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PERFIL
O
médico das multidões
Com
programas no rádio e na TV
sobre
como levar uma vida saudável, Drauzio
Varella é um fenômeno capaz de mudar
os hábitos das pessoas
Erika
Sallum
Mario Rodrigues
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| Rumo
à Estação Carandiru: às segundas-feiras, o doutor Drauzio deixa
seu Ford Fiesta na garagem e vai de metrô à Detenção |
Domingo,
7h30 da manhã. O senhor de pernas finas, alto e magro corre
com agilidade pelo Minhocão. Durante quase duas horas, atravessa
o Elevado diversas vezes, de ponta a ponta, sem parar. Só
diminui a velocidade para acenar, bem-humorado, cada vez que escuta
"E aí, doutor? Tudo bem?". No dia seguinte, de camisa e calça
social, entra apressado na Estação Trianon-Masp do
metrô rumo ao Carandiru. Mesmo discreto, não consegue
evitar: chama a atenção assim que embarca no trem.
"Doutor, já estou há dois meses sem fumar", diz um
passageiro. "Eu agora ando diariamente", conta outro. Ouve os relatos
com atenção e, antes de se despedir, repete: "Parabéns.
Resista ao cigarro e pratique exercícios. Não fraqueje!".
Seja tomando um cafezinho numa padaria de Higienópolis, seja
caminhando pela Avenida Paulista, o cancerologista Antônio
Drauzio Varella, de 59 anos, é reconhecido por onde quer
que passe. Virou uma celebridade da medicina. Com programas na televisão
e no rádio, colunas na imprensa e a publicação
de livros, ele é hoje o médico mais popular do país.
Não
que o doutor Drauzio, como sempre é tratado, seja um desses
fenômenos-relâmpago, que surgem da noite para o dia.
Seu nome é conhecido desde os tempos em que começou
a tratar dos primeiros casos de Aids no país, em meados da
década de 80. Conquistou mais notoriedade a partir de 1999,
ao lançar o best-seller Estação Carandiru,
sobre sua experiência com atendimento de presos na maior cadeia
do Brasil. Até agora foram vendidos 297.000
exemplares do livro, um dos grandes êxitos editoriais da Companhia
das Letras. Desde a publicação, a obra esteve por
130 semanas na lista dos mais vendidos de VEJA e, no próximo
ano, chega ao cinema pelas mãos do diretor Hector Babenco.
Heudes Regis
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| No
novo cenário de seu programa na TV Unip: misto de aula e talk-show
científico |
Mas
a popularidade do oncologista explodiu mesmo com suas aparições
no rádio e, principalmente, na TV incentivando as pessoas
a levar uma vida mais saudável. Ao estimular os ouvintes
e telespectadores a fazer exercícios, não se drogar,
beber menos, usar camisinha e comer corretamente, ele se transformou
em um fenômeno, o doutor sabe-tudo, capaz de mudar, com carisma
e argumentos claros, os hábitos da população.
Evidente que existem outras superestrelas e unanimidades dos consultórios
e salas de cirurgia, algumas de fama mundial, caso de Ivo Pitanguy.
Dificilmente, no entanto, alguém pararia o renomado cirurgião
plástico na rua para pedir conselhos sobre como deixar de
fumar ou para solicitar a indicação de um remédio
para pressão alta. Essa empatia é fruto, sobretudo,
de seu jeito simples de traduzir os complicados termos científicos.
"Com Drauzio, as pessoas passaram a acreditar de novo na figura
do médico humanista, do profissional de antigamente, preocupado
em curar e salvar o outro", diz o editor Luiz Schwarcz, dono da
Companhia das Letras.
Seu
mais recente sucesso foi o quadro Fôlego, exibido entre junho
e agosto no Fantástico, da Rede Globo. Durante dois
meses, ele acompanhou um grupo de voluntários que decidiu
parar de fumar, mostrando a luta de cada um para largar o vício.
As entrevistas eram intercaladas com macetes para driblar as recaídas,
alguns tão simples que convenceram muita gente a aderir à
campanha. "Quando der aquela vontade de um cigarrinho, tome um copo
de água", dizia após mostrar um pulmão enegrecido
pela ação da nicotina. "Ele me fez ver que eu podia
vencer essa batalha", conta a empresária Monica Mallet, ex-fumante
desde 27 de junho. "Seu estilo de falar transmite credibilidade,
é estimulante." Para não fraquejar, Monica seguiu
suas recomendações: passou a comer melhor e a se exercitar.
Agora nada e caminha quatro vezes por semana em Alphaville, onde
mora, e diz que nunca se sentiu tão bem-disposta. Quando
estava no ar, a atração recebia, semanalmente, cerca
de 100 e-mails. O número saltou para 300 com a exibição
do pulmão negro. "Tivemos uma imensa repercussão com
o quadro", afirma Luiz Nascimento, diretor do Fantástico,
que convidou o médico para apresentar em novembro uma nova
série, sobre mulheres grávidas. "Ele é espontâneo
e acredita no que diz. O público percebe e adora isso."
Apesar
de só recentemente ter virado uma das personalidades mais
conhecidas na guerra contra o cigarro, o doutor Drauzio possui uma
longa e triste trajetória antitabagista. Dos
17 aos 36 anos, foi fumante e chegou a consumir um maço e
meio por dia. De repente, decidiu parar. "Não tinha cabimento
eu tratar de doentes com câncer e ficar fumando escondido",
reconhece. Em 1991, aos 45 anos, seu irmão Fernando morreu
de câncer no pulmão causado pelo cigarro. Dois anos
mais novo, Fernando especializara-se igualmente em oncologia. "Ele
era lindo, encantador. Tem coisas tão difíceis de
a gente se conformar...", diz, emocionado. "Os dois eram grudados.
Foi um choque terrível", lembra a professora Maria Helena
Varella Bruna, primogênita da família.
Mario Rodrigues
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| No
Minhocão, no domingo cedo: corridas de 20 quilômetros, três
vezes por semana, para manter a forma |
Foi Maria Helena quem ajudou a criar o pequeno Drauzio depois que
a mãe, Lydia, morreu, quando ele tinha 4 anos, de miastenia
grave, uma doença que ataca os músculos. Hoje, longe
de se lamuriar, conta que teve uma infância feliz ao lado
dos irmãos e do pai, no bairro do Brás. "O fato de
ter ficado órfão cedo me deu liberdade para brincar,
sem horários rígidos", afirma. "Eu sofri, claro, mas
sempre tento ver o lado bom de tudo." As memórias de infância
foram registradas no livro Nas Ruas do Brás, lançado
em 2000. No texto, dá para perceber que o amor pela medicina
começou a surgir após a doença da mãe.
"Desde muito garotinho, ele falava que queria ser médico",
recorda Maria Helena.
Aos
18 anos, época em que sua calvície já era proeminente,
foi o segundo colocado no vestibular da Faculdade de Medicina da
USP. Na universidade, conheceu João Carlos Di Genio (que
dois anos antes entrara em primeiro lugar). Juntos, fundaram um
cursinho pré-vestibular, o embrião do que viria a
ser o maior complexo educacional do Brasil. O doutor Drauzio batizou
a escola: Objetivo. "Sem pensar duas vezes, ele me falou: 'Vamos
dar aulas objetivas, práticas, e esse nome é perfeito'.",
diz Di Genio. Quando o Objetivo ainda funcionava em algumas saletas
e começava a crescer, o jovem Drauzio, então aluno
do 6º ano de medicina, decidiu sair da sociedade. Abandonou,
segundo ele, um salário que "dava para comprar um Volkswagen
por mês". O agora poderoso empresário Di Genio conta
que o amigo o convenceu a continuar tocando os negócios.
"Ao contrário de Drauzio, para tristeza de meu pai, nunca
tive essa mesma paixão por ser médico", explica.
A
sociedade foi desfeita, mas a amizade perdurou. O doutor Drauzio
deu aula no Objetivo durante vinte anos e a Unip, universidade de
Di Genio, patrocina vários de seus projetos, entre os quais
uma expedição de cientistas que periodicamente vai
à Amazônia pesquisar plantas para tratamento de câncer.
Todos os meses, ele e uma equipe passam alguns dias na floresta
colhendo amostras que depois são analisadas em um laboratório
em São Paulo. A parceria com Di Genio rendeu-lhe o primeiro
contato com a televisão. Há cinco anos, ele comanda
na TV Unip um programa de entrevistas com médicos e especialistas.
O
grande mistério para quem o conhece é entender como
arranja tempo para a, sans-serif" size="2"> O
grande mistério para quem o conhece é entender como
arranja tempo para fazer tanta coisa. Grava programas de TV, escreve
artigos, vai todos os meses à Amazônia, cuida de um
laboratório em São Paulo e trata dos presos do Carandiru.
Além disso, enfrenta uma jornada de doze horas, de terça
a quinta-feira, atendendo pacientes com câncer em seu consultório
no Itaim e visita diariamente os pacientes internados no Hospital
Sírio Libanês. Três vezes por semana, no mínimo,
corre cerca de 20 quilômetros no Ibirapuera ou no Minhocão
para manter a forma (conserva os mesmos 70 quilos de trinta anos
atrás, distribuídos em 1,85 metro de altura). Para
dar conta dessa agenda sem fim, acorda com as galinhas, às
5h30, e dorme por volta de meia-noite.
Os
fins de semana, ele tenta dedicar às duas filhas, nascidas
de seu primeiro casamento com uma aluna da época do cursinho,
e à atual mulher, a atriz Regina Braga. Os dois se conheceram
quando o doutor Drauzio, recém-separado, se matriculou em
um curso de teatro. "Era ótimo aluno, levava jeito para o
palco", entrega Regina. "Seu estilo engraçado e inteligente
me conquistou. Nunca mais nos largamos." A união dura vinte
anos. Aos sábados, o casal vai ao teatro. Raramente, porém,
sai de seu apartamento, em Higienópolis, para ir a festas
ou jantares com exceção das escapadelas até
o restaurante Jardim de Napoli para comer um polpettone. Nos curtíssimos
períodos de folga, o médico aproveita para escrever
seu próximo livro, no qual contará casos verídicos
de pessoas que tiveram sua vida virada de cabeça para baixo
ao receber a notícia de uma doença grave. "Cuidando
de pacientes de câncer aprendi a dar valor à vida e
aproveitá-la enquanto eu posso", diz ele. "Não há
nada mais deprimente que olhar para trás e ver uma lista
de sonhos e projetos nunca realizados."
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Ele
mudou minha vida
Mario Rodrigues
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O
engenheiro Tácio Cunha fumava desde os 17 anos. Ao ouvir
o médico no Fantástico, decidiu parar. "Ele me
mostrou que só eu seria capaz de mudar minha rotina" |
Julio Vilela
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Mario Rodrigues
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| Há
dois meses, a empresária Monica Mallet se considera uma
nova pessoa. Largou o cigarro e passou a nadar e a correr.
"As dicas do doutor Drauzio eram tão simples que resolvi
segui-las" |
Quando
viu um pulmão preto na TV, o publicitário Paulo Ildefonso
disse: "Chega!" Abandonou imediatamente os três maços
diários. Engordou 12 quilos, mas já comprou uma esteira
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As
dicas do doutor
Conselhos
que Drauzio Varella dá no consultório e em seus
programas para uma vida mais saudável
Ilustrações Atílio
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O
sedentarismo aumenta o risco de obesidade, hipertensão,
diabetes, ataque cardíaco e derrame cerebral. Se você
não tem mesmo tempo de praticar algum esporte, ande
pela casa, suba escadas, dê uma volta no quarteirão.
Deixe de ser preguiçoso e mexa-se.
As
vitaminas e os compostos antioxidantes das frutas, legumes
e verduras são essenciais para o organismo e protegem
contra vários tipos de câncer. Quanto mais colorido
for o prato, melhor a dieta.
Tem
gente que não resiste a uma feijoada. Tudo bem. Mas
precisa fazer uma montanha no prato e ainda repetir três
vezes? Gordura é difícil de digerir. Tenha dó
de seu aparelho digestivo. Um prato já está
muito bom.
Enquanto
você não cria coragem para largar o cigarro,
fume menos. A falta de nicotina no cérebro provoca
ansiedade e agitação. Quando você adia
o próximo cigarro, aprende a enfrentar a abstinência.
Assim fica mais fácil abandonar o vício no dia
em que a coragem aparecer.
Quem
tem mais de 30 anos precisa medir a pressão a cada
seis meses. Muitas vezes, a pressão pode estar elevada
e a pessoa nem percebe. A hipertensão ataca em silêncio.
"Maconha
não faz mal, não vicia." Só quem é
muito ingênuo ainda acredita nisso. Maconha provoca
dependência química, sim. E, com o passar do
tempo, o fumante precisa de quantidades cada vez maiores da
droga.
Está
cheio de homem por aí que bebe um engradado de cerveja,
um garrafão de pinga, 1 litro de uísque e se
vangloria de que não fica bêbado. Não
se orgulhe disso. Quanto mais resistente você for à
ação do álcool, maior sua probabilidade
de virar alcoólatra.
Você
parece um camelo atravessando o deserto? Passa o dia inteiro
no trabalho e não põe uma gota de água
na boca? Lembre-se de que o corpo humano precisa de água
para eliminar as substâncias que não interessam
mais ao organismo.
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