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12 de março de 2003
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TRÂNSITO

Multas e mais multas.
E a CET no vermelho

Companhia arrecada mais de 300 milhões
de reais por ano com autuações, mas ainda
assim enfrenta grave crise financeira, tendo
de cortar gastos e funcionários

Erika Sallum

Leo Feltran
3 889 funcionários trabalham atualmente na empresa, entre eles 1 423 marronzinhos


Responsável por organizar o trânsito dos 5 milhões de carros paulistanos que saem às ruas todos os dias, a Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) enfrenta um período dificílimo. Apesar de ter arrecadado só no ano passado cerca de 314 milhões de reais com multas, a empresa atravessa uma crise financeira que a levou a diminuir drasticamente os custos e a demitir parte de seu pessoal. Inconformados, os funcionários, incluindo os marronzinhos, fizeram greve há duas semanas. O caótico tráfego da capital, que ganha a cada dia 500 novos veículos, ficou ainda mais complicado. A situação se agravou quando a prefeitura anunciou um corte de 38 milhões de reais no orçamento de 2003. A partir daí, uma redução de 25% nas despesas foi imposta na companhia, em setores que vão de gastos com xerox a serviços de limpeza. "Mesmo com essas medidas, tivemos de dispensar gente", diz Francisco Macena, presidente da CET. Neste ano, foram demitidas 445 pessoas. "Se não fizéssemos isso, logo teríamos de cancelar contratos e até atrasar salários. Estamos tentando não inviabilizar nosso trabalho."

Uma das principais causas da crise é o caminho do dinheiro das autuações, que vai primeiro para os cofres do governo municipal e só depois parte dele é repassada para a Secretaria de Transportes. "Isso é inaceitável e contraria o Código de Trânsito Brasileiro", afirma Roberto Salvador Scaringella, especialista em segurança no trânsito, ex-secretário municipal de Transportes e um dos fundadores da CET. Segundo o código, "a receita arrecadada com cobrança das multas deve ser aplicada exclusivamente em sinalização, engenharia de tráfego, de campo, policiamento, fiscalização e educação no trânsito". Não é o que acontece hoje em São Paulo. "A prefeitura está sucateando um órgão essencial para a cidade. Não dá para ficar demitindo mão-de-obra especializada. A segurança dos motoristas fica comprometida e os congestionamentos tendem a aumentar", observa Scaringella.

Celso Junior/AE
Sergio Castro/AE
445 pessoas foram cortadas desde janeiro, além de uma redução de 25% nos gastos 773 veículos compõem a frota destinada a atender a toda a capital, sendo que em média 20% deles ficam parados para manutenção

Não é de hoje que a CET sofre com poucos recursos. Criada em 1976, a empresa passou por inúmeras dificuldades e conta atualmente com apenas 3.889 funcionários para controlar congestionamentos que volta e meia superam os 100 quilômetros de extensão. Dentre eles, 1.423 marronzinhos, que se dividem em turnos. Para circular, há somente 773 carros, guinchos e motos – pouco para uma cidade do tamanho de São Paulo. "Para nos equipararmos a metrópoles como a Cidade do México, precisaríamos ter no mínimo mais 1.000 marronzinhos nas ruas", afirma Macena. "A gente se vira como pode." Além de aplicar multas e cuidar do trânsito, a CET ainda tem de remover carros e caminhões quebrados (são cerca de 700 todos os dias), instalar e fazer a manutenção do equipamento de sinalização e promover campanhas para a segurança e a educação dos motoristas. Em dias de acontecimentos especiais, como shows de rock e Fórmula 1, a empresa tem de cuidar do trânsito nas imediações. "São eventos particulares, mas a CET faz o serviço de graça", afirma Luiz Antônio Queiroz, presidente do Sindviários, o sindicato dos trabalhadores do sistema viário. "Em vez de promoverem demissões, por que não tentam outras fontes de dinheiro?"

Para tentar reverter a situação e injetar mais verbas na CET, há um projeto de lei tramitando na Câmara de Vereadores que prevê a criação de um fundo municipal de desenvolvimento de trânsito. "Com ele, o dinheiro das multas e de outras rendas, como a Zona Azul, não cairia nas mãos da prefeitura", explica o vereador Paulo Frange, autor do projeto. "Calculamos que arrecadaríamos anualmente mais de 600 milhões de reais, que seriam destinados a melhorar o transporte, a ajudar a construir metrô, a investir em radares e sinalização inteligente..." A primeira votação do projeto ocorreu em dezembro, e a segunda deve acontecer ainda neste mês. "Ninguém agüenta mais tantos congestionamentos", diz Frange. "Investir em melhorias no trânsito é fundamental para a qualidade de vida do paulistano."

 

251 milhões é o orçamento previsto neste ano para a CET – 38 milhões a menos que em 2002

179 milhões é o que a companhia deve consumir só com salários e benefícios dos empregados

6 400 multas são aplicadas por dia na cidade

314 milhões é quanto foi arrecadado com autuações no ano passado, mas o dinheiro vai primeiro para os cofres da prefeitura

 

         
     
 
 
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