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CIDADE
O
hotel dos sonhos
Com
tijolos ingleses na fachada, tapetes
iranianos nos quartos, poltronas francesas
de couro nos bares e requinte em cada
detalhe, a maior jóia da grife Fasano abre
as portas como o lugar mais chique
de São Paulo
Maria
Rita Alonso
produção: Kiki Romero
fotos: Carol do Valle
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| Rogério
Fasano no lobby de seu hotel: "Eu não podia fazer
concessões. Tudo tinha de ser da melhor qualidade"
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Não
é à toa que as folhas das árvores de magnólia,
plantadas em canteiros da pequena Rua Vitório Fasano, receberam
a mesma poda. Cada uma foi cortada ao meio e ganhou formato de coração.
Fincadas na frente do Hotel Fasano, no trecho mais rico dos Jardins,
entre as ruas Haddock Lobo e Bela Cintra, as árvores são
o primeiro indício da sucessão de cuidados e detalhes
que virão pela frente. Para começar, todos os tijolinhos
que revestem a fachada são ingleses. Com desenho que lembra
os táxis londrinos, uma das seis minilimusines PT Cruiser,
da Chrysler, permanece estacionada na calçada de mosaico
português bege. Lustradíssimas, estão prontas
para promover o vaivém dos hóspedes aguardados a partir
desta segunda-feira (8). Basta passar a grande porta giratória
da entrada e... mais uma surpresa. Nada de recepção
ou carrinhos de mala. No lugar do balcão de registro, instalado
mais atrás, meio escondido, o visitante depara com o luminoso
Bar do Lobby. A decoração é inspirada nas linhas
retas do fim dos anos 30. Algumas paredes são forradas com
placas de imbuia escura, outras com linho cor de gelo. O chão
é de mármore travertino, assim como as duas lareiras.
Sobre elas, há vasos de Murano e preciosidades em forma de
livros de turismo e guias de viagem. Uma folheada num deles e, ops,
mais um susto: o preço marcado a lápis na contracapa
é de 5.335 euros.
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| O
sommelier Beato e o maître Paiva, no novo restaurante Fasano:
uma brigada de garçons bilíngües |
"Para
construir um hotel à altura da grife Fasano, eu não
podia fazer concessão: tinha de ser tudo da melhor qualidade",
diz o restaurateur Rogério Fasano. Filho, neto e bisneto
de italianos que marcaram época em São Paulo com seus
restaurantes e confeitarias, Gero (como é chamado pelos amigos)
acaba de realizar um velho sonho da família ao entrar para
o ramo hoteleiro. "Sempre fomos obstinados em servir os clientes
maravilhosamente bem", afirma Fabrizio Fasano, pai de Rogério
e presidente do hotel. "Este é nosso presente para os 450
anos de São Paulo." Para selecionar e treinar uma equipe
de 180 profissionais, foram trazidos da Europa dois especialistas
em hotelaria. Do Four Seasons de Milão veio o diretor-geral
Marco Vazzoler e do Plaza Athénée, de Paris, o diretor
de vendas e marketing, Hans Wegner.
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Menus
gastronômicos
No restaurante, a culinária clássica
do chef Salvatore Loi passou por reformulações.
Ao lado de velhos sucessos do cardápio, são agora
oferecidos seis menus gastronômicos. Cada um inclui cinco
pratos e uma sobremesa. Os menus têm como tema regiões
ou cidades da Itália (Piemonte, Veneza, Sardenha, Toscana
e Milão), além de um de pratos do mar. Custam
em torno de 200 reais por pessoa, sem bebidas nem serviço.
Para prepará-los, o número de cozinheiros sob
o comando de Loi passou de quinze para 22 |
Cada
hóspede do hotel, que tem 23 andares e 64 apartamentos, metade
para não-fumantes, conta com os serviços de três
funcionários. Nos cinco-estrelas da cidade, a média
é de um para um. Pela diária mais simples, na chamada
tarifa-balcão, pagam-se 944 reais. A mais cara é de
2.655 reais. Em seus concorrentes, como o Unique,
na Avenida Brigadeiro Luiz Antônio, e o Emiliano, na Rua Oscar
Freire, os quartos mais baratos, se é que se pode dizer assim,
custam respectivamente 825 e 855 reais. "Hotelaria não é
a mesma coisa que restaurante", acredita Carlos Alberto Filgueiras,
dono do Emiliano. "Meu hotel está consolidado, e não
tenho medo da concorrência. Para agradar aos hóspedes
vip, empresto até meu avião de graça."
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Tesouros
esvaziados
Enormes prateleiras de mármore negro francês
exibem raríssimas garrafas de vinho, como os lendários
Romanée-Conti e Château Petrus de grandes safras.
Mas já estão vazias. Foram consumidas no antigo
Fasano da Rua Haddock Lobo. Cheias, valiam até 15 000
reais. São agora objeto de decoração, ao
lado de livros de cozinha e bebida. Na adega, com capacidade
para 4 000 tintos e brancos, há 400 rótulos. Muitos
deles são preciosidades do Piemonte engarrafadas entre
as décadas de 40 e 70 |
O
Fasano não é apenas um hotel. Mais do que isso, deve
se transformar em uma referência na cidade em matéria
de requinte, bom gosto e excelência nos serviços. Tem
tudo para ser, igualmente, o ponto de encontro de poderosos, ricos
e celebridades em São Paulo. Passam a funcionar lá
a partir de agora o restaurante Fasano, templo da alta gastronomia,
e o Baretto, o mais chique dos bares paulistanos. Ambos haviam sido
fechados neste ano em seus antigos endereços a Rua
Haddock Lobo e a Rua Amauri e ressurgem no hotel com novo
esplendor. O restaurante ganhou ar mais contemporâneo, mas
não menos classudo. Depois de um curto corredor, depara-se
com o bar de espera numa saleta de teto de palha trançada,
pé-direito baixinho e balcão do mesmo mármore
negro francês que reveste o chão. É só
uma prévia. No salão principal, com 9 metros de altura,
uma enorme clarabóia ilumina as mesas de mogno laqueado.
As cadeiras, que eram pretas, foram forradas de couro cru
o mesmo dos cardápios produzidos pelo designer Roberto Cipolla.
Os 130 lugares da antiga casa passaram para oitenta. O salão
privado, no qual os comensais ficarão protegidos por uma
discreta cortina de linho, foi montado num mezanino de frente para
o salão principal. Por enquanto, o restaurante funcionará
somente no jantar. Até o fim do mês, deve abrir também
no almoço.
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Antiguidades
de prata
Para decorar o hotel e o restaurante, Rogério
Fasano e o arquiteto Isay Weinfeld fizeram oito viagens à
Itália, França, Inglaterra, Estados Unidos e Argentina.
Em uma feira de antiguidades de Paris, Rogério arrematou
um porta-bebida de prata, usado para manter garrafas geladas
(à esq.), e um presse à canard. Esta peça,
também de prata (à dir.), é utilizada
para prensar o pato e extrair os sucos de sua carne. Exibida
no salão, ela poderá ser usada eventualmente na
cozinha |
O cardápio
mudou. Ao lado dos clássicos risotos, massas frescas e vitelas,
foram criados seis menus gastronômicos, cada um com cinco
pratos servidos em seqüência, mais a sobremesa, a um
preço em torno de 200 reais por pessoa, sem bebida, couvert
(20 reais) nem serviço (12%). Comandados pelo maître-gerente
Almir Paiva, a brigada terá 24 garçons, em sua maioria
jovens e bilíngües. A adega, com 400 rótulos
de vinho contra 250 na antiga casa , continua sob a
responsabilidade do sommelier Manoel Beato. Para oferecer refeições
mais simples e triviais, foi criado, à beira do terraço
do 1º andar, o restaurante Nonno Ruggero. Ali será servido
o café-da-manhã, além de almoço e jantar,
com bufê de antepastos, a 60 reais por pessoa. O Baretto volta
numa versão ligeiramente reduzida e mais cool. Seu chão
de peroba rústica e paredes forradas de veludo cotelê
garantem a boa acústica aos shows de música ao vivo
que serão apresentados diariamente. Já está
marcada para o próximo dia 16 uma apresentação
do pianista americano Steve Ross, que ganhou fama como estrela do
Hotel Algonquin de Nova York. Aberto de terça a domingo,
a partir das 8 da noite, o bar promete seguir pela madrugada embalado
por trios de piano, baixo e bateria. Enquanto o barman Celio Alves
de Freitas continua preparando seu impecável martíni
seco, Hélio Luiz de Andrade, que trata a maioria dos freqüentadores
pelo nome, segue como gerente da casa.
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| Hélio
de Andrade, gerente do Baretto: decoração cool,
shows de jazz e um martíni seco impecável |
A idéia
de erguer um hotel como esse nasceu de Rogério, há
oito anos. Ele convenceu o pai e os irmãos a comprar um terreno
vizinho ao antigo restaurante Fasano. "Depois de um tempo, nos endividamos
e quase quebramos", conta ele. "Ou dávamos um passo para
trás e vendíamos o terreno dos nossos sonhos ou teríamos
de arranjar um sócio investidor para arejar os negócios
da família." Vingou a última opção.
O empresário João Paulo Diniz comprou parte da holding
do grupo e tornou-se sócio de todas as casas de sucesso da
família: Fasano, Gero em São Paulo e no Rio de Janeiro,
Parigi, Forneria San Paolo, Gero Caffè, Caffé Armani
e Casa Fasano. Segundo os donos, foram investidos no hotel 50 milhões
de reais. João Paulo colocou, sozinho, 15 milhões
e conseguiu do BNDES um financiamento de mais 20 milhões
de reais. Os restantes 15 milhões vieram do grupo Fasano.
Apesar da grande oferta de quartos entre os cinco-estrelas da cidade
a taxa de ocupação do Grand Hyatt, por exemplo,
fica na média de 35% ao ano , os sócios confiam
no sucesso do empreendimento com base em um cálculo: eles
apostam que os bares e restaurantes irão garantir metade
de seu faturamento.
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No
comando dos serviços
Mais jovem restaurante do grupo, o Nonno Ruggero
deverá ser aberto ao público no fim do mês,
no 1º andar do hotel, sob o comando do gerente Vicci Domini
(à esq.). Ali serão servidos o café-da-manhã
e refeições no sistema de bufê, a 60 reais
por pessoa. Para cuidar dos serviços, o diretor-geral
Marco Vazzoler foi trazido do hotel Four Seasons de Milão
e o diretor de vendas, Hans Wegner, do Plaza Athénée,
de Paris (à dir.) |
"Desde
o início fui contagiado pelo entusiasmo com que Rogério
trabalha e comprei a idéia do hotel", diz João Paulo
Diniz, um dos herdeiros do grupo Pão de Açúcar.
"Meu pai é um empresário pragmático e não
se arriscaria tanto. Mas eu me permito agir um pouco mais emocionalmente
e seguir as minhas intuições", acrescenta, referindo-se
a Abilio Diniz. "São as loucuras do Rogério que dão
personalidade aos empreendimentos." Para garimpar cada móvel
e objeto, Rogério fez oito viagens ao exterior, acompanhado
pelo arquiteto e amigo Isay Weinfeld. "Ele teve uma participação
ativíssima e atuou como maestro do projeto", afirma Weinfeld.
"O resultado é que o hotel ficou tão classudo quanto
ele próprio." Não há propriamente luxo. Muito
menos algum traço de novo-riquismo. Ao lado da extrema qualidade
e do conforto para quem pode pagar por esse privilégio, o
charme do lugar está justamente nas combinações
adequadas de materiais e objetos. Foram espalhados por todo o hotel
cerca de setenta tapetes kilins vindos do Irã. No lobby de
entrada e no Baretto há sessenta poltronas de couro caramelo.
Os modelos foram comprados em antiquários de Paris e reproduzidos
por um marceneiro do interior da França.
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| Um
dos 64 apartamentos: vasos de Murano e lençóis
de algodão egípcio |
Nos
apartamentos, todos com cama king-size, os lençóis
são de algodão egípcio de 600 fios e os travesseiros
têm recheio de pluma de peito de ganso. Há uma banheira
na maioria deles. Weinfeld desenhou os armários, o mancebo,
os revisteiros, algumas poltronas, mesas-de-cabeceira e as grades
embutidas de ar-condicionado. O projeto do restaurante e o do Baretto
levam sua assinatura, enquanto o do prédio do hotel foi dividido
com seu colega Marcio Kogan. Durante oito anos, eles aperfeiçoaram
cada detalhe. "Desenhamos mais de quinze vezes a distribuição
das suítes", revela Kogan. Inicialmente, o hotel teria apenas
33 grandes apartamentos. "A cada estudo de mercado que era feito,
ficava mais claro que esse número de suítes não
seria comercialmente viável." Eles contam que aceitaram o
trabalho sem garantia de pagamento, já que os Fasano ainda
não dispunham de capital suficiente para o negócio.
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Os
arquitetos
Durante oito anos,
os arquitetos Marcio Kogan e Isay Weinfeld trabalharam no projeto.
Até a planta do Empire State foi examinada para a concepção
da fachada, com os últimos andares escalonados. "Desenhamos
mais de quinze vezes a distribuição das suítes",
revela Kogan. Weinfeld bolou armários, mancebo, mesas-de-cabeceira
e revisteiros |
Até
a planta do Empire State Building, de Nova York, foi examinada para
a concepção da fachada, com os últimos andares
escalonados. Neles, localizam-se a piscina, o spa e a sala de ginástica.
Como nos antigos edifícios nova-iorquinos, há no topo
um clássico relógio feito sob encomenda. Outra influência
foi o prédio do Banespa, no centro. O extremo cuidado com
os detalhes acabou envolvendo toda a antiga Rua Taiarana. Para embelezá-la,
o grupo bancou a instalação da fiação
subterrânea. Só essa obra, que limpou seu visual, custou
600.000 reais. No ano passado, ela foi rebatizada
de Vitório Fasano. Uma homenagem ao italiano que, 100 anos
atrás, iniciou em São Paulo o império gastronômico
que agora realiza seu sonho mais ousado.
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Um
brinco de rua
Em homenagem aos 100 anos dos negócios gastronômicos
da família, a Rua Taiarana foi rebatizada de Vitório
Fasano. Para embelezá-la, o grupo bancou a instalação
da fiação subterrânea, que custou 600 000
reais. No lugar dos fios e postes, duas magnólias foram
plantadas em frente ao hotel. Ao lado, ficam os seis carros
PT Cruiser, que lembram os táxis londrinos |
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Enquanto
isso, na Rua Haddock Lobo...
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| Andrea
Fasano: à frente da casa de eventos da família
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O
restaurante Fasano fez história no imponente casarão
da Rua Haddock Lobo, 1644, tanto pelo primor da cozinha quanto
por suas instalações majestosas. Foi inaugurado
em 1990, depois de um investimento de 4 milhões de
dólares. Com sua mudança para o hotel, por pouco
o grande salão de piso quadriculado de mármore,
colunas escuras de madeira e aço, mesas de mogno e
pé-direito de 12 metros em um dos ambientes não
foi passado para a frente. Na hora de fechar as portas, o
patriarca do clã, Fabrizio Fasano, bateu o pé.
"Percebi que o espaço poderia renascer como uma incrível
casa de eventos", conta ele, que fez valer sua vontade. Rebatizado
de Casa Fasano, o lugar passou a ser comandado por sua filha,
a banqueteira Andrea Fasano. "Acreditamos muito no mercado
de festas em São Paulo", diz Andrea, cujos eventos
custam entre 60 e 250 reais por pessoa, mais a locação
da casa (de 8 000 a 18 000 reais). No bufê, com sua
sócia Patrícia Filardi, Andrea repete a elegância
e a qualidade dos restaurantes da família. Massas,
risotos e carnes são apresentados em louças
finas, junto de talheres de prata e taças de cristal.
Sua empresa, que também providencia a decoração,
o som e a iluminação, continuará atendendo
a jantares e festas em residências ou outros salões.
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