Bichinhos rejeitados

Donos se cansam de seus animais silvestres
e resolvem abandoná-los pela cidade, com
riscos para a fauna e até para a população

Pedro Biondi

 
Marcelo Duarte
Renata Ursaia

Susto em Higienópolis

Uma corn snake arrastava-se em um canteiro da Praça Buenos Aires, alheia ao burburinho à sua volta. Nativa dos EUA, não é venenosa

Nos esgotos de Nova York... e também do Morumbi

Em Nova York, várias mães jogavam os répteis da criançada no vaso sanitário. Aqui, este jacarezinho foi encontrado em um bueiro perto da Rua Engenheiro Oscar Americano

"Paiê, olha o bicho!", repetia o menino Lucas dos Santos Júnior, de 2 anos, tentando fazer o pai desgrudar os olhos da TV. Lucas tinha motivos para insistir. O que o garoto havia descoberto atrás da geladeira de sua casa no Cambuci, em maio passado, não era um camundongozinho. Tratava-se de uma cobra píton indiana. Um mês depois, outra cobra, uma corn snake americana, foi retirada da Praça Buenos Aires. Ocorrências inusitadas como essas têm pipocado nas áreas verdes (e até nas cinzentas) da cidade, somando-se às já tradicionais aparições de jacarés e capivaras nas margens dos rios-esgotos. São lagartos e aves da Amazônia e do Nordeste, cobras africanas e outros alienígenas que paulistanos despejam em parques e praças. O problema se agravou no refluxo de uma moda que teve seu auge há dois anos: eleger para mascotes iguanas, rãs, aranhas e outros bichos esquisitos. O resultado é uma tremenda dor de cabeça. Primeiro porque os locais que poderiam abrigar esses bichos ou estão superlotados ou em via de ficar. Depois porque soltos, fora de seu habitat, eles podem causar graves danos ambientais.

"A demanda é monstruosa", diz Angela Maria Branco, coordenadora do hospital veterinário da Divisão de Fauna, o setor da prefeitura que cuida do assunto. O local, um dos principais centros de recolhimento de animais silvestres na Grande São Paulo, já não dá conta do recado. Pelas 200 vagas do entreposto passaram 2.956 exemplares no ano passado e, ainda assim, muitos foram recusados. A soma engloba as apreensões nas blitze contra o comércio ilegal e os animais resgatados por policiais e por funcionários da Sabesp e do Centro de Controle de Zoonoses, além dos trazidos por compradores arrependidos. Nesse bolo, destaca Angela, a porcentagem de exóticos (estrangeiros) aumentou muito de 1997 para cá. "Antes, praticamente não apareciam, com exceção de algumas aves", conta. Em 1999, foram 351.

 
Rogério Montenegro
Renata Ursaia

Rejeitada no Ibirapuera

A tartaruga de orelha vermelha é um dos animais mais abandonados em parques públicos. Dezenas delas foram levadas à Divisão de Fauna

Em Alphaville

Esta espécie de falsa coral não faz parte da fauna nativa. Mas tem sido encontrada em vários pontos da região metropolitana

Para os funcionários do Instituto Butantan não é mais surpresa ver que deixaram à sua porta uma caixa de madeira com uma cobra dentro. "Já recebemos algumas raridades assim", diz o biólogo Marcelo Duarte, do laboratório de herpetologia. A maioria, no entanto, é figurinha repetida. "No ano passado, vinha pelo menos uma píton bola por mês", recorda. Não por acaso, essa cobra originária da África era uma das preferidas entre os colegiais. O estudante de economia Diego, 19 anos, criava uma num terrário. A casinha de vidro nem permitia ao réptil esticar seus 80 centímetros de comprimento. "Fiquei com pena e a ofereci a alguém que cuidaria bem", diz Diego. É uma história que se repete. Um adolescente compra o animal e ao cabo de algumas semanas se enjoa de observá-lo devorar cobaias ou baratas. Em outros casos, o fim da paixão se deve à manutenção, cara e trabalhosa.


Rogério Montenegro

Duarte: cobras são deixadas em caixas de madeira na porta do Instituto Butantan


A tradicional razão "cresceram muito" levou L.B.B., 15 anos, a devolver à loja seus dois iguanas, que se atiravam contra as luminárias do terrário. Ele também achou outro dono para seu calango e seu water dragon (lagarto do Sudeste Asiático). Apesar da história especial, o teiú que aparece na capa desta edição também ficou grande demais para a vida no quarto. "Nós o pegamos porque estava machucado e acabamos ficando com ele durante três anos e meio", diz Guilherme, 17 anos, o ex-proprietário. "Murphy" nasceu em uma mata do Guarujá e cresceu em um apartamento na Vila Madalena. Começou a dar mostras de insatisfação fugindo do terrário e reagindo agressivamente aos afagos. O lagarto reparte, por ora, um dos viveiros do Ibirapuera com outros dois da mesma espécie.

 
Rogério Montenegro
Marcelo Duarte

Ao deus-dará na USP

Depois de saber que a coruja não seria atendida na USP, os donos a largaram, com a pata quebrada, no local. Ela foi levada ao hospital da Divisão de Fauna

Terror em cozinha no Cambuci

Um garotinho de 2 anos foi quem a encontrou atrás da geladeira. A píton albina de 3,5 metros era criada por um vizinho

Doenças são outro motivo que pode transformar o mascote em um estorvo. A incidência é alta, sobretudo por causa das más condições em que os animais são transportados e mantidos nos fundos das pet shops. Para driblar a fiscalização alfandegária, os importados vêm em bolsos de casaco ou embolados às centenas dentro de malas quase sem oxigênio. Recentemente, um homem foi preso com cerca de 500 pererecas Dendrobates em tubos de filme fotográfico. Algumas pessoas consideram que a raiz do problema é querer tratar como animais domésticos bichinhos que estão longe de se prestar a esse fim. "É uma estupidez ter em casa esses bichos que não são sociais. Que relação pode estabelecer um homem com uma lagartixa?", questiona Paulo Emílio Vanzolini, ex-diretor do Museu de Zoologia da USP e uma sumidade em répteis. Em sua opinião, qualquer animal pode ser amansado, mas só o cachorro, o cavalo e os macacos se apegam ao homem.

É comum o Corpo de Bombeiros ser acionado por alguém que alega que um bicho estranho "apareceu" no quintal. Explica-se. A maior parte desses animais provém do tráfico e, desse modo, mantê-los em casa também caracteriza crime. Aí, as pessoas buscam um jeitinho de se livrar deles sem se comprometerem. Mas sustos verdadeiros também acontecem. O tenente Humberto Cesar Leão, do Corpo de Bombeiros, presenciou a retirada da píton de 3,5 metros que estava numa cozinha. A doméstica Kátia Faria, mãe do garoto Lucas, perdeu os sentidos ao ver as viaturas em frente de sua casa, pressentindo uma tragédia que poderia, mesmo, ter se consumado. "Cobras nessa faixa de tamanho costumam comer presas do porte de porcos e macacos", esclarece Marcelo Duarte, do Butantan. Para atuar em incidentes do gênero, cerca de metade dos bombeiros se especializa em contenção de animais, atividade que, no extremo, pode incluir a ingrata tarefa de, literalmente, matar um leão. O próprio Humberto já participou da captura de um deles, fugido de uma jaula na Associação Esportiva da Polícia Militar. Esse, felizmente, foi reencaminhado vivo ao cativeiro, com o auxílio de um pedaço de carne e seis dardos tranqüilizantes. A corporação entregou 97 animais a cativeiros públicos e reconduziu 122 a áreas naturais no ano passado.

 
Rogério Montenegro

Surpresa em uma escola de Pinheiros

Magro e incapaz de voar, este gavião-carijó foi recolhido no quintal de uma escola. Hoje se recupera no Parque do Ibirapuera

Uma parte dos donos conclui que a melhor solução para todos é simplesmente "devolver" os bichinhos à natureza. Foi o que fez a empresária Marcela com o iguana que havia dado ao filho. Por falta de exposição ao sol, o lagarto ficou com carência de cálcio e adoeceu. Marcela, que passou a acumular as funções de babá e enfermeira do réptil, não teve dúvidas: soltou-o numa fazenda no interior do Estado – "Fiquei com dó de sacrificar". Atitude ecológica? Ledo engano. A introdução de espécies de outros países, ou mesmo de outras localidades (no Brasil, o iguana só ocorre da Bahia para cima), numa região pode desencadear grandes baixas na fauna desse local. Os exóticos concorrem com espécies nativas e podem transmitir moléstias – inclusive para os humanos. A febre dos pets da selva já ensejou no mínimo um caso em São Paulo. Um lagostim americano disponível nas lojas de aquários povoou os lagos do Parque Alfredo Volpi, no Morumbi. "Ele já se reproduz ali. É uma população bem estabelecida", analisa o professor do departamento de zoologia da USP Sérgio Bueno. Um aluno de Bueno estuda o caso há dois anos. "Estamos falando de um bicho muito resistente que se tornou uma praga nos países onde foi introduzido, como a Espanha", alerta.

Quem decidiu que não quer mais manter seu animal silvestre deve dirigir-se à Divisão de Fauna ( 3885-6669), ao Instituto Butantan ( 3726-7222), ou ao Parque Ecológico do Tietê ( 6958-1477, ramal 216). O Zoológico parou de aceitar doações porque o espaço físico para alojar os deserdados simplesmente se esgotou. Nos três lugares, não é preciso temer sanções legais, mesmo que se trate de um animal proibido por lei. Entretanto, não existe garantia de que haverá vagas e, por isso, deve-se telefonar antes. O destino dos pacientes varia. Espécimes típicos daqui em boas condições de saúde podem ser "treinados" para voltar à vida selvagem. O restante é encaminhado a zôos e instituições de pesquisa. No Butantan, que só aceita serpentes, aranhas e escorpiões, nove entre dez exemplares vão "para a coleção" – traduzindo: são abatidos para servir de material de estudo.

 

Eles param o trânsito. E não é para menos

Vania Vargas/Folha Imagem

A capivara com o filhote, na aparição de 5 de setembro: toque telúrico na Marginal Pinheiros


Na manhã do dia 5, mais um congestionamento se formou na Marginal Pinheiros. Desta vez, não havia ponte em obras, engavetamento ou fila de saída para o feriadão. A causa da lentidão eram oito capivaras. Pastavam nas margens e, de vez em quando, mergulhavam nas águas poluídas, fazendo os curiosos reduzir a marcha e esticar o pescoço. Embora sempre chamem a atenção dos motoristas, essas atrações não são novidade. Quem não se lembra daquele jacaré que surgiu do nada no Rio Tietê e deu uma de Garrincha para cima dos encarregados de sua captura? Depois dos quinze minutos (na verdade, algumas horas) de fama, Teimoso foi laçado e entregue ao Zoológico, onde voltou ao anonimato, no meio de algumas dezenas de companheiros. Outros o sucederam em breves frissons. "É difícil dizer de onde eles vêm, pois não há um monitoramento", diz o biólogo Carlos Yamashita. Ele dá, porém, algumas dicas. É provável que os exemplares solitários de capivara sejam machos desgarrados. "Ao ficar adultos, alguns entram em conflito com o macho dominante e são expulsos do grupo", ensina Yamashita. Eles viriam, então, de populações do roedor em áreas próximas ao perímetro.

 

Ferret, forte candidato a ser uma nova mania

   
Ciete Silvério

Brincalhão, ágil e curioso, ele é um forte candidato a ser a nova mania entre fãs de bichinhos esquisitos. Primo do furão brasileiro, pertence à família dos mustelídeos – a mesma, também, da lontra e da ariranha. Mede em torno de 40 centímetros, sem contar a cauda, um pouco menor que isso. Pelos hábitos, recomenda-se manter os objetos frágeis fora de seu alcance e vedar todas as frestas da casa, mesmo as ínfimas. Quando não houver alguém por perto, o ideal é mantê-lo na gaiola, pois qualquer janela ou porta aberta pode ser fatal. Donos de pet shops garantem que o animalzinho está sempre disposto a brincar, como o cão, e é capaz de fantásticos movimentos de equilíbrio, do mesmo modo que o gato. Aliás, usa caixinha de areia para as necessidades, como os bichanos. O ferret está sendo importado dos EUA, onde é muito popular, e no varejo custa em torno de 600 reais. Só o futuro dirá se a simpática criatura engrossará a lista dos abandonados...

 

VEJA on-line | Veja São Paulo | Veja Rio