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CRÔNICA
Colecionadores
O
que leva as pessoas a pôr
tanto empenho em juntar coisas?
Ivan
Angelo
Faz
alguns anos recebi uma carta de Guaçuí, no Espírito
Santo, de um senhor Silveira, que me solicitava dados bibliográficos
e um autógrafo na folha de rosto de um livro meu, a qual
ele havia destacado e pretendia colar de novo no volume, com minha
assinatura. Teve a delicadeza de mandar um envelope selado para
a resposta. Havia conseguido dessa maneira, dizia ele, uma preciosa
coleção.
Como será que um colecionador faz sua escolha? Quais serão
seus estímulos internos? Para muitos a originalidade conta,
passam um tempo na busca de uma idéia, bolando, como se a
coleção que empreendessem fosse torná-los diferentes.
Há os que esperam ganhar algum dinheiro com ela, a longo
prazo. Muitos seguem o comum: selos, moedas, bonecas... Algumas
coleções são baratinhas, como as de caixas
de fósforos, chaveirinhos, lápis, cartões de
telefone público. Há umas caríssimas: carros
antigos, motos, relógios de grife. Existem muitas trabalhosas,
como rádios de válvulas ou gramofones. Outras provocam
no interlocutor aquele queixo caído de espanto: saquinhos
de chá, por exemplo.
Quem começa não tem uma meta, do tipo: "Quando chegar
a 500 eu paro". É um ir, sem chegada. Desvia para seus objetos
queridos muito do afeto, da dedicação e do trabalho
que poderia ter com pessoas ou obrigações. Ah, mas
coleções têm algo que estas não têm:
são um brinquedo, um jogo, um lazer, um hobby, um... fetiche?
Negócios internacionais surgem em torno delas, clubes, associações,
leilões, revistas, sites, portais... Há algo muito
fundo na alma humana ligado à ação de colecionar
objetos. Quem poderá dizer jamais por que o rei assírio
Assurbanípal colecionou seus milhares de plaquetas de barro,
que eram a forma primitiva dos livros, 650 anos antes de Cristo,
formando a primeira biblioteca de que se tem notícia? Foram
colecionadores antiquíssimos e modernos que fundaram museus,
bibliotecas, arquivos...
Sei de alguns colecionadores. Um ou outro pode ter perdido o ímpeto
inicial, alguns até já morreram, mas seu afã
sempre me intrigou.
Dona Elaine, velha vizinha, colecionava compoteiras. Brancas, azuladas,
rosadas, alaranjadas, amareladas, altas, baixas... Com que sorriso
esperto relatava a conquista de uma nova peça! Jair, locutor
de rádio, colecionava tangos. Tinha um quarto cheio de acetatos,
aquelas bolachas quebradiças de 78 rotações,
e elepês, cujos tchan-ran-tchan-tchans enchiam a vizinhança
de lamentosos acordes. Meu afilhado colecionava latinhas de cerveja,
e de cada viagem internacional eu trazia na mala, acomodadas para
não amassar, raras latas com sua morrinha insanável
de cevada azeda. Minhas filhas juntavam papéis de carta,
canetinhas, Barbies, adesivos. Passou, com a adolescência.
Loyola, o Brandão, colecionava bolachas de papelão
que acompanham o copo de chope. Renato, escritor, coleciona camisetas
de times de futebol. Um psiquiatra mineiro colecionou durante quatro
décadas garrafas de cachaça. Centenas de marcas guardadas
nos armários, rótulos históricos e preciosos.
Fechadas, que ele não bebia nem deixava beber. Um dia, a
empregada, para limpar "aquela poeirada", botou tudo em banho de
detergente na banheira, no tanque e nos baldes da casa. Quando o
psiquiatra chegou, os rótulos desbotados boiavam em cima
das águas. Sentou-se e chorou como um cliente.
O netinho de um amigo, avô recente, iniciou uma coleção
daqueles monstros que as crianças apreciam hoje em dia. E
perguntou no almoço de domingo:
Vô, o que você coleciona?
Netos.
Mas você só tem eu, vô!
Ele riu gostoso, olhando as noras e filhas barrigudas:
É que eu também estou começando.
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