Walcyr Carrasco

Meus professores

Como escrever sobre um pingo d'água
e depois dar uma bela cambalhota

Dona Telma fez barulho. Na aula de ciências, falou da teoria da evolução das espécies. Aterrorizou as mães da cidade do interior onde eu morava.

– Ela disse que o homem veio do macaco!

Um grupo organizou até manifestação em frente à escola. Queria expulsar dona Telma. A direção resistiu. O barulho aguçou minha curiosidade. Parentesco entre homem e macaco? Corri atrás das teorias de Darwin por um bom tempo. O susto aumentou na primeira avaliação. A pergunta inicial não se referia a nada do que fora ensinado.

– A senhora nunca deu essa matéria! – revoltou-se um aluno.

Protestos. Barulhão.

– É um exercício para pensar. Não tem resposta. Cada um deve encontrar a sua.

Um exagero de provas entregues em branco! Reclamações no pátio. Que história era essa de... pensar?

Minha professora de português carregava pilhas de livros, de classe em classe. Era sua biblioteca ambulante. Aconselhava:

– Leia este aqui, é bonito.

Através de dona Nilce, conheci as aventuras de Marco Polo. Era rigorosa. Principalmente nas redações, em que as notas baixas eram comuns.

– Hoje o tema é uma gota de chuva caindo do telhado.

Sufoco geral. Que dizer?

– Usem a imaginação.

Gota de chuva? Dava branco. Aos poucos, as imagens surgiam. Bem, ela podia cair no chapéu de um homem. Ou no rabo de um cachorro. Melhor ainda, na nuca de alguém e deslizar por dentro da camisa. Geladinha! Muito pai reclamava:

– Meu filho pode repetir por causa de um pingo de chuva?

O professor Isaac tentava arduamente nos transformar em atletas. Éramos obrigados a saltar, dar uma cambalhota em um aparelho e cair de pé sobre um colchonete. Parecíamos sapos tentando achar o equilíbrio! Ao acordar, eu fazia de tudo para faltar à aula de ginástica.

– Hoje não!

– Vai, senão perde o ano – forçava minha mãe.

Realmente. Um certo número de faltas era suficiente para repetir. O professor disfarçava. No último mês, o aviso:

– Desta vez eu fui bonzinho. Quem faltou demais, no ano que vem, vai ver!

Surpresa para quem hoje me vê tão roliço! A ele devo a única medalha que ganhei na vida. Em um campeonato de basquete. Confesso: na entrega, houve um murmúrio geral. Várias vezes ouviram-se as palavras "injustiça" e "logo ele"!

Os professores exigiam. Nós tentávamos chegar lá.

Há poucos anos, minha prima foi demitida de um famoso colégio particular por ser considerada uma professora muito exigente.

– Houve reclamação dos pais – explicou o diretor.

Descobriu ter sido objeto de uma constante avaliação. Não em relação à qualidade de ensino, mas quanto à popularidade. Recentemente, um amigo, professor, me revelou:

– Professor considerado chato não fica em certas escolas.

Muitas vezes, ele é visto como uma espécie de empregado do aluno. Certos pais ficam do lado dos filhos.

– Olha que eu reclamo para o meu pai! E você é demitido!

Como resultado, há quem se forme mal sabendo escrever o nome.

Desafios são árduos, mas sem eles as novas gerações nunca vão imaginar um pingo d'água no telhado, dar uma cambalhota ou tentar entender a evolução das espécies. Como eu fiz, e garanto: valeu a pena!

 

VEJA on-line | Veja São Paulo | Veja Rio | Veja Curitiba
Veja BH | Veja Fortaleza | Veja Porto Alegre | Veja Recife
Edições Especiais | Especiais on-line | Estação Veja