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11 de setembro de 2002
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CRÔNICA
   

CRÔNICA

O trauma dos carecas

Os homens que fazem qualquer
coisa para disfarçar a calvície

Walcyr Carrasco


Nunca entendi o horror que os carecas têm da própria calva. Talvez porque meu cabelo cresça como capim. Já constatei o sofrimento de quem, devido aos lances da genética, ostenta a cabeça reluzente. Conheci um senhor bem posto na vida, que só andava de terno e gravata. Finíssimo! Mas também carequíssimo. Para disfarçar, penteava o topete de um extremo da cabeça ao outro. Era muito estranho. A risca do cabelo ficava na altura da orelha. Para mantê-los no lugar, mergulhava os fios em um gel gosmento. Se batia um ventinho, o cabelo todo se erguia, que nem um tapete! Ao conversar com ele, meus olhos se fixavam na careca. Um brilho de fúria surgia em suas pupilas. Eu tentava disfarçar. Dali a pouco, estava de olho na careca. Que constrangimento!

E quando o careca usa peruca? Nada é mais óbvio que peruca com franja. A franja costuma ter uma aparência juvenil. Depois de uma certa idade, ninguém usa franja. Só os carecas. Ou seja, a peruca não serve como disfarce. Equivale a botar um cartaz anunciando: "Debaixo deste cabelo falso tem aeroporto de mosquito!"

Às vezes, com o hábito, o dono nem presta muita atenção na própria peruca. Bota torta. E o tom do cabelo? O loiro é parecido com pelagem de cavalo. O castanho, rebrilhoso. Ainda se salva o preto, que disfarça mais. Existem técnicas modernas. Uma delas é uma espécie de tela, colada sobre a calva. Mistura-se com o cabelo. Parece normal até que os cachinhos comecem a se espalhar. O cabelo cresce que nem samambaia. O topo continua curto!

Mas que ninguém cometa a gafe que eu já cometi, com minha delicadeza peculiar.

– Ah, você usa peruca?

Terá um inimigo pelo resto da vida!

Há algum tempo encontrei um amigo, em um bar. Parecia ter se tornado um... ex-careca! O topo da cabeça absolutamente preto. Sem franja. Peruca não era. Já estava prestes a perguntar qual o tratamento miraculoso. Quando descobri: era uma espécie de tinta! Tinha pintado a calva de preto! De longe, parecia cabelo. De perto, era horroroso. Agora, o pior é a situação de constrangimento em que esses carecas botam um sujeito que tenta ser bem-educado. Eu não podia agir como se tivesse percebido! Passei a noite inteira fingindo que ter o topo da cabeça asfaltado era absolutamente normal!

Outro amigo, Carlos, um arquiteto, era um sujeito charmoso. Fazia o maior sucesso com as mulheres. Estranhei quando começou a economizar para comprar frascos e mais frascos de uma substância americana, recém-lançada. Tinha uma careca lustrosa, mas nunca imaginei que fosse problema. Até que fui jantar em sua casa. Mostrou, orgulhoso:

– Veja, já cresceram três fios!

Bem, ele tinha dois. Com os três dava cinco. Todos os cinco espetados no alto da cabeça, que nem as palmeiras da Avenida Faria Lima! Brinquei:

– Daqui a pouco você vai poder fazer maria-chiquinha!

Quem disse que careca tem senso de humor? Emburrou, e emburrado continua!

Outro amigo confessou:

– Usei peruca anos e anos. Até o dia em que fui ao mar. As ondas levaram a peruca! Foi um deus-nos-acuda para tentar salvar, enquanto todo mundo ria. Que situação!

Hoje, ele passeia a carequice para cima e para baixo. Feliz. Mas reconheço. Ser careca deve causar um sentimento de horror que ninguém mais é capaz de compreender. Ainda bem que a moda mudou. Há quem raspe a cabeça por gosto! Muitos carecas raspam tudo e fingem que é para ser fashion. Grande parte, porém, continua atrás da peruca ideal, aquela, aquela tão perfeita... que até pareça de verdade!

         
     
 
 
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