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12 de março de 2003
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Colecionadores

O que leva as pessoas a pôr
tanto empenho em juntar coisas?

Ivan Angelo


Faz alguns anos recebi uma carta de Guaçuí, no Espírito Santo, de um senhor Silveira, que me solicitava dados bibliográficos e um autógrafo na folha de rosto de um livro meu, a qual ele havia destacado e pretendia colar de novo no volume, com minha assinatura. Teve a delicadeza de mandar um envelope selado para a resposta. Havia conseguido dessa maneira, dizia ele, uma preciosa coleção.

Como será que um colecionador faz sua escolha? Quais serão seus estímulos internos? Para muitos a originalidade conta, passam um tempo na busca de uma idéia, bolando, como se a coleção que empreendessem fosse torná-los diferentes. Há os que esperam ganhar algum dinheiro com ela, a longo prazo. Muitos seguem o comum: selos, moedas, bonecas... Algumas coleções são baratinhas, como as de caixas de fósforos, chaveirinhos, lápis, cartões de telefone público. Há umas caríssimas: carros antigos, motos, relógios de grife. Existem muitas trabalhosas, como rádios de válvulas ou gramofones. Outras provocam no interlocutor aquele queixo caído de espanto: saquinhos de chá, por exemplo.

Quem começa não tem uma meta, do tipo: "Quando chegar a 500 eu paro". É um ir, sem chegada. Desvia para seus objetos queridos muito do afeto, da dedicação e do trabalho que poderia ter com pessoas ou obrigações. Ah, mas coleções têm algo que estas não têm: são um brinquedo, um jogo, um lazer, um hobby, um... fetiche? Negócios internacionais surgem em torno delas, clubes, associações, leilões, revistas, sites, portais... Há algo muito fundo na alma humana ligado à ação de colecionar objetos. Quem poderá dizer jamais por que o rei assírio Assurbanípal colecionou seus milhares de plaquetas de barro, que eram a forma primitiva dos livros, 650 anos antes de Cristo, formando a primeira biblioteca de que se tem notícia? Foram colecionadores antiquíssimos e modernos que fundaram museus, bibliotecas, arquivos...

Sei de alguns colecionadores. Um ou outro pode ter perdido o ímpeto inicial, alguns até já morreram, mas seu afã sempre me intrigou.

Dona Elaine, velha vizinha, colecionava compoteiras. Brancas, azuladas, rosadas, alaranjadas, amareladas, altas, baixas... Com que sorriso esperto relatava a conquista de uma nova peça! Jair, locutor de rádio, colecionava tangos. Tinha um quarto cheio de acetatos, aquelas bolachas quebradiças de 78 rotações, e elepês, cujos tchan-ran-tchan-tchans enchiam a vizinhança de lamentosos acordes. Meu afilhado colecionava latinhas de cerveja, e de cada viagem internacional eu trazia na mala, acomodadas para não amassar, raras latas com sua morrinha insanável de cevada azeda. Minhas filhas juntavam papéis de carta, canetinhas, Barbies, adesivos. Passou, com a adolescência. Loyola, o Brandão, colecionava bolachas de papelão que acompanham o copo de chope. Renato, escritor, coleciona camisetas de times de futebol. Um psiquiatra mineiro colecionou durante quatro décadas garrafas de cachaça. Centenas de marcas guardadas nos armários, rótulos históricos e preciosos. Fechadas, que ele não bebia nem deixava beber. Um dia, a empregada, para limpar "aquela poeirada", botou tudo em banho de detergente na banheira, no tanque e nos baldes da casa. Quando o psiquiatra chegou, os rótulos desbotados boiavam em cima das águas. Sentou-se e chorou como um cliente.

O netinho de um amigo, avô recente, iniciou uma coleção daqueles monstros que as crianças apreciam hoje em dia. E perguntou no almoço de domingo:

– Vô, o que você coleciona?

– Netos.

– Mas você só tem eu, vô!

Ele riu gostoso, olhando as noras e filhas barrigudas:

– É que eu também estou começando.

         
     
 
 
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