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COMIDA
"My
God! Que pastel!
Que empadinha!"
O
badalado chef e escritor nova-iorquino
Anthony Bourdain fica extasiado com os
comes e bebes paulistanos
Erika
Sallum
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Ponto
Chic
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Fotos Heudes Regis
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egis
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| "Para
conhecer um país de verdade, é preciso experimentar de tudo.
Dica: vá onde haja muitos moradores comendo e, principalmente,
sorrindo. Não tem erro. Esse bauru, por exemplo, é simples mas
delicioso." |
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Bastou
uma só mordida. Assim que sentiu o suculento recheio de bacalhau
escorrendo do pastel, ele deu o veredicto: "Delicious!". Sentado
displicentemente no balcão do Hocca Bar, no Mercado Municipal,
o nova-iorquino Anthony Bourdain foge da pose que poderia ter um
dos chefs mais badalados dos Estados Unidos. Calça jeans
larga, camiseta amassada e brinco de argola na orelha esquerda,
o cozinheiro não disfarça a satisfação
em estar ali. "Sou um cara muito sortudo", diz, enquanto dá
outra dentada no quitute que faz a fama do modesto boteco há
51 anos. "Trabalho com o que mais amo na vida, a comida, e ainda
viajo o mundo conhecendo receitas maravilhosas." Bourdain não
está exagerando. Desde que se tornou uma espécie de
guru da gastronomia, ao lançar em 2000 o best-seller Cozinha
Confidencial, um ácido e bem-humorado relato do que se
passa nos bastidores dos restaurantes, ele ganhou notoriedade suficiente
para rodar o planeta dando palestras. E, claro, provando tudo o
que aparece na sua frente. De coração de cobra viva
a iguana malpassado, em países como Vietnã, Rússia,
México e Camboja. Antes de virar escritor, ele fizera sucesso
no comando de vários restaurantes de Nova York e atualmente
é chef do bistrô Les Halles.
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Hocca
Bar
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Fotos Heudes Regis
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egis
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| "As
melhores criações gastronômicas surgiram da necessidade, porque
os homens precisavam conservar os alimentos para sobreviver.
Salgaram o peixe, descobrindo o bacalhau, que hoje recheia esse
pastel tão gostoso." |
Em
uma rápida viagem a São Paulo para divulgar seu novo
livro, Em Busca do Prato Perfeito (Companhia das Letras;
346 páginas; 41 reais), e participar de eventos na Universidade
Anhembi Morumbi e no Boa Mesa, encerrado no último domingo
(21), Bourdain aproveitou para experimentar algumas famosas comidinhas
da capital. Como fez quando preparou a recém-lançada
obra, em que percorre lugares distantes à procura de surpresas
gustativas, o chef despiu-se de qualquer tipo de preconceito, frescura
ou exigência em suas andanças pela cidade. Deleitou-se
com o bauru do Ponto Chic, babou no sanduíche de mortadela
do Bar do Mané, lambeu os beiços no Rancho da Empada,
surpreendeu-se com nossa tapioca. Não deixou, obviamente,
de visitar endereços estrelados como o D.O.M. e Jun Sakamoto,
onde comeu cogumelos marinados com foie gras e sushis exóticos.
Mas, segundo o próprio Bourdain, "a melhor refeição
do mundo, a perfeita, raramente é sofisticada ou cara".
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Bar
do Mané
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Fotos Heudes Regis
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egis
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| "Que
sanduíche maravilhoso! Foi uma das melhores iguarias que provei
em São Paulo. Não é à toa que fica no Mercado Municipal. Toda
vez que chego a uma cidade, peço para ir direto ao mercado central.
Sempre encontro ótimas surpresas." |
"Esse
sanduíche de mortadela, por exemplo, contém tradição,
história. Por isso é tão gostoso", filosofa,
encostado numa cadeira do Bar do Mané, no Mercadão.
"As grandes criações gastronômicas surgiram
da necessidade, porque os homens precisavam conservar os alimentos.
Salgaram o peixe, descobrindo o bacalhau, que hoje recheia esse
pastel tão gostoso", arremata, pedindo outro copo de cerveja,
sem ligar se ainda são 9h30 da manhã. Ao fim de cada
boquinha, acende um cigarro atrás do outro. Num dia, chega
a fumar quarenta. "Quase todo chef fuma, mas muitos mentem que não",
entrega. "É uma profissão estressante demais. Fora
que tenho tendência ao vício, principalmente os orais,
como a comida", afirma. Aos 47 anos, conservando o estilo mais para
lenda do rock do que para superstar das panelas, Bourdain não
perde o rebolado nem diante do tosco trailer do Rancho da Empada.
"Ótimo. Quanto mais simples, melhor", vibra. Foi a primeira
vez que viu o salgado, que para ele lembra "um saboroso briochezinho
recheado". Diante da enorme lista de recheios, não titubeou:
pediu logo a de carne, devorada em segundos. "Odeio vegetarianos",
provoca. "Repare como vegetarianos são carrancudos, amargos.
Na verdade, eles não gostam de comida. E quem não
gosta de comer não gosta de viver."
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Rancho
da empada
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Fotos Heudes Regis
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egis
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| "Quero
uma empadinha de carne. Odeio vegetarianos, que têm medo
de tudo. Já reparou como eles estão sempre de
mau humor? Quem não gosta de carne não gosta de
comida. E quem não gosta de comer não gosta de
viver." |
Depois
de passar anos trancado trabalhando em cozinhas de Nova York, Bourdain
só quer saber agora de se aventurar (em breve, muda-se por
um ano para o Vietnã, onde pretende pesquisar costumes e
receitas locais). Não foi diferente em São Paulo.
Durante um passeio por Camburi e Barra do Sahy, no Litoral Norte,
bebeu num único dia treze caipirinhas. Em um almoço,
levou quatro horas devorando a feijoada do Bolinha, seu prato brasileiro
predileto. Ao visitar o Ceasa, traçou bolinhos de bacalhau
regados a vários copos de cachaça. E não perdeu
a chance de bebericar (mais) cerveja no bar São Cristóvão,
na Vila Madalena.
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Canto
da tapioca
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Fotos Heudes Regis
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egis
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| "Gosto
do sabor indígena da tapioca, apesar de não curtir seu toque
adocicado. Mas se trata de uma receita que contém história.
Além disso, é uma comida servida em lugares sem refinamento.
Quanto menos sofisticado, melhor." |
O
jeitão despretensioso predominou até em refeições
requintadas. Após comer uma moqueca de lagostim no Di Bistrot,
fez questão de ir à cozinha conhecer a brigada. "Cumprimentou
um por um e ainda ofereceu uma rodada de cachaça para todo
mundo", conta o proprietário, Cassio Machado. Para mostrar
as habilidades culinárias, preparou um jantar para alguns
chefs premiados da cidade, entre eles Sakamoto e Alex Atala. No
cardápio, foie gras com torradas e pêssego grelhado
e filé mignon com atemóia (uma espécie de fruta-do-conde).
"Várias vezes ele fazia divertidos paralelos entre comida
e sexo", revela Atala. O único trauma de Bourdain em sua
estada paulistana foi numa churrascaria rodízio, experiência
que promete não repetir nunca mais. "Já maltratei
muito garçom na minha carreira", confessa. "Por isso morro
de medo quando vejo um com a faca na mão."
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Bar
do Mané, Rua da Cantareira, 306 (Mercado Municipal,
Rua E, boxe 14),
228-2141. 4h/16h (fecha dom.).
Ponto
Chic, Praça Osvaldo Cruz, 26, Paraíso,
289-1480. 11h/último cliente.
Rancho
da Empada, Rua Sena Madureira, 557, Vila Clementino,
5579-5330. 10h/22h (fecha dom.).
Hocca
Bar, Rua da Cantareira, 306 (Mercado Municipal, Rua G,
boxe 7),
227-0839. 6h/17h (fecha dom.).
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