Sem fama, mas com qualidade

Alguns colégios pouco conhecidos surgem
como as ótimas novidades da pesquisa

Pedro Biondi

 
Estudantes da 1ª série brincam na hora do recreio no Santa Clara: 818 alunos na Vila Madalena

Elas não são famosas, quase não investem em publicidade e não alardeiam seus índices de aprovação no vestibular. Em compensação, jamais perderam o foco no essencial: mantêm corpo docente qualificado, estável e bem remunerado, o que resulta em ótimo nível de ensino. Com essas credenciais, algumas escolas pouco conhecidas da cidade apresentaram alto desempenho na pesquisa Veja São Paulo-Ipsos Marplan e surgem como as boas surpresas do levantamento.

As duas primeiras novidades estão logo no topo do ranking. Imediatamente atrás do Porto Seguro, campeão, e do Santa Cruz, vice – ambos estabelecimentos renomados –, classificaram-se os colégios Santa Clara e Santa Maria. São instituições católicas, dirigidas por freiras. As duas têm em comum um professorado de primeira linha, uso crescente de atividades interdisciplinares (que abrangem duas ou mais áreas), promoção de trabalhos sociais e aulas de filosofia desde a 1ª série do ensino fundamental. As aulas de religião voltam-se mais para discutir e ensinar princípios éticos que para catequizar.

Localizado na Vila Madalena, com instalações relativamente simples, o Santa Clara adota um critério próprio para avaliar seus 818 alunos. Na hora de dar a nota, a participação de cada um deles em sala de aula representa 40% da média final, enquanto as provas valem 60%. Nas aulas de biologia, por exemplo, a professora Maria Helena Rizzutti incentiva o trabalho em grupo, e os integrantes, ao final de um projeto, apresentam um seminário para o resto da classe. Nessas ocasiões, ela fica no fundo da sala, mas a todo momento intervém com perguntas e comentários para estimular os estudantes a arriscar hipóteses. "O Santa Clara é uma escola que dá bastante autonomia ao professor", diz Maria Helena. No ano passado, o índice de aprovação dos alunos no vestibular, segundo a direção, chegou a 76%. "Eles nos preparam bem para o vestibular", avalia Tatiane Binotto, da 3ª série do ensino médio. "Mas não ficam nos pressionando para entrar."

Aula de ciências no bosque do Santa Maria: 150 000 metros quadrados de área

Dirigido por freiras canadenses, pertencentes à mesma congregação dos padres que fundaram o Colégio Santa Cruz, o Santa Maria coloca à disposição de seus 1 710 alunos uma área de 150 000 metros quadrados, a maior entre as cinqüenta primeiras do ranking. Há uma biblioteca com 26 000 livros. O material didático é elaborado pelos professores, muitos com mestrado ou doutorado. Eles dão ênfase aos trabalhos sociais, tanto em forma de campanhas como no estudo. Neste ano, estudantes da 3ª série do ensino médio visitaram uma das áreas mais pobres do país, o Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais, e estão agora preparando uma monografia a respeito da região. A avaliação é por conceito (A, B, C, D ou E) e não se restringe ao domínio de conteúdo. "Trabalhamos uma postura perante a vida: não basta se esforçar só o suficiente para passar de ano", diz a diretora, Diane Clay Cundiff, que é tratada como sister pelos alunos. "Levamos em conta também compreensão, atitudes e habilidades."

O Humboldt, fundado pela colônia alemã, é dirigido por uma sociedade de pais de alunos. Ou seja, quem quer colocar seus filhos lá precisa entrar como sócio na instituição. O resultado disso é uma participação bastante ativa das famílias na escola. Embora tenha currículo brasileiro para 90% dos alunos, o colégio recebe uma substancial ajuda do governo da Alemanha, que bancou a maior parte dos custos da nova sede, inaugurada em 1999, e paga os salários de alguns professores que envia para cá, além de fornecer material didático e equipamentos de laboratório. Ao contrário do Porto Seguro, igualmente criado por alemães, o Humboldt não tem como característica a rigidez na disciplina. "Pelo contrário: há muito mais diálogo do que o costumeiro em outras escolas", afirma o professor José Simões, que ensina alemão e português. "Nosso objetivo é fazer com que o aluno ajude a construir o ritmo da aula e desenvolva o espírito crítico."

Os colégios israelitas também tiveram um bom desempenho na pesquisa. Três deles – I.L. Peretz, Renascença e Iavne – ficaram entre os cinqüenta melhores. No Peretz, há estudos da Bíblia e aulas de hebraico a partir da educação infantil. A disciplina história judaica é obrigatória até a 8ª série. Uma espécie de clube da ciência permite que, fora da grade curricular, grupos de quatro a seis alunos mergulhem, com o auxílio de um professor, em um assunto de seu interesse. Culinária e zoologia foram alguns dos temas escolhidos neste ano. "Aqui temos muita liberdade para falar com os professores e a direção", afirma Danny Abensur, da 2ª série do ensino médio. "Muitas vezes, eles até nos consultam quando vão criar um projeto."

Beatriz Maués, da 1ª série do ensino médio do Humboldt: sem a rigidez do Porto Seguro

Inspirada pela antroposofia, uma filosofia espiritual de origem austríaca, a Escola Waldorf Rudolf Steiner afasta-se da metodologia convencional. Para começar, nada de notas. O que os pais recebem no boletim são observações sobre a evolução do aluno. Não há reprovação. O equivalente ao ciclo fundamental leva um ano a mais. É a 9ª série, um período de transição que antecipa algumas características do ensino médio. Com isso, o aluno geralmente conclui os estudos aos 18 anos, e não aos 17. As turmas são mantidas praticamente fixas do primeiro ao último ano. No ensino fundamental, existe a figura do professor de classe, responsável pela primeira aula do dia, chamada de principal. Ela dura duas horas e se inicia com uma sessão de exercícios corporais e mentais. A arte é vista como um instrumento importante. "Não temos a intenção de formar artistas", explica Eleonora Canaes, professora do ensino médio. "A arte ajuda a associar um sentimento à idéia abstrata que está sendo passada."

Outras duas surpresas da pesquisa vêm da Zona Leste: o Santo Antonio de Lisboa, no Tatuapé, e o São Vicente de Paulo, na Penha, dirigidos por freiras católicas vicentinas. Há aulas de inglês e espanhol em todas as séries. A natação é obrigatória durante o ensino fundamental. Seus índices de aprovação no vestibular são bastante elevados. "Cerca de 80% de nossos alunos entram em sua primeira opção de faculdade", orgulha-se a orientadora pedagógica do Santo Antonio de Lisboa, Silvana Cestari Pegas.

 

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