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CRÔNICA
Em busca de calor humano
Walcyr Carrasco
Recentemente,
tive um problema na minha conexão rápida com a internet.
Liguei. Uma voz simpática avisou que no dia seguinte, no
horário comercial, um técnico iria consertar. Insisti
em saber a hora exata. Ela explicou ser impossível. Eu deveria
ficar plantado, à espera. Como os agricultores aguardam a
chuva, olhando pela janela. Só um desocupado pode passar
o dia todo à espera de um técnico. Mesmo assim me
submeti. Quase às 6 da tarde, ninguém havia aparecido.
Liguei. Outra pessoa me atendeu. Pelo sistema da empresa, era impossível
voltar a falar com quem já conhecia o problema. Expliquei.
A ligação caiu. Toquei outra vez. Nova pessoa atendeu.
Recitei a ladainha. A resposta:
O técnico teve um problema.
Vou agendar para amanhã.
Eu não posso ficar de plantão
mais um dia inteiro! gemi.
Que data é melhor para o senhor?
retrucou a voz impassível.
Contei a história para um amigo, fisioterapeuta
que atende em sua própria casa. Teve problema maior. O técnico
chegou quase junto com um paciente. A secretária já
saíra. Deixou o rapaz trabalhando. Ao terminar as consultas,
o moço tinha partido. A internet ainda não funcionava.
Em compensação, levara os cartões de crédito
e o talão de cheques!
Essas empresas trabalham com terceirização.
Mas de maneira fria. O atendente parece não ter idéia
sobre quem vai fazer o trabalho. A reclamação é
anotada e repassada a um departamento. Dificilmente se consegue
um contato com algum responsável. Há três anos,
quando mudei, descobri que devido à queda de um poste o cabeamento
telefônico, elétrico e da televisão por assinatura
da região passava sobre meu jardim. Reclamei com a companhia
elétrica. Veio um poste, e o problema foi resolvido. A telefônica
também agiu rapidamente. Embora em outras ocasiões
eu tenha me descabelado com seus terceirizados. Os cabos da televisão
continuam no mesmo lugar. Já reclamei, já falei muitas
vezes com múltiplas pessoas. Todas prometem resolver. Mas
nada! Qualquer dia desses me dependuro nos fios. O bairro todo ficará
sem televisão. Certamente alguém virá consertar
às pressas. É justo?
Paga-se por um serviço. Do outro lado da
linha só se ouve uma voz distante, louca para se livrar do
cliente nervoso. Não quero citar nenhuma empresa, pois acontece
com várias, em muitas áreas. Ao venderem a assinatura,
ocorre o contrário. A simpatia é extrema. Já
na instalação, começa a loucura. Uma vez me
candidatei aos serviços de uma televisão por assinatura.
Os técnicos vieram quase no início da noite. Disseram
ser preciso trocar toda a fiação. Trabalho particular.
Aceitei. Mudaram os fios. Paguei. Ficaram de voltar no dia seguinte,
para concluir. Sumiram. Liguei para reclamar. Fui informado de que
eu não poderia exigir a volta daquela turma. A empresa determinaria
a equipe.
Mais um dia de espera. Novos terceirizados. Examinaram
o local. O chefe veio até mim:
Vai ser preciso trocar os fios, mas
é um serviço particular. Se quiser um orçamento...
Olha aqui, ontem vieram com a mesma
conversa e já...
Gritei. Vociferei. Consegui que chamassem uma gerente
ao telefone. No dia seguinte, outro pessoal. Instalaram tudo em
meia hora, sem conversa.
O mundo anda muito impessoal. É terrível
ter de lutar para ser bem tratado. Ainda mais em empresas por cujos
serviços se paga. Está fazendo falta saber quem está
do outro lado da linha. Sentir um interesse maior em resolver os
meus problemas. Falta, enfim, calor humano.
e-mail: walcyr@abril.com.br
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