| |
Leo Feltran
 |
Os
papéis dos ensinos
médio e superior
"A
educação básica deve preparar para a
vida,
para o trabalho e para o aprendizado permanente"
Primário, ginásio, colegial. Primeiro e segundo
grau. Ensino fundamental e ensino médio. Tanto quanto
essas denominações, mudaram nos últimos
anos o caráter e a finalidade dos diferentes níveis
educacionais no país. O ensino médio, por exemplo,
ou era preparatório para a faculdade ou era de treinamento
profissional específico. Hoje ele deve ser, antes de
mais nada, a etapa conclusiva da educação básica,
de caráter geral, portanto. Há cerca de três
décadas, menos de 1 milhão de alunos freqüentavam
o ensino médio, mas em mais um par de anos serão
10 milhões. Ao mesmo tempo, crescem as exigências
do mercado de trabalho, que aliás se tem reduzido drasticamente
para quem só tem o ensino fundamental completo ou menos
que isso.
Por essas e outras razões, é preciso esclarecer
melhor que etapa da educação corresponde a que
tipo de aprendizado e quais atividades demandam qual formação.
Educação básica é a que se inicia
na infância, inclui os oito anos do ensino fundamental
e tem nos três anos do ensino médio sua etapa
conclusiva. Deve preparar efetivamente para a vida, para o
trabalho e para o aprendizado permanente, também para
quem não se dirige à educação
superior. A formação básica promove o
domínio das formas contemporâneas de linguagem,
incluídas as científicas, artísticas
e matemáticas, assim como a capacidade de fazer uso
de conhecimentos para enfrentar problemas práticos,
interpretar fenômenos e processos naturais ou sociais,
desenvolver apreço pela cultura e exercer a cidadania
de forma plena.
Com os conhecimentos, competências e valores desenvolvidos
em sua educação básica, ao fim do ensino
médio uma pessoa deve ser capaz de ler, interpretar
ou redigir textos de interesse técnico ou científico,
compreender, apreciar ou tomar parte em diferentes formas
de expressão cultural, desenvolver opiniões
e critérios próprios, elaborar argumentações
e tomar iniciativas e decisões de natureza econômica
ou política. Muitas atividades profissionais podem
necessitar de uma formação complementar ou suplementar,
mas não necessariamente superior. Um exemplo são
as atividades técnicas em geral. Além de alguma
formação teórica, os cursos profissionais
complementares devem estar associados a práticas supervisionadas,
capazes de promover e certificar as habilidades de cada profissão.
Entretanto,
há muitas outras atividades profissionais que só
se realizam em cursos de nível superior. É natural
a formação superior para quem deseja ser professor
de literatura, maestro de orquestra sinfônica, médico,
engenheiro civil, pesquisador científico, administrador
público ou juiz de direito. Dos formados nessas carreiras,
como dos professores em geral, se deve exigir formação
superior e vivência profissional. O que tem de determinar
a necessidade de formação superior não
é só o grau de responsabilidade, nem o nível
de remuneração do trabalho, mas a natureza dos
conhecimentos e da cultura exigidos. Na realidade, essa nova
etapa formativa não precisa ser de caráter profissional,
podendo estar associada a outra meta não menos importante,
que é a realização cultural. Há
pessoas realizadas profissionalmente que procuram o ensino
superior por causa de seu interesse cultural, artístico,
humanístico ou científico.
Parte da confusão hoje observada entre as funções
dos vários níveis educacionais tem a ver com
certa desconfiança em relação à
qualidade da educação. É freqüente
observar uma exigência de formação superior
de caráter universitário para certos postos
de trabalho não especializados, aceitando-se para uma
mesma função candidatos graduados em engenharia,
em economia ou mesmo em direito. Isso revela a pouca segurança
na formação geral promovida pelas escolas de
nível médio ou por faculdades isoladas.
Também por isso, é do interesse de cada cidadão
e da nação uma permanente mobilização
pela ampliação da escolarização
básica para toda a população jovem e
pela elevação dos padrões de qualidade
em cada um dos níveis educacionais. Nesse sentido,
além do esforço concentrado pela melhoria da
educação básica, que já rendeu
alguns frutos, mas precisa prosseguir por vários anos,
é necessário despertar para uma nova e importante
campanha. Trata-se da educação profissional,
superior ou não, que está passando por profundas
transformações ao longo da já adiantada
terceira revolução industrial, mas que ainda
não recebeu, em nosso país, a atenção
que merece.
Luis
Carlos de Menezes é físico e educador da
USP,
consultor do MEC e autor de livros
|