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Ivan
Angelo
Desatino
Uma
trágica história de amor que comoveu a cidade
O jornalista
matou a moça a tiros porque não pôde suportar
o tranco de se ver preterido. Mais que isso: porque a amava de um
modo perdido, ruinoso, autodestruidor, como o amor cantado nos tangos
e nos folhetins.
Isso já
faz muito tempo, é um drama de 1923, época dos tenentes
revoltosos, das farras homéricas e dos amores desbragados.
Os amantes
conheceram-se três anos antes. A moça, belíssima,
procurara o combativo jornalista e advogado com a intenção
de fazer andar um processo de indenização que se achava
parado desde 1918, por injunções políticas.
A filha de uma poderosa fazendeira mandara desfigurá-la a
navalha, por ciúme, porque seu namorado havia jogado um bilhetinho
para a bela, no corso carnavalesco da Avenida Paulista. O laudo
médico dizia que "houve deformidade à estética
do rosto", mas o estrago não deve ter sido grande, pois quando
ela foi morta um jornal publicou que suas feições
eram "de uma rara perfeição estética".
Apaixonaram-se.
Ela, muito; ele, demais. Ela, Nenê Romano, 21 anos, ex-costureira
do Brás, era na época garota de programa. Ele, Moacir
Piza, 29, era de família fina, sobrinho de senador, irmão
de deputado, poeta, terrível no verso satírico, boêmio,
inseparável companheiro de mesa do poeta macarrônico
Juó Bananére, do romancista Hilário Tácito
(autor do grande sucesso de então, Madame Pommery)
e de Voltolino, o ilustrador dos livros de Monteiro Lobato. Moacir
descuidou dos amigos, enclausurou-se no amor.
Passaram dois
anos assim, vagando pelas pensões, bares, teatros, restaurantes,
arrabaldes, em automóveis alugados ô vida! Era
um amor apontado, daqueles recriminados nas conversas das famílias
com um balançar de cabeças. Moacir não era
rico; casar com tal pessoa em tal família, impossível.
Com o tempo, a moça foi perdendo o entusiasmo, depois o amor,
por fim o respeito. Começou a negligenciar a exclusividade
que dedicara ao jornalista. O fecho de um soneto escrito por ele
retrata seu drama: Por que o bem de olvidá-la não
consigo?/Eu que, do seu amor, ando olvidado? Levada por um deputado,
Nenê subiu as escadas da tribuna oficial e da extra-oficial
do governador do Estado, então chamado presidente. O amante
desesperado descreveu a cena sem dar o nome da "senhora elegante,
bela, quase divina e, mais que tudo, alegre" num livro panfletário,
Roupa Suja, que saiu em agosto de 1923. O deputado, tratado
como alcoviteiro, saiu armado para atirar no poeta jornalista. Sabendo-se
procurado, este quis enfrentar o indignado. Os amigos dos dois,
todos da nata paulistana, conseguiram transformar a caçada
num duelo de cavalheiros, com regras e testemunhas. Depois, lendo
o livro com atenção, os padrinhos concluíram
que não era o caso de lavar a honra a tiros. Proibiram o
lance romântico e publicaram no Estadão uma
ata dando o incidente por findo.
Os amigos,
penalizados com o estado do apaixonado, pensaram arranjar-lhe uma
representação diplomática, tirá-lo da
cidade, do país. Ele já não ia ao jornal, ausentara-se
da banca de advogado. Ela, por fim, terminou a relação.
Oito dias depois,
no dia do aniversário dela, Moacir mandou-lhe de presente
um faqueiro com um buquê de flores. Nenê recusou o presente.
Moacir foi procurá-la, ela saía num carro de praça.
Temendo uma cena na frente de casa, pediu que ele entrasse no automóvel.
Pouco depois, na esquina da Rua Sergipe com a Avenida Angélica,
dentro do carro, ele a matou com quatro tiros. O motorista voltou-se
a tempo de ouvi-la dizer "Ai, Moacir", de vê-lo disparar um
tiro no próprio coração e cair sobre ela. As
amigas colocaram sobre o caixão dela o buquê de flores
que ele havia mandado com o presente recusado.
Era uma época
em que os homens, quando chegavam ao desatino de matar suas amadas,
preferiam morrer com elas
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