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8 de janeiro de 2003
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TEATRO

Cortinas fechadas

Desentendimentos e prejuízos fazem
o histórico TBC suspender sua
programação por tempo indeterminado

Marcella Centofanti

Heudes Regis
O teatro, inaugurado em 1948: tombado no mês passado

Em setembro de 1999, após uma reforma que demorou nove meses e custou 4 milhões de reais, o Teatro Brasileiro de Comédia (TBC) foi reaberto e a cidade ganhou de volta um templo histórico da dramaturgia brasileira. Uma década sob a administração da prefeitura havia deixado o teatro em frangalhos. Concluída a obra, supervisionada pelo arquiteto e cenógrafo J.C. Serroni, com financiamento do empresário Marcos Tidemann, o TBC retornou à cena. Exibia quatro salas reformadas, fachada restaurada e novos equipamentos de som e luz. Recebeu peças que alcançaram sucesso de público e crítica, como as remontagens de Ópera do Malandro e Os Saltimbancos, ambas dirigidas por Gabriel Villela, Abajur Lilás, do diretor Sérgio Ferrara, e Major Bárbara, do Grupo Tapa. Desde então, foram encenados ali 95 espetáculos, numa média de dez por semana, para um público estimado de 400.000 pessoas. No último dia 20 de dezembro, no entanto, essa trajetória se interrompeu. O TBC fechou as portas e não há previsão de quando voltará a funcionar. Um impasse em torno do valor do aluguel fez com que os arrendatários – Tidemann e sua filha Fezu Duarte – entregassem o prédio antes do término do contrato. Nove peças infantis e adultas, em dias, horários e salas diferentes, estavam em cartaz. Seis outras haviam sido programados para estrear neste ano.

Cristiano Mascaro
Fredi Kleemann
Cacilda Becker, em sua última peça, Esperando Godot: a atriz sentiu-se mal em um intervalo, entrou em coma e morreu 39 dias depois Paulo Autran, na peça Arsênico e Alfazema: revelado com nomes como Fernanda Montenegro e Sérgio Cardoso

Fezu diz que nunca obteve lucro desde que assumiu o TBC. Segundo ela, a renda obtida com bilheteria e patrocínios cobria apenas 60% dos gastos, estimados em 70.000 reais por mês. "Temos uma filosofia de promover espetáculos de qualidade a preços acessíveis", explica. "Não podíamos apelar para peças meramente comerciais nem encarecer o ingresso." Ela diz que tentou renegociar o valor do aluguel, de 33.000 reais, e ofereceu 4 milhões de reais para comprar o prédio, mas não houve acordo. A versão da proprietária do imóvel, a empresária Magnólia do Lago Mendes Ferreira, é outra. "Não fui procurada para nenhum tipo de negociação", disse na quinta-feira passada. Dona do TBC desde 1982, ela comandou o teatro até 1990, quando o arrendou para a prefeitura. Agora, quer voltar a administrá-lo e deve travar uma batalha judicial com os arrendatários para que seja realizada nova reforma. "Foi feita apenas uma maquiagem", afirma. "Camarins estão destruídos e as poltronas ficaram em péssimo estado." Os locatários não pretendem investir mais dinheiro no prédio. "Estava tudo caindo aos pedaços", garante Fezu. "Refizemos os camarins, a fachada, o bar, as poltronas e o encanamento. E ainda deixamos lá metade do equipamento de luz que compramos."

Gal Oppido
Lica Keunecke
As remontagens de Ópera do Malandro (à dir.) e Os Saltimbancos: os derradeiros sucessos

Enquanto não se define o destino do teatro, a cidade fica sem um de seus mais importantes marcos artísticos. No mês passado, o prédio foi incluído na lista de 906 imóveis tombados pelo Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio (Conpresp) no bairro do Bixiga. "A dramaturgia paulistana começou ali", lembra Maria Lúcia Candeias, crítica teatral e professora do departamento de artes cênicas da Unicamp. Fundado em 1948 pelo italiano Franco Zampari, trouxe montagens de peso à cidade e formou gerações de atores. Foi lá que despontaram Paulo Autran, Tônia Carrero, Sérgio Cardoso e Fernanda Montenegro. Diretores como Adolfo Celi e Ziembinski montaram espetáculos memoráveis em seus palcos. Ali também a grande Cacilda Becker, considerada a maior atriz do teatro brasileiro, encenou seu último espetáculo, Esperando Godot, de Samuel Beckett, em 1969. No intervalo de uma apresentação, ela se sentiu mal. Havia sofrido um aneurisma. Não conseguiu voltar para o segundo ato, foi levada ao hospital, entrou em coma e morreu 39 dias depois. Agora, toda essa história pode apenas fazer parte do passado.

         
     
 
 
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