EDUCAÇÃO

Mais uma da verde-e-rosa

Empresa cria núcleo de cultura para os meninos da Mangueira

Jeitinho tímido, corpo franzino, Luiz Felipe de Carvalho, 13 anos, morador do Morro da Mangueira, sonha em ser jogador de futebol desde menininho. Mas, de um tempo para cá, anda olhando a bola de lado. Desde que tocou nas cordas de um violão pela primeira vez, na pequena sala do Ciep Nação Mangueirense, onde estuda, Luiz Felipe passou a dividir a paixão pelo esporte com a fascinação pela música. E está longe de ser o único. Como ele, Tiago Ramos se encantou pela capoeira, Igor de Souza, pelo teatro e Bruno Pereira, pelo desenho. Juntos, eles fazem parte de um ambicioso projeto que desde março ganha corpo na comunidade: o Núcleo de Cultura Nação Mangueirense — um programa de cursos e atividades culturais que pretende afinar os ouvidos, aguçar o olhar, desenvolver a criatividade e estimular a percepção e a expressão das crianças e adolescentes do morro. É uma iniciativa de 261.000 reais (previsão para o ano), patrocinada pela Xerox do Brasil, com incentivo da prefeitura e apoio do governo do Estado. Oficialmente, o núcleo irá nascer no dia 9, numa cerimônia com toda a pompa, no pátio do Ciep. Mas já envolve 800 crianças. Se tudo correr como o previsto, será a semente do futuro Centro Cultural da Mangueira — uma espécie de Vila Olímpica voltada para a formação cultural das crianças da comunidade.

Hoje, há catorze oficinas de arte, música e expressão corporal funcionando no Ciep. Algumas foram aproveitadas de um projeto anterior, outras reformuladas e uma série recém-criada. Cada professor, entre convidados de fora e integrantes da comunidade, recebe um salário médio de 300 reais. Organizadas em diversos horários, de manhã e à tarde, elas oferecem aulas de artesanato, desenho, capoeira, cavaquinho, confecção de instrumentos, dança de salão, street dance, canto e coral, percussão, violão, teatro, reaproveitamento de papel, teoria musical e contrabaixo. Nas próximas semanas começam as oficinas de criação e expressão corporal, esta última comandada pelo professora Letícia Teixeira, veterana da consagrada academia de dança contemporânea de Angel Viana. Até o fim do ano, vinte opções vão ser oferecidas às crianças, entre elas aulas de criação literária. E uma programação extra, que inclui workshops, debates, palestras, visitas a museus, espetáculos, shows e apresentação de trabalhos no fim do curso. A idéia é dar às crianças da favela as oportunidades que meninos de classe média têm em cursinhos e atividades fora da escola.

A iniciativa do projeto foi da Xerox, antiga patrocinadora dos programas da favela. Começou apostando no esporte com a Vila Olímpica, que surgiu em 1987. Depois investiu em trabalho, com o Camp Mangueira, que tem convênio com empresas para empregar jovens da comunidade. Agora chegou a vez da cultura. A proposta nasceu do sucesso da Casa do Zezinho, uma iniciativa semelhante na região de Campo Limpo, Zona Sul de São Paulo, que atende 300 crianças e tem mais de 400 na fila de espera. A Xerox encomendou um projeto na mesma linha ao produtor Pedro Nin e à arte-educadora Sueli de Lima, da produtora cultural Moledo. Depois de várias visitas à comunidade, eles voltaram à empresa com a idéia do núcleo. "Concluímos que deveríamos estar engajados no trabalho com educação e cidadania de maneira geral, disseminando outros valores que são fundamentais na formação do indivíduo. Estamos apostando muito na idéia do núcleo de cultura e queremos mais parceiros com a gente", diz José Pinto Monteiro, diretor de assuntos corporativos da Xerox. O objetivo do programa é ambicioso. "Queremos permitir que essas crianças venham a competir em condições de igualdade com os nossos filhos. E, olha, se dermos oportunidade a essa garotada, sai de baixo", completa Monteiro. A empresa já procura um terreno para abrigar o futuro centro cultural. Sete áreas próximas ao Ciep estão na mira da companhia, entre elas a antiga fábrica da Kibon e o prédio em que funcionava o IBGE. "Essa negociação está bem adiantada", conta o diretor. Por enquanto, o núcleo continua dentro do Ciep, vizinho à Vila Olímpica.

Não é a primeira vez que Sueli de Lima trabalha com comunidades pobres. Já ajudou a falecida artista plástica Celeida Tostes em um núcleo de cerâmica no Morro do Chapéu Mangueira e deu aula para crianças repetentes de uma escola do Vidigal. Ela sabe bem os efeitos que um projeto como esse costuma provocar nas crianças. "A resposta é surpreendente. Os meninos têm uma vontade de aprender enorme e, estimulados, virão a se tornar ativos produtores de cultura. O que fazemos é ensiná-los a expressar-se a partir de linguagens artísticas diferentes e desenvolvemos a auto-estima deles", afirma Sueli, que coordena o núcleo ao lado da diretora do Ciep, Teresinha Labruna. "Daremos oportunidades que vão além do samba e do esporte, ampliando os horizontes da garotada", aposta o produtor Pedro Nin.

O sucesso tem sido tanto que algumas oficinas — como a de capoeira e street dance — já não têm vagas. E a notícia já ultrapassou os limites do morro. "Outro dia a mãe de um menino que mora na Vila da Penha ficou sabendo e ligou para cá louca para matricular o filho. A princípio só iríamos aceitar alunos do Ciep, mas não tivemos como dizer não. Aqui na Mangueira é a mesma coisa. Há crianças matriculadas em quatro oficinas", conta Teresinha. É o caso de Karen da Silva Mendes, 11 anos. Recém-chegada ao Ciep, a menina tem aulas de desenho, artesanato, coral e violão. "Quero fazer tudo. Se eu estivesse em outro lugar, não ia ter essa chance. E não ia poder pagar para fazer", diz. "Assim a gente ocupa a mente. É bom para evitar que alguém daqui acabe fazendo bobagem por aí", reconhece Michelle Apolinário de Oliveira, 12 anos, aluna nova nas oficinas de coral, artesanato e dança de salão. Bruno Pereira, 12 anos, aluno de desenho, também novato no Ciep, é um dos poucos que chegaram a ter aulas num cursinho. Mas foi obrigado a desistir. "Era pago e ficava longe da minha casa. Não dava para ir", lembra o menino. "Minha mãe sempre me disse que eu podia ser desenhista. Agora, vou estudar e virar um", afirma.

Não são só os alunos que vibram. Os professores das oficinas também estão descobrindo um prazer sem precedentes. "Juntos, estamos constatando nosso poder de transformação, de partir do nada para construir muito", diz o folclorista Corsário França, que comanda a oficina de confecção de instrumentos. Na sala em que dá aulas — a menorzinha do projeto —, Corsário ensina a garotada a botar a mão na massa, buscando na sucata a matéria-prima para a música. Com pedaços de madeira abandonados, faz um xilofone. Com um garrafão de água vazio, uma espécie de tambor. Bruno, o menino desenhista, também assiste às aulas de Corsário. "Gosto muito. É bom saber que a gente pode fazer sozinho um instrumento. Não imaginei que eu conseguisse", surpreende-se.

Paralelamente às oficinas, o núcleo irá engajar-se num projeto de reconstituição da memória da própria comunidade. Em meados do ano deve ter início o programa O Velho Novo, exercício de documentação das histórias da Mangueira. Juntas, as crianças irão pesquisar os antigos costumes, características, peculiaridades e personalidades do local. E terão lições de vídeo, foto e texto para documentar o material. "Vamos escrever a história da comunidade da Mangueira e do Rio, por extensão, a partir das próprias crianças e adolescentes", conta o diretor da Xerox. A maioria dos alunos do núcleo ainda nem sabe o que está por vir. "O que está acontecendo agora é o embrião disso tudo. Ainda estamos começando a seduzir as crianças", diz Sueli.

Não há dúvida de que a isca foi mordida. Na última terça-feira, enquanto o sol castigava a área do Ciep, uma turma de vinte alunos assistia animada ao filme Mudança de Hábito, em que a atriz Whoopi Goldberg ensina um grupo de freiras desafinadas a cantar. Cada vez que a atriz entrava em cena, eles iam atrás, repetindo os versos. Duas horas depois, recomeçaram a cantoria, exercitando o ritmo com palmas. Saíram da sala exaustos, é claro. Mas os olhinhos brilhavam. "Sempre tive vergonha de cantar. Mas não vou ter mais", dizia Greiciane de Souza, 11 anos, risonha e tagarela até dizer chega. "Eu sei que a gente ainda está começando, mas acho que isso vai ser muito bom para mim. Não sei se você sabe, mas eu sempre quis ser cantora", afirma, inflando o peito. Agora tem pelo menos a chance de tentar.

FÁTIMA SÁ

Aulas variadas:

violão, desenho,

confecção de

instrumentos e

street dance

Os coordenadores Pedro e Sueli:

chance rara para os meninos

FOTOS ANDRÉ NAZARETH/STRANA

Teresinha: recebendo alunos

até de fora da Mangueira

FOTOS ANDRÉ NAZARETH/STRANA

Cotação: a capoeira

é tão procurada que

já tem fila de espera

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