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TEATRO
Cortinas
fechadas
Desentendimentos
e prejuízos fazem
o histórico TBC suspender sua
programação por tempo indeterminado
Marcella
Centofanti
Heudes Regis
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| O
teatro, inaugurado em 1948: tombado no mês passado |
Em
setembro de 1999, após uma reforma que demorou nove meses
e custou 4 milhões de reais, o Teatro Brasileiro de Comédia
(TBC) foi reaberto e a cidade ganhou de volta um templo histórico
da dramaturgia brasileira. Uma década sob a administração
da prefeitura havia deixado o teatro em frangalhos. Concluída
a obra, supervisionada pelo arquiteto e cenógrafo J.C. Serroni,
com financiamento do empresário Marcos Tidemann, o TBC retornou
à cena. Exibia quatro salas reformadas, fachada restaurada
e novos equipamentos de som e luz. Recebeu peças que alcançaram
sucesso de público e crítica, como as remontagens
de Ópera do Malandro e Os Saltimbancos, ambas
dirigidas por Gabriel Villela, Abajur Lilás, do diretor
Sérgio Ferrara, e Major Bárbara, do Grupo Tapa.
Desde então, foram encenados ali 95 espetáculos, numa
média de dez por semana, para um público estimado
de 400.000 pessoas. No último
dia 20 de dezembro, no entanto, essa trajetória se interrompeu.
O TBC fechou as portas e não há previsão de
quando voltará a funcionar. Um impasse em torno do valor
do aluguel fez com que os arrendatários Tidemann e
sua filha Fezu Duarte entregassem o prédio antes do
término do contrato. Nove peças infantis e adultas,
em dias, horários e salas diferentes, estavam em cartaz.
Seis outras haviam sido programados para estrear neste ano.
Cristiano Mascaro
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Fredi Kleemann
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| Cacilda
Becker, em sua última peça, Esperando Godot:
a atriz sentiu-se mal em um intervalo, entrou em coma e morreu
39 dias depois |
Paulo
Autran, na peça Arsênico e Alfazema: revelado
com nomes como Fernanda Montenegro e Sérgio Cardoso |
Fezu
diz que nunca obteve lucro desde que assumiu o TBC. Segundo ela,
a renda obtida com bilheteria e patrocínios cobria apenas
60% dos gastos, estimados em 70.000 reais
por mês. "Temos uma filosofia de promover espetáculos
de qualidade a preços acessíveis", explica. "Não
podíamos apelar para peças meramente comerciais nem
encarecer o ingresso." Ela diz que tentou renegociar o valor do
aluguel, de 33.000 reais, e ofereceu
4 milhões de reais para comprar o prédio, mas não
houve acordo. A versão da proprietária do imóvel,
a empresária Magnólia do Lago Mendes Ferreira, é
outra. "Não fui procurada para nenhum tipo de negociação",
disse na quinta-feira passada. Dona do TBC desde 1982, ela comandou
o teatro até 1990, quando o arrendou para a prefeitura. Agora,
quer voltar a administrá-lo e deve travar uma batalha judicial
com os arrendatários para que seja realizada nova reforma.
"Foi feita apenas uma maquiagem", afirma. "Camarins estão
destruídos e as poltronas ficaram em péssimo estado."
Os locatários não pretendem investir mais dinheiro
no prédio. "Estava tudo caindo aos pedaços", garante
Fezu. "Refizemos os camarins, a fachada, o bar, as poltronas e o
encanamento. E ainda deixamos lá metade do equipamento de
luz que compramos."
Gal Oppido
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Lica Keunecke
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| As
remontagens de Ópera do Malandro (à dir.) e Os Saltimbancos:
os derradeiros sucessos |
Enquanto
não se define o destino do teatro, a cidade fica sem um de
seus mais importantes marcos artísticos. No mês passado,
o prédio foi incluído na lista de 906 imóveis
tombados pelo Conselho Municipal de Preservação do
Patrimônio (Conpresp) no bairro do Bixiga. "A dramaturgia
paulistana começou ali", lembra Maria Lúcia Candeias,
crítica teatral e professora do departamento de artes cênicas
da Unicamp. Fundado em 1948 pelo italiano Franco Zampari, trouxe
montagens de peso à cidade e formou gerações
de atores. Foi lá que despontaram Paulo Autran, Tônia
Carrero, Sérgio Cardoso e Fernanda Montenegro. Diretores
como Adolfo Celi e Ziembinski montaram espetáculos memoráveis
em seus palcos. Ali também a grande Cacilda Becker, considerada
a maior atriz do teatro brasileiro, encenou seu último espetáculo,
Esperando Godot, de Samuel Beckett, em 1969. No intervalo
de uma apresentação, ela se sentiu mal. Havia sofrido
um aneurisma. Não conseguiu voltar para o segundo ato, foi
levada ao hospital, entrou em coma e morreu 39 dias depois. Agora,
toda essa história pode apenas fazer parte do passado.
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