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5 de abril de 2006
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CRÔNICA

Em busca de calor humano

Walcyr Carrasco

Recentemente, tive um problema na minha conexão rápida com a internet. Liguei. Uma voz simpática avisou que no dia seguinte, no horário comercial, um técnico iria consertar. Insisti em saber a hora exata. Ela explicou ser impossível. Eu deveria ficar plantado, à espera. Como os agricultores aguardam a chuva, olhando pela janela. Só um desocupado pode passar o dia todo à espera de um técnico. Mesmo assim me submeti. Quase às 6 da tarde, ninguém havia aparecido. Liguei. Outra pessoa me atendeu. Pelo sistema da empresa, era impossível voltar a falar com quem já conhecia o problema. Expliquei. A ligação caiu. Toquei outra vez. Nova pessoa atendeu. Recitei a ladainha. A resposta:

– O técnico teve um problema. Vou agendar para amanhã.

– Eu não posso ficar de plantão mais um dia inteiro! – gemi.

– Que data é melhor para o senhor? – retrucou a voz impassível.

Contei a história para um amigo, fisioterapeuta que atende em sua própria casa. Teve problema maior. O técnico chegou quase junto com um paciente. A secretária já saíra. Deixou o rapaz trabalhando. Ao terminar as consultas, o moço tinha partido. A internet ainda não funcionava. Em compensação, levara os cartões de crédito e o talão de cheques!

Essas empresas trabalham com terceirização. Mas de maneira fria. O atendente parece não ter idéia sobre quem vai fazer o trabalho. A reclamação é anotada e repassada a um departamento. Dificilmente se consegue um contato com algum responsável. Há três anos, quando mudei, descobri que devido à queda de um poste o cabeamento telefônico, elétrico e da televisão por assinatura da região passava sobre meu jardim. Reclamei com a companhia elétrica. Veio um poste, e o problema foi resolvido. A telefônica também agiu rapidamente. Embora em outras ocasiões eu tenha me descabelado com seus terceirizados. Os cabos da televisão continuam no mesmo lugar. Já reclamei, já falei muitas vezes com múltiplas pessoas. Todas prometem resolver. Mas nada! Qualquer dia desses me dependuro nos fios. O bairro todo ficará sem televisão. Certamente alguém virá consertar às pressas. É justo?

Paga-se por um serviço. Do outro lado da linha só se ouve uma voz distante, louca para se livrar do cliente nervoso. Não quero citar nenhuma empresa, pois acontece com várias, em muitas áreas. Ao venderem a assinatura, ocorre o contrário. A simpatia é extrema. Já na instalação, começa a loucura. Uma vez me candidatei aos serviços de uma televisão por assinatura. Os técnicos vieram quase no início da noite. Disseram ser preciso trocar toda a fiação. Trabalho particular. Aceitei. Mudaram os fios. Paguei. Ficaram de voltar no dia seguinte, para concluir. Sumiram. Liguei para reclamar. Fui informado de que eu não poderia exigir a volta daquela turma. A empresa determinaria a equipe.

Mais um dia de espera. Novos terceirizados. Examinaram o local. O chefe veio até mim:

– Vai ser preciso trocar os fios, mas é um serviço particular. Se quiser um orçamento...

– Olha aqui, ontem vieram com a mesma conversa e já...

Gritei. Vociferei. Consegui que chamassem uma gerente ao telefone. No dia seguinte, outro pessoal. Instalaram tudo em meia hora, sem conversa.

O mundo anda muito impessoal. É terrível ter de lutar para ser bem tratado. Ainda mais em empresas por cujos serviços se paga. Está fazendo falta saber quem está do outro lado da linha. Sentir um interesse maior em resolver os meus problemas. Falta, enfim, calor humano.

e-mail: walcyr@abril.com.br

     
   
 
 
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