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14 de junho de 2006
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Muito mais que chope e
salsichões com mostarda

Entre a tradição das danças folclóricas
e as lojas com as últimas novidades da
moda e da música eletrônica, a influência
da comunidade alemã na cidade ganha
evidência com o início da Copa do Mundo

Rodrigo Brancatelli




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Eles são coloridos, pesam bem mais que aqueles discos de vinil antigos encontrados aos montes nas banquinhas da Praça Benedito Calixto e têm seus preços em euros. Isso é praticamente tudo o que o publicitário e DJ Maurício Klein conhece da cultura germânica: os discos de house music importados de Berlim que ele compra em uma loja da Galeria Ouro Fino, na Rua Augusta. "Se bobear, mal consigo apontar no mapa onde fica Berlim", diz. Neto de alemães, Klein não tem idéia do lugar de onde sua família veio. Muito menos sabe falar alemão ou mantém as tradições de seus antepassados. Tem tanta intimidade com o país quanto os brasileiros curiosos por causa do início da Copa do Mundo. De certa forma, esse é o retrato da comunidade alemã na cidade de São Paulo. Perseguida durante a II Guerra Mundial, ela teve de abrir mão de muitos hábitos para se adaptar ao país. Mas é responsável por parte da história da capital. Klein, por exemplo, era o sobrenome de um dos 227 colonos que chegaram ao Porto de Santos em 13 de dezembro de 1827, a bordo do primeiro navio a trazer imigrantes alemães para o estado.


Mario Rodrigues
Instituto Goethe: aulas de alemão e exposições mensais para preservar e divulgar a cultura germânica

Desses viajantes, 129 aceitaram as terras oferecidas pelo Império na freguesia de Santo Amaro, onde hoje fica o distrito de Parelheiros. O senhor Klein subiu a Serra do Mar a pé, carregando ferramentas, sementes e a esperança de colher no Brasil uma vida melhor. Como tantos outros imigrantes dos mais variados países que tentaram a sorte por aqui, a colônia alemã acabou deixando sua marca pelo caminho. A presença parece discreta, já que não há um bairro típico como a Liberdade, mas a influência vai muito além do chope ou da comida servida nos cerca de dez restaurantes especializados da cidade. O primeiro grande engenheiro da capital foi um alemão, Karl Rath, que planejou a canalização de diversos córregos. Entre os urbanistas pioneiros, destaca-se Victor Nothman, que criou o loteamento de Higienópolis e iniciou a expansão para além do Vale do Anhangabaú.


Fernando Moraes
Restaurante Weinstube, dentro do Club Transatlântico: ponto de encontro da comunidade

"Os alemães tiveram um forte papel no desenvolvimento industrial da cidade", conta Eckhard Kupfer, diretor do Instituto Martius-Staden, no Morumbi, que há oitenta anos se dedica à preservação da cultura germânica no Brasil e cujo acervo guarda mais de 65 000 documentos sobre a imigração. "São Paulo conta atualmente com quase 1.200 empresas de capital alemão, o que faz dela a maior cidade industrial germânica fora da Alemanha." Kupfer lembra ainda que a sociedade paulistana sempre teve em seus quadros mais estrelados a presença de teuto-brasileiros – representados atualmente, entre outros, pelo iatista Robert Scheidt, que carrega o sobrenome do avô paterno, a designer de sapatos alemã Franziska Hübener, Sabine Lovatelli, que também nasceu na Alemanha e preside o instituto cultural Mozarteum, e o artista plástico Paulo von Poser, neto de alemães.


Daniela Toviansky
Fernando Moraes
Grupo de dança Edelweiss: mulheres usam um vestido camponês típico do sul da Alemanha chamado dirndl Coral da Igreja Evangélica Alemã, na Chácara Santo Antônio: cânticos entoados em alemão e em português

Os imigrantes também deram um forte impulso à educação, com suas escolas comunitárias chamadas de gemeindeschulen. Esse modelo foi a semente do ensino privado no estado e acabou sendo adaptado anos mais tarde nas escolas públicas. A primeira experiência do tipo foi inaugurada em 1878, na Rua Florêncio de Abreu, no centro. Era a Deutsche Schule, que se transformou depois no Colégio Visconde de Porto Seguro. Ainda no século XIX, a comunidade germânica trouxe em sua bagagem a religião protestante. Fundada em 1891, a Igreja Evangélica Alemã de São Paulo tem hoje sete paróquias, todas com cultos em alemão e em português. Outras instituições culturais e esportivas pioneiras também foram montadas por alemães. Em 1899, o fanático por futebol Hans Nobiling criou com amigos o Sport Club Germânia, campeão paulista em 1906, que deu origem na década de 40 ao Esporte Clube Pinheiros (os atletas da instituição até hoje vestem uniformes com as cores azul, preto e branco do Hamburger Sportverein, famoso time de Hamburgo). Já o tradicional Club Transatlântico foi fundado em 1954 por empresários alemães e permanece até hoje como um dos principais pontos de encontro da comunidade. Lá dentro está o Weinstube, um dos melhores restaurantes especializados em comida alemã da cidade, onde se consomem todo mês cerca de 130 quilos de lingüiça e 1.500 litros de cerveja.


Mario Rodrigues
Tatiana Hamann e Ursula Klayn, sócias da loja Berliner, na Rua Augusta: roupas e objetos de decoração trazidos de Berlim

As boas relações entre brasileiros e alemães estremeceram durante a II Guerra Mundial. A partir de 1937, Getúlio Vargas proibiu por aqui qualquer língua que não fosse o português. Os teuto-brasileiros passaram então a ser discriminados, deportados ou até internados (nas escolas, eram chamados de "alemães batata"). As bochechas avermelhadas da ex-sapateira e atual dona-de-casa Mathilde Batzen, de 87 anos, enrubescem ainda mais quando ela se lembra da vergonha que sentia na época. "Quase me lincharam na rua, cheguei a apanhar com porrete", diz a alemã, nascida em uma cidadezinha perto de Munique e criada em Parelheiros. "Doía ainda mais ver meu pai chorar num canto da sala, sem saber o que fazer." Mathilde é um dos poucos membros da comunidade que ainda vivem na região. Muitos moradores rumaram, no meio do século passado, para a região de Campo Belo, Moema e Brooklin ("pequena ponte", em alemão da Idade Média).


Mario Rodrigues
Eckhard Kupfer, diretor do Instituto Martius-Staden: acervo conta com arquivo de jornais em língua alemã publicados no Brasil desde 1897

Nesses bairros fica hoje uma espécie de foco de resistência da cultura alemã. Há ali uma doceria que produz deliciosos nusskipferl (meias-luas amanteigadas recheadas com nozes, passas e mel), uma livraria com 16.000 títulos na língua de Goethe, restaurantes típicos e até uma loja dedicada a CDs importados da Alemanha (veja quadro). "Temos 500 discos diferentes, principalmente de música erudita e folclórica", afirma Gerhard Daut, de 55 anos, que veio da cidade de Nuremberg com apenas 10 meses, durante o pós-guerra, e mantém a Bavaria Som. A poucos quarteirões da loja está a Associação Católica Kolping, fundada em 1923 por alemães, austríacos e suíços. Além de quadra esportiva, piscina, capela, boliche e restaurante, o local abriga os ensaios do grupo folclórico Edelweiss, que mantém vivas danças como webertanz, bändertanz e zillertaler ländler. "São 32 membros, muitos dos quais não têm nenhum tipo de ascendência germânica", conta Carlos Busch, diretor da trupe. Com trajes típicos (dirndl para as mulheres e lederhose para os homens), eles se apresentam nas duas festas da comunidade na cidade – a Maifest, em maio, e a Brooklinfest, em setembro, ambas financiadas pela Associação de Lojistas do Brooklin.


Marina Malheiros
Octacampeão mundial: o iatista Robert Scheidt carrega o sobrenome de seu avô alemão

Mas não só por suas tradições seculares a Alemanha é lembrada. Do mesmo jeito que Berlim é hoje conhecida como um dos grandes centros de produção musical e artística, São Paulo não deixa de incorporar o que há de mais moderno e contemporâneo na vanguarda alemã. O Instituto Goethe, mantido pelo Ministério de Relações Exteriores germânico, faz essa ponte entre as duas metrópoles. Além dos cursos de língua freqüentados por cerca de 2.500 alunos anualmente, o centro realiza em média sete eventos por mês, que envolvem de artes plásticas a ciência. Outro endereço para quem quer conhecer a nova Alemanha é a Rua Augusta, que reúne a loja de música eletrônica Rhythm Records, onde é possível achar discos de house music e minimal alemães, e a Berliner, bacanudo espaço com roupas, livros, guias de viagem, postais, utensílios e objetos de arte importados da Alemanha. "Em Berlim, o novo e o velho se encontram e se complementam", diz a estilista Ursula Klayn, descendente de alemães que abriu a Berliner há dois meses ao lado de sua amiga de infância Tatiana Hamann, também com ascendência germânica. "Na comunidade alemã em São Paulo também é assim."


Rubens Chiri/Perspectiva
Sabine Lovatelli, nascida na cidade de Iena: com o Mozarteum, ela trouxe a São Paulo algumas das maiores orquestras do mundo



Fernando Moraes
Daniela Toviansky
A designer de sapatos alemã Franziska Hübener: há vinte anos vendendo suas criações em São Paulo O neto de alemães Paulo von Poser: artista plástico conhecido por sua arte pop



Mario Rodrigues
Vivian Sandri e Daniel Uettrich, alunos do Colégio Porto Seguro: currículo na língua de Goethe para descendentes de alemães

 

Pelos olhos dos artistas alemães


Antonio Milena
Divulgação

Em sentido horário, a partir do alto, à esquerda: vitral de Conrado Sorgenicht Filho, tela de Alice Brill e foto de Hildegard Rosenthal

Eduardo Albarello

A São Paulo ainda rural, aquela que almejava virar uma grande metrópole à custa da colheita de café e do trabalho dos imigrantes de todos os cantos do mundo, permanece viva e colorida nos vitrais do artista teuto-brasileiro Conrado Sorgenicht Filho. Seus painéis de vidro, que retratam cenas do campo, podem ser encontrados em cerca de 300 igrejas da cidade, na Faculdade de Direito do Largo São Francisco e no Teatro Municipal. Sua obra mais conhecida é um vitral sobre a cafeicultura no Mercado Municipal. Outros artistas alemães também souberam retratar com sensibilidade as transformações que aconteciam em São Paulo. As litografias de Karl Friedrich Philipp von Martius e as pinturas de Carl Robert Baron von Planitz fazem parte do acervo do Museu da Imigração e mostram um pouco das novidades que tomavam conta da cidade no começo do século passado, com a construção de novos prédios. Já as fotógrafas Hildegard Rosenthal e Alice Brill (também pintora) souberam encontrar a beleza que existia no fluxo quase caótico das pessoas e registraram com suas lentes os costumes, os hábitos, as modas e, principalmente, os tipos humanos da metrópole.

     
   
 
 
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