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11 de setembro de 2002
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PERFIL

O médico das multidões

Com programas no rádio e na TV sobre
como levar uma vida saudável, Drauzio
Varella é um fenômeno capaz de mudar
os hábitos das pessoas

Erika Sallum


Mario Rodrigues
Rumo à Estação Carandiru: às segundas-feiras, o doutor Drauzio deixa seu Ford Fiesta na garagem e vai de metrô à Detenção


Veja também
Vídeo da campanha antitabagismo do qual o doutor Drauzio Varella participa
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Site oficial do doutor Drauzio Varella

Domingo, 7h30 da manhã. O senhor de pernas finas, alto e magro corre com agilidade pelo Minhocão. Durante quase duas horas, atravessa o Elevado diversas vezes, de ponta a ponta, sem parar. Só diminui a velocidade para acenar, bem-humorado, cada vez que escuta "E aí, doutor? Tudo bem?". No dia seguinte, de camisa e calça social, entra apressado na Estação Trianon-Masp do metrô rumo ao Carandiru. Mesmo discreto, não consegue evitar: chama a atenção assim que embarca no trem. "Doutor, já estou há dois meses sem fumar", diz um passageiro. "Eu agora ando diariamente", conta outro. Ouve os relatos com atenção e, antes de se despedir, repete: "Parabéns. Resista ao cigarro e pratique exercícios. Não fraqueje!". Seja tomando um cafezinho numa padaria de Higienópolis, seja caminhando pela Avenida Paulista, o cancerologista Antônio Drauzio Varella, de 59 anos, é reconhecido por onde quer que passe. Virou uma celebridade da medicina. Com programas na televisão e no rádio, colunas na imprensa e a publicação de livros, ele é hoje o médico mais popular do país.

Não que o doutor Drauzio, como sempre é tratado, seja um desses fenômenos-relâmpago, que surgem da noite para o dia. Seu nome é conhecido desde os tempos em que começou a tratar dos primeiros casos de Aids no país, em meados da década de 80. Conquistou mais notoriedade a partir de 1999, ao lançar o best-seller Estação Carandiru, sobre sua experiência com atendimento de presos na maior cadeia do Brasil. Até agora foram vendidos 297.000 exemplares do livro, um dos grandes êxitos editoriais da Companhia das Letras. Desde a publicação, a obra esteve por 130 semanas na lista dos mais vendidos de VEJA e, no próximo ano, chega ao cinema pelas mãos do diretor Hector Babenco.


Heudes Regis
No novo cenário de seu programa na TV Unip: misto de aula e talk-show científico

Mas a popularidade do oncologista explodiu mesmo com suas aparições no rádio e, principalmente, na TV incentivando as pessoas a levar uma vida mais saudável. Ao estimular os ouvintes e telespectadores a fazer exercícios, não se drogar, beber menos, usar camisinha e comer corretamente, ele se transformou em um fenômeno, o doutor sabe-tudo, capaz de mudar, com carisma e argumentos claros, os hábitos da população. Evidente que existem outras superestrelas e unanimidades dos consultórios e salas de cirurgia, algumas de fama mundial, caso de Ivo Pitanguy. Dificilmente, no entanto, alguém pararia o renomado cirurgião plástico na rua para pedir conselhos sobre como deixar de fumar ou para solicitar a indicação de um remédio para pressão alta. Essa empatia é fruto, sobretudo, de seu jeito simples de traduzir os complicados termos científicos. "Com Drauzio, as pessoas passaram a acreditar de novo na figura do médico humanista, do profissional de antigamente, preocupado em curar e salvar o outro", diz o editor Luiz Schwarcz, dono da Companhia das Letras.

Seu mais recente sucesso foi o quadro Fôlego, exibido entre junho e agosto no Fantástico, da Rede Globo. Durante dois meses, ele acompanhou um grupo de voluntários que decidiu parar de fumar, mostrando a luta de cada um para largar o vício. As entrevistas eram intercaladas com macetes para driblar as recaídas, alguns tão simples que convenceram muita gente a aderir à campanha. "Quando der aquela vontade de um cigarrinho, tome um copo de água", dizia após mostrar um pulmão enegrecido pela ação da nicotina. "Ele me fez ver que eu podia vencer essa batalha", conta a empresária Monica Mallet, ex-fumante desde 27 de junho. "Seu estilo de falar transmite credibilidade, é estimulante." Para não fraquejar, Monica seguiu suas recomendações: passou a comer melhor e a se exercitar. Agora nada e caminha quatro vezes por semana em Alphaville, onde mora, e diz que nunca se sentiu tão bem-disposta. Quando estava no ar, a atração recebia, semanalmente, cerca de 100 e-mails. O número saltou para 300 com a exibição do pulmão negro. "Tivemos uma imensa repercussão com o quadro", afirma Luiz Nascimento, diretor do Fantástico, que convidou o médico para apresentar em novembro uma nova série, sobre mulheres grávidas. "Ele é espontâneo e acredita no que diz. O público percebe e adora isso."

Apesar de só recentemente ter virado uma das personalidades mais conhecidas na guerra contra o cigarro, o doutor Drauzio possui uma longa – e triste – trajetória antitabagista. Dos 17 aos 36 anos, foi fumante e chegou a consumir um maço e meio por dia. De repente, decidiu parar. "Não tinha cabimento eu tratar de doentes com câncer e ficar fumando escondido", reconhece. Em 1991, aos 45 anos, seu irmão Fernando morreu de câncer no pulmão causado pelo cigarro. Dois anos mais novo, Fernando especializara-se igualmente em oncologia. "Ele era lindo, encantador. Tem coisas tão difíceis de a gente se conformar...", diz, emocionado. "Os dois eram grudados. Foi um choque terrível", lembra a professora Maria Helena Varella Bruna, primogênita da família.

Mario Rodrigues
No Minhocão, no domingo cedo: corridas de 20 quilômetros, três vezes por semana, para manter a forma


Foi Maria Helena quem ajudou a criar o pequeno Drauzio depois que a mãe, Lydia, morreu, quando ele tinha 4 anos, de miastenia grave, uma doença que ataca os músculos. Hoje, longe de se lamuriar, conta que teve uma infância feliz ao lado dos irmãos e do pai, no bairro do Brás. "O fato de ter ficado órfão cedo me deu liberdade para brincar, sem horários rígidos", afirma. "Eu sofri, claro, mas sempre tento ver o lado bom de tudo." As memórias de infância foram registradas no livro Nas Ruas do Brás, lançado em 2000. No texto, dá para perceber que o amor pela medicina começou a surgir após a doença da mãe. "Desde muito garotinho, ele falava que queria ser médico", recorda Maria Helena.

Aos 18 anos, época em que sua calvície já era proeminente, foi o segundo colocado no vestibular da Faculdade de Medicina da USP. Na universidade, conheceu João Carlos Di Genio (que dois anos antes entrara em primeiro lugar). Juntos, fundaram um cursinho pré-vestibular, o embrião do que viria a ser o maior complexo educacional do Brasil. O doutor Drauzio batizou a escola: Objetivo. "Sem pensar duas vezes, ele me falou: 'Vamos dar aulas objetivas, práticas, e esse nome é perfeito'.", diz Di Genio. Quando o Objetivo ainda funcionava em algumas saletas e começava a crescer, o jovem Drauzio, então aluno do 6º ano de medicina, decidiu sair da sociedade. Abandonou, segundo ele, um salário que "dava para comprar um Volkswagen por mês". O agora poderoso empresário Di Genio conta que o amigo o convenceu a continuar tocando os negócios. "Ao contrário de Drauzio, para tristeza de meu pai, nunca tive essa mesma paixão por ser médico", explica.

A sociedade foi desfeita, mas a amizade perdurou. O doutor Drauzio deu aula no Objetivo durante vinte anos e a Unip, universidade de Di Genio, patrocina vários de seus projetos, entre os quais uma expedição de cientistas que periodicamente vai à Amazônia pesquisar plantas para tratamento de câncer. Todos os meses, ele e uma equipe passam alguns dias na floresta colhendo amostras que depois são analisadas em um laboratório em São Paulo. A parceria com Di Genio rendeu-lhe o primeiro contato com a televisão. Há cinco anos, ele comanda na TV Unip um programa de entrevistas com médicos e especialistas.

O grande mistério para quem o conhece é entender como arranja tempo para a, sans-serif" size="2"> O grande mistério para quem o conhece é entender como arranja tempo para fazer tanta coisa. Grava programas de TV, escreve artigos, vai todos os meses à Amazônia, cuida de um laboratório em São Paulo e trata dos presos do Carandiru. Além disso, enfrenta uma jornada de doze horas, de terça a quinta-feira, atendendo pacientes com câncer em seu consultório no Itaim e visita diariamente os pacientes internados no Hospital Sírio Libanês. Três vezes por semana, no mínimo, corre cerca de 20 quilômetros no Ibirapuera ou no Minhocão para manter a forma (conserva os mesmos 70 quilos de trinta anos atrás, distribuídos em 1,85 metro de altura). Para dar conta dessa agenda sem fim, acorda com as galinhas, às 5h30, e dorme por volta de meia-noite.

Os fins de semana, ele tenta dedicar às duas filhas, nascidas de seu primeiro casamento com uma aluna da época do cursinho, e à atual mulher, a atriz Regina Braga. Os dois se conheceram quando o doutor Drauzio, recém-separado, se matriculou em um curso de teatro. "Era ótimo aluno, levava jeito para o palco", entrega Regina. "Seu estilo engraçado e inteligente me conquistou. Nunca mais nos largamos." A união dura vinte anos. Aos sábados, o casal vai ao teatro. Raramente, porém, sai de seu apartamento, em Higienópolis, para ir a festas ou jantares – com exceção das escapadelas até o restaurante Jardim de Napoli para comer um polpettone. Nos curtíssimos períodos de folga, o médico aproveita para escrever seu próximo livro, no qual contará casos verídicos de pessoas que tiveram sua vida virada de cabeça para baixo ao receber a notícia de uma doença grave. "Cuidando de pacientes de câncer aprendi a dar valor à vida e aproveitá-la enquanto eu posso", diz ele. "Não há nada mais deprimente que olhar para trás e ver uma lista de sonhos e projetos nunca realizados."

 

Ele mudou minha vida

Mario Rodrigues
O engenheiro Tácio Cunha fumava desde os 17 anos. Ao ouvir o médico no Fantástico, decidiu parar. "Ele me mostrou que só eu seria capaz de mudar minha rotina"

 

Julio Vilela
Mario Rodrigues
Há dois meses, a empresária Monica Mallet se considera uma nova pessoa. Largou o cigarro e passou a nadar e a correr. "As dicas do doutor Drauzio eram tão simples que resolvi segui-las" Quando viu um pulmão preto na TV, o publicitário Paulo Ildefonso disse: "Chega!" Abandonou imediatamente os três maços diários. Engordou 12 quilos, mas já comprou uma esteira

 

Álbum de recordações


Fotos álbum de família
iília
Drauzio (à esq.), com os irmãos Maria, Fernando e Aurélia (no colo), em 1954: órfão de mãe aos 4 anos De terninho, durante sua primeira comunhão, aos 10 anos: único contato com a religião católica



Arquivo Objetivo
Em 1978, já calvo, com os fundadores do Objetivo e o amigo Di Genio: vinte anos como professor de cursinho



Álbum de família
Ao lado da mulher, a atriz Regina Braga, em outubro de 2001: união iniciada em aulas de teatro já dura duas décadas

 

As dicas do doutor

Conselhos que Drauzio Varella dá no consultório e em seus programas para uma vida mais saudável

Ilustrações Atílio


O sedentarismo aumenta o risco de obesidade, hipertensão, diabetes, ataque cardíaco e derrame cerebral. Se você não tem mesmo tempo de praticar algum esporte, ande pela casa, suba escadas, dê uma volta no quarteirão. Deixe de ser preguiçoso e mexa-se.

As vitaminas e os compostos antioxidantes das frutas, legumes e verduras são essenciais para o organismo e protegem contra vários tipos de câncer. Quanto mais colorido for o prato, melhor a dieta.

Tem gente que não resiste a uma feijoada. Tudo bem. Mas precisa fazer uma montanha no prato e ainda repetir três vezes? Gordura é difícil de digerir. Tenha dó de seu aparelho digestivo. Um prato já está muito bom.

Enquanto você não cria coragem para largar o cigarro, fume menos. A falta de nicotina no cérebro provoca ansiedade e agitação. Quando você adia o próximo cigarro, aprende a enfrentar a abstinência. Assim fica mais fácil abandonar o vício no dia em que a coragem aparecer.

Quem tem mais de 30 anos precisa medir a pressão a cada seis meses. Muitas vezes, a pressão pode estar elevada e a pessoa nem percebe. A hipertensão ataca em silêncio.

"Maconha não faz mal, não vicia." Só quem é muito ingênuo ainda acredita nisso. Maconha provoca dependência química, sim. E, com o passar do tempo, o fumante precisa de quantidades cada vez maiores da droga.

Está cheio de homem por aí que bebe um engradado de cerveja, um garrafão de pinga, 1 litro de uísque e se vangloria de que não fica bêbado. Não se orgulhe disso. Quanto mais resistente você for à ação do álcool, maior sua probabilidade de virar alcoólatra.

Você parece um camelo atravessando o deserto? Passa o dia inteiro no trabalho e não põe uma gota de água na boca? Lembre-se de que o corpo humano precisa de água para eliminar as substâncias que não interessam mais ao organismo.

 

         
     
 
 
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