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Ivan
Angelo
Leilões
e feiras
O
melhor é o que não está à venda: o calor
humano
Um
amigo conta-me entusiasmado que comprou num leilão a camisa
do primeiro uniforme usado pelo Corinthians, de 1910. Ela veio de
pai para filho por três gerações, até
esbarrar num trineto palmeirense, que se desfez rapidinho da herança
indesejada, por um bom dinheiro.
E sabem onde foi esse quem dá mais? Na internet. Meu amigo
gosta de relíquias esportivas e percorre com regularidade,
algumas vezes com avidez, os sites de leilões. Funcionam
na base do lance: você bate o olho na descrição
de um objeto que o seduz, verifica quanto o último interessado
estava disposto a pagar por ele, e faz a sua oferta. Repica, se
for o caso. Já comprou um par de luvas de boxe rachadas de
tanto socar, que disseram ter pertencido ao famoso Luizão;
uma bola de futebol chamada "de capotão", daquelas que tinham
uma abertura por onde se enfiava a câmara de ar e se fechava
amarrando por fora; uma camiseta do Oscar; um par de velhas chuteiras
do Garrincha; joelheiras de um goleiro dos áureos tempos,
chamado Batatais; tênis autografado da Paula; e por aí
vai.
Curioso, consultei os sites que ele me indicou e vi que tudo é
possível. Quinquilharias velhas e novas, às dezenas
de milhares, divididas em categorias, algumas ilustradas com fotografias,
estavam ali oferecidas a quem desse o maior lance; muitas, na verdade,
a quem desse um mínimo que fosse. Aparelhos, bíblias
em miniatura, automóveis, alimentos, filmes, fotos, quadros,
vinhos, empresas... As categorias arte e antiguidades eram as mais
extensas.
Apesar da enorme variedade, capaz de satisfazer os mais pragmáticos,
havia algo naquele leilão eletrônico que me incomodava.
Afinal, descobri o que era: faltava alma. Vida. Confrontei-o com
os mercados das pulgas de Paris, de Viena, de Nova York, de Buenos
Aires, os festivos sábados de Portobelo Road, em Londres,
as nossas feiras paulistanas de bricabraque, e concluí que
aquilo era mais uma forma moderna de isolamento, um passo a mais
na direção da impessoalidade e da frieza. Nada que
se comparasse com o prazer de andar pela Praça Benedito Calixto,
aos sábados, ou pelas feiras dominicais do Bixiga, do Masp,
do Iguatemi. Desliguei o computador e tomei o rumo do Bixiga.
Era um bonito dia de inverno, ensolarado e brilhante, mas frio,
e as pessoas tomavam chocolatinhos ou cafezinhos fumegantes para
se aquecer. Fui lá para confirmar que era aquilo mesmo que
faltava nos leilões da internet: calor, convívio,
conversa, olhares. Ali os objetos não eram itens, tinham
histórias.
Como foi que o senhor conseguiu esse gramofone?
E lá vinha um caso. Não estavam agrupados em categorias,
era tudo uma bagunça só, convidativa, estimulante.
Esparramados pelo chão ou dispostos em tabuleiros de madeira,
encorajavam o manuseio, a pergunta casual: quanto custa? Lá
estava o homem dos LPs e daqueles discos mais antigos ainda, quebradiços.
O senhor que vende cartões de chope de vários lugares
do mundo, redondos e quadrados, lindamente ilustrados. O outro,
das fechaduras antigas, que funcionam, e algumas com segredo, pois
sempre houve necessidade de esconder coisas dos maridos, das esposas,
da cobiça ou da intriga alheia. O vendedor de postais. E
o mais intrigante de todos: o vendedor de cartas. Cartas de correio,
abertas e fechadas, despachadas e não entregues, antigas
e mais recentes, em português e em línguas estrangeiras,
inquietantes missivas que não encontraram destinatário.
Uma mulher de incerta idade, simples no jeito, procurava, envelope
por envelope, alguma que tivesse o primeiro nome dela. Explicou
que nunca tinha recebido carta de ninguém, nunca, nem umazinha,
e completou:
Eu queria ter uma carta com meu nome, me sentir alguém,
sabe como?
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