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A formiguinha
O crítico
José Ramos Tinhorão vende seu
soberbo acervo ao Instituto Moreira Salles
Ciro Pessoa
Fotos Leo Feltran

Tinhorão
folheia seus recortes: quarenta anos para reunir
7 000 livros e 5 000 discos em seu apartamento.
"Pela primeira vez, terei um sofá"
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Foram quarenta anos pescando 7.000 volumes
em sebos e garimpando 5.000 discos em
lojas de todo o país. Durante esse tempo, o crítico
e historiador José Ramos Tinhorão conseguiu reunir
o mais fabuloso acervo particular de música popular brasileira.
Ele está distribuído pelas estantes de um apartamento
de dois quartos, localizado na Rua Barão de Limeira, no centro.
Na semana passada, Tinhorão assinou um acordo, transferindo
tudo para outro endereço. Ele vendeu a coleção
para o Instituto Moreira Salles, por um valor que se recusa a revelar.
A partir de novembro, ela deverá estar à disposição
dos paulistanos para consulta. "Nestas quatro décadas, trabalhei
feito uma formiguinha", explica o homem, equilibrando-se sobre uma
cadeira, com espantosa habilidade acrobática para seus 72
anos, à procura de um exemplar de uma revista na prateleira
mais alta.
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| Versão
do Hino Nacional: registro
feito em Londres, no ano de 1901 |
O museu de Tinhorão
é magnífico. Entre as pilhas puídas, encontra-se
o primeiro disco de que se tem notícia no Brasil uma
gravação do Hino Nacional, feita em 1901, em
Londres. Há mais de 3.000 fotos
de artistas desconhecidos. Ele deseja, com isso, dar um rosto àqueles
que já gravaram e nunca tiveram sua imagem divulgada. Constam
ainda edições encadernadas das revistas Fon Fon
e Cruzeiro, partituras de velhas polcas, pasquins, folhetos,
encartes. "É material demais para uma pessoa só",
conta, enquanto folheia um número da Pranove, publicação
patrocinada pela Rádio Mayrink Veiga, datada de 1939. "Não
sou um colecionador fetichista nem tenho um sentimento de posse
desenvolvido. Eu continuo, o acervo sai de casa", completa, com
uma ponta de tristeza nos olhos.
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| Capa
de O Cruzeiro número
1: primórdios das revistas |
O material ocupa
a sala, um quarto e os dois corredores do imóvel de 93 metros
quadrados que ele divide com a mulher, Maria Rosa. Santista, criado
no Rio, Tinhorão vive em São Paulo desde 1968. Agora,
prepara-se para transformar sua casa em um lar, propriamente dito.
"Pela primeira vez, tenho um sofá", diz. "Já morei
em uma quitinete na Rua Maria Antônia, onde eu dormia num
sleeping bag rodeado de livros, discos e recortes." Ele acredita
que o acervo ganhará um tratamento à altura de sua
qualidade no instituto. Tudo será devidamente catalogado
e recuperado. No ano que vem, parte dele estará na internet.
Além disso, o crítico passará a ser um consultor
na área de MPB, com direito a trabalhar em outros projetos,
como coordenar cursos e orientar publicações.
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| Disco
de 76 RPM, de 1914: selo
da fábrica pioneira da indústria fonográfica
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Embalagem
de uma
gravação de rolo, à
base de cera, produzida em 1900: pai
do vinil |
Autor de dezoito
livros e prestes a lançar o 19º, A Música
Popular no Romance Brasileiro, Tinhorão jura que deseja
esquecer sua inesquecível passagem pelo posto de crítico
mais duro da música brasileira, fama que amealhou trabalhando
no Jornal do Brasil. "Não me encaixo nesse perfil",
afirma, exaltado. "Não exerço essa função
desde 1980." Suas diatribes marcaram época. O amigo Nelson
Rodrigues chegou a transformá-lo em personagem do romance
Engraçadinha. De formação marxista,
acusado constantemente de xenofobia, ele teve vários alvos.
Desceu violadas sobre a bossa nova, por exemplo. "Ela é apenas
a montagem, no país, de uma versão da música
americana", descreve. Preferia um compositor chamado Zé Coco
do Riachão a Tom Jobim ("um plagiário", acusou). Mais
tarde, investiu contra os baianos. Gilberto Gil foi classificado,
certa vez, como "jamaicano". Os roqueiros também costumam
apanhar feio. "Não há rock brasileiro, há rock
americano", define. O Festival da Globo? "Eu vi na televisão
e parecia coisa de 25 anos atrás", diz. "Além de chato,
vem com muito tempo de atraso."
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Raimunda Porcina de Jesus: primeira empresária
musical brasileira de que se tem notícia |
"Sua leitura
marxista da música o impede de ver além da luta de
classes e do imperialismo", acredita o produtor, compositor e escritor
Nelson Motta. Seus mais ferrenhos inimigos reconhecem, porém,
que Tinhorão (aliás, apelido que, uma vez publicado
numa crítica, acabou pegando) é um pesquisador incansável
e criterioso. "Acho-o um excelente historiador, que não fala
sem estar documentado", diz o compositor Luiz Tatit, professor de
lingüística e semiótica na Faculdade de Letras
da USP. "Estou sempre pesquisando seus estudos." É este o
José Ramos Tinhorão que será revelado para
o público que for ao Instituto Moreira Salles em busca de
informações precisas e raridades históricas
da cultura popular do Brasil.
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