava ao porto do
rio, quando por ali passava o Tamanduateí, na sétima
volta do seu serpenteio pela baixada. Rua do Lavapés, onde
havia um riacho em que os viajantes lavavam os pés antes
de entrar na cidade. Rua das Palmeiras... que é delas? Perdizes,
Casa Verde, Limão, Pinheiros... O tempo comeu a senhora criadora
de perdizes, as irmãs solteironas da Casa Verde, a chácara
dos limoeiros, as araucárias dos morros... mas as
palavras, essas ficaram, teimosas, insinuantes.
Quem pensa nessas coisas transita
pela cidade com um discreto sentimento de perda.
e-mail: ivan@abril.com.br
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