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ESPECIAL Muito
mais que chope e salsichões com mostarda Entre
a tradição das danças folclóricas e as lojas com
as últimas novidades da moda e da música eletrônica,
a influência da comunidade alemã na cidade ganha evidência
com o início da Copa do Mundo Rodrigo Brancatelli
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Eles são coloridos, pesam bem
mais que aqueles discos de vinil antigos encontrados aos montes nas banquinhas
da Praça Benedito Calixto e têm seus preços em euros. Isso
é praticamente tudo o que o publicitário e DJ Maurício Klein
conhece da cultura germânica: os discos de house music importados de Berlim
que ele compra em uma loja da Galeria Ouro Fino, na Rua Augusta. "Se bobear, mal
consigo apontar no mapa onde fica Berlim", diz. Neto de alemães, Klein
não tem idéia do lugar de onde sua família veio. Muito menos
sabe falar alemão ou mantém as tradições de seus antepassados.
Tem tanta intimidade com o país quanto os brasileiros curiosos por causa
do início da Copa do Mundo. De certa forma, esse é o retrato da
comunidade alemã na cidade de São Paulo. Perseguida durante a II
Guerra Mundial, ela teve de abrir mão de muitos hábitos para se
adaptar ao país. Mas é responsável por parte da história
da capital. Klein, por exemplo, era o sobrenome de um dos 227 colonos que chegaram
ao Porto de Santos em 13 de dezembro de 1827, a bordo do primeiro navio a trazer
imigrantes alemães para o estado.
Mario Rodrigues  |
| Instituto Goethe: aulas de alemão e exposições mensais
para preservar e divulgar a cultura germânica | Desses
viajantes, 129 aceitaram as terras oferecidas pelo Império na freguesia
de Santo Amaro, onde hoje fica o distrito de Parelheiros. O senhor Klein subiu
a Serra do Mar a pé, carregando ferramentas, sementes e a esperança
de colher no Brasil uma vida melhor. Como tantos outros imigrantes dos mais variados
países que tentaram a sorte por aqui, a colônia alemã acabou
deixando sua marca pelo caminho. A presença parece discreta, já
que não há um bairro típico como a Liberdade, mas a influência
vai muito além do chope ou da comida servida nos cerca de dez restaurantes
especializados da cidade. O primeiro grande engenheiro da capital foi um alemão,
Karl Rath, que planejou a canalização de diversos córregos.
Entre os urbanistas pioneiros, destaca-se Victor Nothman, que criou o loteamento
de Higienópolis e iniciou a expansão para além do Vale do
Anhangabaú.
Fernando Moraes  |
| Restaurante Weinstube, dentro do Club Transatlântico:
ponto de encontro da comunidade | "Os
alemães tiveram um forte papel no desenvolvimento industrial da cidade",
conta Eckhard Kupfer, diretor do Instituto Martius-Staden, no Morumbi, que há
oitenta anos se dedica à preservação da cultura germânica
no Brasil e cujo acervo guarda mais de 65 000 documentos sobre a imigração.
"São Paulo conta atualmente com quase 1.200 empresas de capital alemão,
o que faz dela a maior cidade industrial germânica fora da Alemanha." Kupfer
lembra ainda que a sociedade paulistana sempre teve em seus quadros mais estrelados
a presença de teuto-brasileiros representados atualmente, entre
outros, pelo iatista Robert Scheidt, que carrega o sobrenome do avô paterno,
a designer de sapatos alemã Franziska Hübener, Sabine Lovatelli, que
também nasceu na Alemanha e preside o instituto cultural Mozarteum, e o
artista plástico Paulo von Poser, neto de alemães.
Daniela Toviansky  | Fernando
Moraes  |
| Grupo de dança Edelweiss: mulheres usam um
vestido camponês típico do sul da Alemanha chamado dirndl
| Coral da Igreja Evangélica Alemã, na Chácara Santo Antônio:
cânticos entoados em alemão e em português | Os
imigrantes também deram um forte impulso à educação,
com suas escolas comunitárias chamadas de gemeindeschulen. Esse
modelo foi a semente do ensino privado no estado e acabou sendo adaptado anos
mais tarde nas escolas públicas. A primeira experiência do tipo foi
inaugurada em 1878, na Rua Florêncio de Abreu, no centro. Era a Deutsche
Schule, que se transformou depois no Colégio Visconde de Porto Seguro.
Ainda no século XIX, a comunidade germânica trouxe em sua bagagem
a religião protestante. Fundada em 1891, a Igreja Evangélica Alemã
de São Paulo tem hoje sete paróquias, todas com cultos em alemão
e em português. Outras instituições culturais e esportivas
pioneiras também foram montadas por alemães. Em 1899, o fanático
por futebol Hans Nobiling criou com amigos o Sport Club Germânia, campeão
paulista em 1906, que deu origem na década de 40 ao Esporte Clube Pinheiros
(os atletas da instituição até hoje vestem uniformes com
as cores azul, preto e branco do Hamburger Sportverein, famoso time de Hamburgo).
Já o tradicional Club Transatlântico foi fundado em 1954 por empresários
alemães e permanece até hoje como um dos principais pontos de encontro
da comunidade. Lá dentro está o Weinstube, um dos melhores restaurantes
especializados em comida alemã da cidade, onde se consomem todo mês
cerca de 130 quilos de lingüiça e 1.500 litros de cerveja.
Mario Rodrigues  |
| Tatiana Hamann e Ursula Klayn, sócias da loja Berliner,
na Rua Augusta: roupas e objetos de decoração trazidos de Berlim | As
boas relações entre brasileiros e alemães estremeceram durante
a II Guerra Mundial. A partir de 1937, Getúlio Vargas proibiu por aqui
qualquer língua que não fosse o português. Os teuto-brasileiros
passaram então a ser discriminados, deportados ou até internados
(nas escolas, eram chamados de "alemães batata"). As bochechas avermelhadas
da ex-sapateira e atual dona-de-casa Mathilde Batzen, de 87 anos, enrubescem ainda
mais quando ela se lembra da vergonha que sentia na época. "Quase me lincharam
na rua, cheguei a apanhar com porrete", diz a alemã, nascida em uma cidadezinha
perto de Munique e criada em Parelheiros. "Doía ainda mais ver meu pai
chorar num canto da sala, sem saber o que fazer." Mathilde é um dos poucos
membros da comunidade que ainda vivem na região. Muitos moradores rumaram,
no meio do século passado, para a região de Campo Belo, Moema e
Brooklin ("pequena ponte", em alemão da Idade Média).
Mario Rodrigues  |
| Eckhard Kupfer, diretor do Instituto Martius-Staden:
acervo conta com arquivo de jornais em língua alemã publicados no Brasil desde
1897 | Nesses bairros fica
hoje uma espécie de foco de resistência da cultura alemã.
Há ali uma doceria que produz deliciosos nusskipferl (meias-luas
amanteigadas recheadas com nozes, passas e mel), uma livraria com 16.000 títulos
na língua de Goethe, restaurantes típicos e até uma loja
dedicada a CDs importados da Alemanha (veja
quadro). "Temos 500 discos diferentes, principalmente de música
erudita e folclórica", afirma Gerhard Daut, de 55 anos, que veio da cidade
de Nuremberg com apenas 10 meses, durante o pós-guerra, e mantém
a Bavaria Som. A poucos quarteirões da loja está a Associação
Católica Kolping, fundada em 1923 por alemães, austríacos
e suíços. Além de quadra esportiva, piscina, capela, boliche
e restaurante, o local abriga os ensaios do grupo folclórico Edelweiss,
que mantém vivas danças como webertanz, bändertanz
e zillertaler ländler. "São 32 membros, muitos dos quais não
têm nenhum tipo de ascendência germânica", conta Carlos Busch,
diretor da trupe. Com trajes típicos (dirndl para as mulheres e
lederhose para os homens), eles se apresentam nas duas festas da comunidade
na cidade a Maifest, em maio, e a Brooklinfest, em setembro, ambas financiadas
pela Associação de Lojistas do Brooklin.
Marina Malheiros
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| Octacampeão mundial: o iatista Robert Scheidt carrega
o sobrenome de seu avô alemão | Mas
não só por suas tradições seculares a Alemanha é
lembrada. Do mesmo jeito que Berlim é hoje conhecida como um dos grandes
centros de produção musical e artística, São Paulo
não deixa de incorporar o que há de mais moderno e contemporâneo
na vanguarda alemã. O Instituto Goethe, mantido pelo Ministério
de Relações Exteriores germânico, faz essa ponte entre as
duas metrópoles. Além dos cursos de língua freqüentados
por cerca de 2.500 alunos anualmente, o centro realiza em média sete eventos
por mês, que envolvem de artes plásticas a ciência. Outro endereço
para quem quer conhecer a nova Alemanha é a Rua Augusta, que reúne
a loja de música eletrônica Rhythm Records, onde é possível
achar discos de house music e minimal alemães, e a Berliner, bacanudo espaço
com roupas, livros, guias de viagem, postais, utensílios e objetos de arte
importados da Alemanha. "Em Berlim, o novo e o velho se encontram e se complementam",
diz a estilista Ursula Klayn, descendente de alemães que abriu a Berliner
há dois meses ao lado de sua amiga de infância Tatiana Hamann, também
com ascendência germânica. "Na comunidade alemã em São
Paulo também é assim."
Rubens Chiri/Perspectiva  |
| Sabine Lovatelli, nascida na cidade de Iena: com o Mozarteum,
ela trouxe a São Paulo algumas das maiores orquestras do mundo |
Fernando Moraes  | Daniela
Toviansky  |
| A designer de sapatos alemã Franziska Hübener:
há vinte anos vendendo suas criações em São Paulo | O neto de alemães Paulo
von Poser: artista plástico conhecido por sua arte pop |
Mario Rodrigues  |
| Vivian Sandri e Daniel Uettrich, alunos do Colégio Porto
Seguro: currículo na língua de Goethe para descendentes de alemães |
| Pelos olhos dos artistas alemães
A São Paulo ainda
rural, aquela que almejava virar uma grande metrópole à custa da
colheita de café e do trabalho dos imigrantes de todos os cantos do mundo,
permanece viva e colorida nos vitrais do artista teuto-brasileiro Conrado Sorgenicht
Filho. Seus painéis de vidro, que retratam cenas do campo, podem ser encontrados
em cerca de 300 igrejas da cidade, na Faculdade de Direito do Largo São
Francisco e no Teatro Municipal. Sua obra mais conhecida é um vitral sobre
a cafeicultura no Mercado Municipal. Outros artistas alemães também
souberam retratar com sensibilidade as transformações que aconteciam
em São Paulo. As litografias de Karl Friedrich Philipp von Martius e as
pinturas de Carl Robert Baron von Planitz fazem parte do acervo do Museu da Imigração
e mostram um pouco das novidades que tomavam conta da cidade no começo
do século passado, com a construção de novos prédios.
Já as fotógrafas Hildegard Rosenthal e Alice Brill (também
pintora) souberam encontrar a beleza que existia no fluxo quase caótico
das pessoas e registraram com suas lentes os costumes, os hábitos, as modas
e, principalmente, os tipos humanos da metrópole. | |