Leo Feltran

Quando vale a pena
mudar de escola

"As escolas não existem apenas para que
os alunos aprendam o conteúdo das matérias"

Mudar um filho de escola é uma situação bastante difícil para muitos pais. Quando é necessário fazer isso? Quais os critérios de escolha? O que deve ser considerado para dizer sim ou não quando são os filhos que pedem para mudar? Escola mais tradicional, escola renovada ou escola com tecnologias sofisticadas? São tantas as dúvidas!

Muitos pais que passaram por essa situação demonstram desencanto com as decisões que tomaram. E não são poucos os que nos dizem que assumiriam outro caminho, "se soubessem o que sabem agora". Decisões intempestivas, às vezes tomadas em momento de descontentamento com uma escola (em certos casos, muito justo...), podem levar a situações ainda piores que aquela que provocou a mudança.

Há algumas idéias que podem ajudar nesse difícil momento de escolha. Em primeiro lugar, as escolas não existem apenas para que os alunos aprendam o conteúdo das matérias. São também muito importantes para o desenvolvimento afetivo e social. Nelas, nossas crianças e jovens formam seus grupos, vivem conflitos, passam por experiências de vida.

Portanto, eles devem participar da decisão de mudar e, na medida de suas possibilidades, da escolha de uma nova escola. A sintonia entre pais e filhos, nessa hora, é fundamental para o acerto na decisão.

Um erro a ser evitado é usar a mudança como meio de "castigar" (em geral, inconscientemente) os filhos que não conseguiram permanecer na "escola do sonho". Sonho dos pais, não dos filhos.

Um aspecto que merece muita atenção está ligado às causas da mudança. São motivos que não podem mesmo ser solucionados na escola atual? É necessária a mudança ou haveria possibilidade de conversar e solucionar as situações indesejáveis? O que o aluno perde e o que ganha com a troca?

Outro conjunto de questões está associado ao perfil da futura escola. Qual poderia oferecer soluções para as razões que estão motivando a mudança? Elas existem apenas na escola atual ou estão igualmente presentes em outras escolas?

Não podemos esquecer que muitas vezes a mudança é inevitável para os filhos (por exemplo, um novo emprego para os pais em outra cidade...). Quando isso ocorre, caberá aos pais e à própria escola dar toda a prioridade à preparação cuidadosa do aluno para enfrentar o desafio.

É também importante refletir sobre fatores cotidianos. O percurso a ser feito para chegar à escola é viável no dia-a-dia dos pais? A condução, o lanche e demais gastos diários, quanto custarão? O preço da mensalidade é compatível com o orçamento familiar?

Muitas variáveis precisam ser estudadas para que o aluno não seja submetido a um processo de contínuas mudanças, não "criando raízes" em lugar algum – um autêntico pula-pula. Nem estique demais o tempo de permanência quando não existem mais condições para aproveitar efetivamente o colégio onde está – num puxa-puxa sem fim.

Como em todas as situações que envolvem pais e filhos, são fundamentais um diálogo aberto, alta dose de sensibilidade e, obviamente, um conhecimento do projeto pedagógico dos estabelecimentos envolvidos. Em outras palavras: saber quais são a filosofia da escola e sua proposta curricular e, sobretudo, ver com os próprios olhos como as coisas funcionam. Presenciar atividades enquanto são realizadas diz mais sobre a proposta pedagógica que muitos discursos e folhetos bem maquiados.

Há um último aspecto a considerar. De alguns anos para cá, está acontecendo um saudável movimento de crescente participação dos pais na gestão das escolas. Nos estabelecimentos oficiais, a existência dos conselhos é a demonstração mais evidente desse movimento. Trata-se de um órgão colegiado formado por representantes de todos os segmentos da escola (direção, professores, funcionários, pais e alunos) e com competência para resolver problemas comuns.

Nas escolas particulares está sendo observado movimento semelhante, ainda que em menor escala. Deveria ser maior, pelo menos na área pedagógica, o que ajudaria a resolver, logo no nascedouro, questões que, mais tarde, poderiam provocar a transferência dos alunos.

Em conclusão, a seleção de um colégio significa verificar se ele abre possibilidades para que os pais, organizadamente, cooperem na gestão escolar. Experiências nesse sentido têm sido indicadas como uma das principais razões para a melhoria da qualidade dos serviços educacionais oferecidos a nossos filhos.

 

Carlos Luiz Gonçalves é consultor pedagógico,
professor da Faculdade de Educação da PUC-SP e autor de livros

 

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