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10 de setembro de 2003
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O hotel dos sonhos

Com tijolos ingleses na fachada, tapetes
iranianos nos quartos, poltronas francesas
de couro nos bares e requinte em cada
detalhe, a maior jóia da grife Fasano abre
as portas como o lugar mais chique
de São Paulo

Maria Rita Alonso
produção: Kiki Romero
fotos: Carol do Valle


Rogério Fasano no lobby de seu hotel: "Eu não podia fazer concessões. Tudo tinha de ser da melhor qualidade"

Não é à toa que as folhas das árvores de magnólia, plantadas em canteiros da pequena Rua Vitório Fasano, receberam a mesma poda. Cada uma foi cortada ao meio e ganhou formato de coração. Fincadas na frente do Hotel Fasano, no trecho mais rico dos Jardins, entre as ruas Haddock Lobo e Bela Cintra, as árvores são o primeiro indício da sucessão de cuidados e detalhes que virão pela frente. Para começar, todos os tijolinhos que revestem a fachada são ingleses. Com desenho que lembra os táxis londrinos, uma das seis minilimusines PT Cruiser, da Chrysler, permanece estacionada na calçada de mosaico português bege. Lustradíssimas, estão prontas para promover o vaivém dos hóspedes aguardados a partir desta segunda-feira (8). Basta passar a grande porta giratória da entrada e... mais uma surpresa. Nada de recepção ou carrinhos de mala. No lugar do balcão de registro, instalado mais atrás, meio escondido, o visitante depara com o luminoso Bar do Lobby. A decoração é inspirada nas linhas retas do fim dos anos 30. Algumas paredes são forradas com placas de imbuia escura, outras com linho cor de gelo. O chão é de mármore travertino, assim como as duas lareiras. Sobre elas, há vasos de Murano e preciosidades em forma de livros de turismo e guias de viagem. Uma folheada num deles e, ops, mais um susto: o preço marcado a lápis na contracapa é de 5.335 euros.


O sommelier Beato e o maître Paiva, no novo restaurante Fasano: uma brigada de garçons bilíngües

"Para construir um hotel à altura da grife Fasano, eu não podia fazer concessão: tinha de ser tudo da melhor qualidade", diz o restaurateur Rogério Fasano. Filho, neto e bisneto de italianos que marcaram época em São Paulo com seus restaurantes e confeitarias, Gero (como é chamado pelos amigos) acaba de realizar um velho sonho da família ao entrar para o ramo hoteleiro. "Sempre fomos obstinados em servir os clientes maravilhosamente bem", afirma Fabrizio Fasano, pai de Rogério e presidente do hotel. "Este é nosso presente para os 450 anos de São Paulo." Para selecionar e treinar uma equipe de 180 profissionais, foram trazidos da Europa dois especialistas em hotelaria. Do Four Seasons de Milão veio o diretor-geral Marco Vazzoler e do Plaza Athénée, de Paris, o diretor de vendas e marketing, Hans Wegner.



Menus gastronômicos
No restaurante, a culinária clássica do chef Salvatore Loi passou por reformulações. Ao lado de velhos sucessos do cardápio, são agora oferecidos seis menus gastronômicos. Cada um inclui cinco pratos e uma sobremesa. Os menus têm como tema regiões ou cidades da Itália (Piemonte, Veneza, Sardenha, Toscana e Milão), além de um de pratos do mar. Custam em torno de 200 reais por pessoa, sem bebidas nem serviço. Para prepará-los, o número de cozinheiros sob o comando de Loi passou de quinze para 22

Cada hóspede do hotel, que tem 23 andares e 64 apartamentos, metade para não-fumantes, conta com os serviços de três funcionários. Nos cinco-estrelas da cidade, a média é de um para um. Pela diária mais simples, na chamada tarifa-balcão, pagam-se 944 reais. A mais cara é de 2.655 reais. Em seus concorrentes, como o Unique, na Avenida Brigadeiro Luiz Antônio, e o Emiliano, na Rua Oscar Freire, os quartos mais baratos, se é que se pode dizer assim, custam respectivamente 825 e 855 reais. "Hotelaria não é a mesma coisa que restaurante", acredita Carlos Alberto Filgueiras, dono do Emiliano. "Meu hotel está consolidado, e não tenho medo da concorrência. Para agradar aos hóspedes vip, empresto até meu avião de graça."


Tesouros esvaziados
Enormes prateleiras de mármore negro francês exibem raríssimas garrafas de vinho, como os lendários Romanée-Conti e Château Petrus de grandes safras. Mas já estão vazias. Foram consumidas no antigo Fasano da Rua Haddock Lobo. Cheias, valiam até 15 000 reais. São agora objeto de decoração, ao lado de livros de cozinha e bebida. Na adega, com capacidade para 4 000 tintos e brancos, há 400 rótulos. Muitos deles são preciosidades do Piemonte engarrafadas entre as décadas de 40 e 70

O Fasano não é apenas um hotel. Mais do que isso, deve se transformar em uma referência na cidade em matéria de requinte, bom gosto e excelência nos serviços. Tem tudo para ser, igualmente, o ponto de encontro de poderosos, ricos e celebridades em São Paulo. Passam a funcionar lá a partir de agora o restaurante Fasano, templo da alta gastronomia, e o Baretto, o mais chique dos bares paulistanos. Ambos haviam sido fechados neste ano em seus antigos endereços – a Rua Haddock Lobo e a Rua Amauri – e ressurgem no hotel com novo esplendor. O restaurante ganhou ar mais contemporâneo, mas não menos classudo. Depois de um curto corredor, depara-se com o bar de espera numa saleta de teto de palha trançada, pé-direito baixinho e balcão do mesmo mármore negro francês que reveste o chão. É só uma prévia. No salão principal, com 9 metros de altura, uma enorme clarabóia ilumina as mesas de mogno laqueado. As cadeiras, que eram pretas, foram forradas de couro cru – o mesmo dos cardápios produzidos pelo designer Roberto Cipolla. Os 130 lugares da antiga casa passaram para oitenta. O salão privado, no qual os comensais ficarão protegidos por uma discreta cortina de linho, foi montado num mezanino de frente para o salão principal. Por enquanto, o restaurante funcionará somente no jantar. Até o fim do mês, deve abrir também no almoço.


Antiguidades de prata
Para decorar o hotel e o restaurante, Rogério Fasano e o arquiteto Isay Weinfeld fizeram oito viagens à Itália, França, Inglaterra, Estados Unidos e Argentina. Em uma feira de antiguidades de Paris, Rogério arrematou um porta-bebida de prata, usado para manter garrafas geladas (à esq.), e um presse à canard. Esta peça, também de prata (à dir.), é utilizada para prensar o pato e extrair os sucos de sua carne. Exibida no salão, ela poderá ser usada eventualmente na cozinha

O cardápio mudou. Ao lado dos clássicos risotos, massas frescas e vitelas, foram criados seis menus gastronômicos, cada um com cinco pratos servidos em seqüência, mais a sobremesa, a um preço em torno de 200 reais por pessoa, sem bebida, couvert (20 reais) nem serviço (12%). Comandados pelo maître-gerente Almir Paiva, a brigada terá 24 garçons, em sua maioria jovens e bilíngües. A adega, com 400 rótulos de vinho – contra 250 na antiga casa –, continua sob a responsabilidade do sommelier Manoel Beato. Para oferecer refeições mais simples e triviais, foi criado, à beira do terraço do 1º andar, o restaurante Nonno Ruggero. Ali será servido o café-da-manhã, além de almoço e jantar, com bufê de antepastos, a 60 reais por pessoa. O Baretto volta numa versão ligeiramente reduzida e mais cool. Seu chão de peroba rústica e paredes forradas de veludo cotelê garantem a boa acústica aos shows de música ao vivo que serão apresentados diariamente. Já está marcada para o próximo dia 16 uma apresentação do pianista americano Steve Ross, que ganhou fama como estrela do Hotel Algonquin de Nova York. Aberto de terça a domingo, a partir das 8 da noite, o bar promete seguir pela madrugada embalado por trios de piano, baixo e bateria. Enquanto o barman Celio Alves de Freitas continua preparando seu impecável martíni seco, Hélio Luiz de Andrade, que trata a maioria dos freqüentadores pelo nome, segue como gerente da casa.


Hélio de Andrade, gerente do Baretto: decoração cool, shows de jazz e um martíni seco impecável

A idéia de erguer um hotel como esse nasceu de Rogério, há oito anos. Ele convenceu o pai e os irmãos a comprar um terreno vizinho ao antigo restaurante Fasano. "Depois de um tempo, nos endividamos e quase quebramos", conta ele. "Ou dávamos um passo para trás e vendíamos o terreno dos nossos sonhos ou teríamos de arranjar um sócio investidor para arejar os negócios da família." Vingou a última opção. O empresário João Paulo Diniz comprou parte da holding do grupo e tornou-se sócio de todas as casas de sucesso da família: Fasano, Gero em São Paulo e no Rio de Janeiro, Parigi, Forneria San Paolo, Gero Caffè, Caffé Armani e Casa Fasano. Segundo os donos, foram investidos no hotel 50 milhões de reais. João Paulo colocou, sozinho, 15 milhões e conseguiu do BNDES um financiamento de mais 20 milhões de reais. Os restantes 15 milhões vieram do grupo Fasano. Apesar da grande oferta de quartos entre os cinco-estrelas da cidade – a taxa de ocupação do Grand Hyatt, por exemplo, fica na média de 35% ao ano –, os sócios confiam no sucesso do empreendimento com base em um cálculo: eles apostam que os bares e restaurantes irão garantir metade de seu faturamento.


No comando dos serviços
Mais jovem restaurante do grupo, o Nonno Ruggero deverá ser aberto ao público no fim do mês, no 1º andar do hotel, sob o comando do gerente Vicci Domini (à esq.). Ali serão servidos o café-da-manhã e refeições no sistema de bufê, a 60 reais por pessoa. Para cuidar dos serviços, o diretor-geral Marco Vazzoler foi trazido do hotel Four Seasons de Milão e o diretor de vendas, Hans Wegner, do Plaza Athénée, de Paris (à dir.)

"Desde o início fui contagiado pelo entusiasmo com que Rogério trabalha e comprei a idéia do hotel", diz João Paulo Diniz, um dos herdeiros do grupo Pão de Açúcar. "Meu pai é um empresário pragmático e não se arriscaria tanto. Mas eu me permito agir um pouco mais emocionalmente e seguir as minhas intuições", acrescenta, referindo-se a Abilio Diniz. "São as loucuras do Rogério que dão personalidade aos empreendimentos." Para garimpar cada móvel e objeto, Rogério fez oito viagens ao exterior, acompanhado pelo arquiteto e amigo Isay Weinfeld. "Ele teve uma participação ativíssima e atuou como maestro do projeto", afirma Weinfeld. "O resultado é que o hotel ficou tão classudo quanto ele próprio." Não há propriamente luxo. Muito menos algum traço de novo-riquismo. Ao lado da extrema qualidade e do conforto para quem pode pagar por esse privilégio, o charme do lugar está justamente nas combinações adequadas de materiais e objetos. Foram espalhados por todo o hotel cerca de setenta tapetes kilins vindos do Irã. No lobby de entrada e no Baretto há sessenta poltronas de couro caramelo. Os modelos foram comprados em antiquários de Paris e reproduzidos por um marceneiro do interior da França.


Um dos 64 apartamentos: vasos de Murano e lençóis de algodão egípcio

Nos apartamentos, todos com cama king-size, os lençóis são de algodão egípcio de 600 fios e os travesseiros têm recheio de pluma de peito de ganso. Há uma banheira na maioria deles. Weinfeld desenhou os armários, o mancebo, os revisteiros, algumas poltronas, mesas-de-cabeceira e as grades embutidas de ar-condicionado. O projeto do restaurante e o do Baretto levam sua assinatura, enquanto o do prédio do hotel foi dividido com seu colega Marcio Kogan. Durante oito anos, eles aperfeiçoaram cada detalhe. "Desenhamos mais de quinze vezes a distribuição das suítes", revela Kogan. Inicialmente, o hotel teria apenas 33 grandes apartamentos. "A cada estudo de mercado que era feito, ficava mais claro que esse número de suítes não seria comercialmente viável." Eles contam que aceitaram o trabalho sem garantia de pagamento, já que os Fasano ainda não dispunham de capital suficiente para o negócio.


Os arquitetos
Durante oito anos, os arquitetos Marcio Kogan e Isay Weinfeld trabalharam no projeto. Até a planta do Empire State foi examinada para a concepção da fachada, com os últimos andares escalonados. "Desenhamos mais de quinze vezes a distribuição das suítes", revela Kogan. Weinfeld bolou armários, mancebo, mesas-de-cabeceira e revisteiros

Até a planta do Empire State Building, de Nova York, foi examinada para a concepção da fachada, com os últimos andares escalonados. Neles, localizam-se a piscina, o spa e a sala de ginástica. Como nos antigos edifícios nova-iorquinos, há no topo um clássico relógio feito sob encomenda. Outra influência foi o prédio do Banespa, no centro. O extremo cuidado com os detalhes acabou envolvendo toda a antiga Rua Taiarana. Para embelezá-la, o grupo bancou a instalação da fiação subterrânea. Só essa obra, que limpou seu visual, custou 600.000 reais. No ano passado, ela foi rebatizada de Vitório Fasano. Uma homenagem ao italiano que, 100 anos atrás, iniciou em São Paulo o império gastronômico que agora realiza seu sonho mais ousado.


Um brinco de rua
Em homenagem aos 100 anos dos negócios gastronômicos da família, a Rua Taiarana foi rebatizada de Vitório Fasano. Para embelezá-la, o grupo bancou a instalação da fiação subterrânea, que custou 600 000 reais. No lugar dos fios e postes, duas magnólias foram plantadas em frente ao hotel. Ao lado, ficam os seis carros PT Cruiser, que lembram os táxis londrinos

 

Enquanto isso, na Rua Haddock Lobo...

Andrea Fasano: à frente da casa de eventos da família

O restaurante Fasano fez história no imponente casarão da Rua Haddock Lobo, 1644, tanto pelo primor da cozinha quanto por suas instalações majestosas. Foi inaugurado em 1990, depois de um investimento de 4 milhões de dólares. Com sua mudança para o hotel, por pouco o grande salão de piso quadriculado de mármore, colunas escuras de madeira e aço, mesas de mogno e pé-direito de 12 metros em um dos ambientes não foi passado para a frente. Na hora de fechar as portas, o patriarca do clã, Fabrizio Fasano, bateu o pé. "Percebi que o espaço poderia renascer como uma incrível casa de eventos", conta ele, que fez valer sua vontade. Rebatizado de Casa Fasano, o lugar passou a ser comandado por sua filha, a banqueteira Andrea Fasano. "Acreditamos muito no mercado de festas em São Paulo", diz Andrea, cujos eventos custam entre 60 e 250 reais por pessoa, mais a locação da casa (de 8 000 a 18 000 reais). No bufê, com sua sócia Patrícia Filardi, Andrea repete a elegância e a qualidade dos restaurantes da família. Massas, risotos e carnes são apresentados em louças finas, junto de talheres de prata e taças de cristal. Sua empresa, que também providencia a decoração, o som e a iluminação, continuará atendendo a jantares e festas em residências ou outros salões.

 

         
     
 
 
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