Dentro da Câmara

O que acontece no Palácio Pedro
Ernesto e como atuam seus ocupantes

Fátima Sá e Rubiana Peixoto*

 
Selmy Yassuda

Erguido em 1923, o Palácio Pedro Ernesto, que abriga a Câmara dos Vereadores, é um baú de histórias, quase todas desconhecidas. Passada a eleição, que acontece novamente no próximo dia 1º de outubro, o vereador é o primeiro candidato a ser esquecido, e a rotina da Câmara mergulha de novo na bruma, segue a distância, longe dos olhos do eleitor. Não deveria. A Câmara consome anualmente 130 milhões de reais. Para o ano que vem, o Legislativo carioca está pleiteando 20 milhões de reais a mais. É uma máquina cara e problemática. São quase 2.000 funcionários, aluguel de salas (veja quadro), uma reforma polêmica que se arrasta como obra de igreja e uma rede de computadores anos-luz atrás da rapidez proporcionada pela informática. Na Diretoria de Comissões, há infiltrações nas paredes. Os elevadores nem sempre resistem ao sobe-e-desce.

Entre as polêmicas financeiras, a obra da Câmara é a mais obscura. Começou em 1994 e previa a reforma do palácio e do prédio anexo, onde ficam os gabinetes dos vereadores. Cinco anos depois da licitação, a obra foi embargada. Está parada até hoje. O anexo vem sendo reformado em ritmo lento. E, passadas duas legislaturas, ninguém arrisca precisar quanto já foi gasto, reforçando a fama que rendeu ao Pedro Ernesto o apelido de "Gaiola de Ouro" quando foi construído. Na época, o prédio custou mais que o dobro do que foi gasto para fazer o Teatro Municipal.


Sérgio Amaral

Gusmão: "Só se votou bobagem e o que interessava ao prefeito ou a empresários"


O consumo de dinheiro é só um motivo para ficar de olho na Câmara. O outro é a produção. A cada ano, são centenas de projetos. No plenário da Casa votam-se obras importantes, alterações na cobrança de impostos e o próprio orçamento da prefeitura. De 1997 a 1999, por exemplo, os vereadores assinaram documentos polêmicos, como o da criação do Shopping do Flamengo, estabeleceram leis curiosas, como a do Macumbódromo, e distribuíram uma porção de nomes de rua e títulos (veja quadros). "Só se votou bobagem", acusa Fernando Gus quadros). "Só se votou bobagem", acusa Fernando Gusmão, do PCdoB, novato na Casa.

Apesar das diferenças, todos concordam num ponto: poucos eleitores sabem o que ocorre acima das escadarias da Câmara. "A maioria não tem idéia do que acontece aqui", reconhece a líder do governo, Rosa Fernandes, do PFL. Mesmo quando há interesse, acompanhar com rigor o funcionamento da Câmara é tarefa difícil. Há anos se discute a possibilidade de implantar um canal de televisão, nos moldes da TV Senado, para transmitir as sessões. A proposta é defendida por vários vereadores, mas não sai do papel. "Não interessa a muitos colegas dar transparência à Casa", argumenta Índio da Costa, vereador do PTB. A página oficial da instituição na internet contém informações genéricas ou apenas ementas de leis. Resta como único canal real de comunicação com o exterior o Diário da Câmara Municipal, que mantém linguagem técnica, assuntos espalhados por edições variadas e meandros que nem alguns antigos funcionários da Câmara sabem decifrar.

De janeiro de 1997 a dezembro de 1999, houve quarenta sessões extraordinárias a mais do que ordinárias. A extraordinária acaba substituindo a ordinária, com um detalhe: na ordinária se votam primeiro os projetos mais antigos e os mais complexos. Na extraordinária a pauta é definida pelas lideranças. A maioria decide o que quer votar, passa o rolo compressor e consegue aprovar. Outro problema: a relação de parentes de vereadores em cargos de confiança do prefeito, para muitos, compromete a independência entre os dois poderes. A mulher do presidente da Câmara, Teresa Bergher, é subprefeita de Copacabana. O irmão do vereador Chico Aguiar (PSC), Nelson Aguiar, é subprefeito da Tijuca. André Ferraz, administrador regional do Méier, é filho do vereador S. Ferraz (PSC), e Leila do Flamengo (PFL) tem o filho na subprefeitura do Flamengo.

Fora do plenário, a rotina dos vereadores, procurados por uma infinidade de pessoas em busca de ajuda, atende a alguns perfis básicos. Há aqueles especializados em criar projetos de lei, que acumulam muitas idéias, como o vereador Otávio Leite. Há, também, os assistencialistas, que mantêm centros sociais em seus redutos eleitorais, dão dentaduras, óculos, consulta médica, assistência jurídica. Entre os vereadores com centros sociais estão Jorge Pereira (PFL), que tem um na Ilha do Governador; Bergher, na Favela da Maré; Janualdo da Mardil (PMDB), em Jacarepaguá; e Lucinha (PSDB), em Campo Grande. E os que, apesar de afirmarem não ter centro social, vivem do assistencialismo. "Passo os dias ajudando pessoas. Elas vêm ao meu gabinete pedir ajuda. Às vezes só querem comida, às vezes um favor maior. É o que eu mais faço", conta o cantor e vereador Agnaldo Timóteo (PPB). A lista de tipos inclui, por fim, os vereadores que cobram investimentos para suas áreas, esmiúçam os atos do Executivo e legislam, tudo ao mesmo tempo. "Mas que ninguém se iluda. Ninguém chega aqui paladino. O político tem muito a ver com o artista. A maioria se candidata por vaidade", diz Jorge Pereira. O eleitor espera que não.

 

A Câmara

Vereadores: 42

Funcionários:
1.899 (1 173 fixos e 726 comissionados. Destes, 672 estão lotados em gabinetes de vereador)

Salários:
Mínimo R$ 1 780,20
Máximo R$ 7 146,25

Estrutura:
Palácio Pedro Ernesto
Edifício anexo ao palácio (53 salas)
28 salas na Praça Marechal Floriano, 51
Uma sala na Rua Ubaldino do Amaral, 90

Orçamento:
Executado em 1999 – R$ 138,6 milhões
Aprovado para 2000 – R$ 129,7 milhões
Previsto para 2001 – R$ 151,8 milhões

* Principais despesas em 1999:
Folha de pagamento – R$ 91,2 milhões
Serviços terceirizados – R$ 15 milhões(incluindo tarifas públicas, limpeza, seguro, telefonia e aluguel de salas)
Obras e infra-estrutura de informática – R$ 8,3 milhões
Material de escritório – R$ 1,8 milhão

* Valores estimados pela Câmara na proposta orçamentária de 1999.

 

Os vereadores

Direitos
Salário: R$ 4 500,00
Cargos: cada gabinete pode contratar até vinte funcionários

Gasolina: cada vereador ganha até 800 litros em vale combustível
Correspondência: cada gabinete tem direito a 1 000 selos por mês

Extra: cada vereador ganha um
14º salário como "auxílio paletó"

Deveres
Comparecer a pelo menos dois terços das sessões ordinárias (de terça
a sexta, das 14h às 18h)
Criar leis
Fiscalizar os atos do Poder Executivo
Votar matérias de interesse
da cidade
Encaminhar reivindicações populares aos órgãos competentes

 

As polêmicas

O prefeito encaminhou para a Câmara projetos controversos. Veja abaixo os temas mais polêmicos:

Shopping do Flamengo – A construção do Flamengo Plaza Shopping, megaempreendimento com 200 lojas, foi alvo de uma enxurrada de protestos. E ainda lançou sobre os vereadores a suspeita de recebimento de propinas. O projeto previa que o shopping seria erguido na área ocupada pelo estádio do clube, no Leblon, que pertence ao governo do Estado e foi cedida, em 1927, para uso exclusivo em atividades esportivas. A idéia chegou à Câmara no governo César Maia. Foi retirada e reapresentada no início do governo Conde. Voltou a tramitar em 9 de abril de 1997. Obteve pareceres rápidos das comissões da Câmara e foi posta em votação no dia 28 de maio, numa sessão marcada por bate-boca entre a oposição e a base governista. Seus mais fervorosos defensores eram Jorge Leite (PFL) e Agnaldo Timóteo (PPB). Os maiores opositores, Edson Santos e Eliomar Coelho (PT), o falecido Lysâneas Maciel (PDT) e Otávio Leite (PSDB). Temia-se pelo impacto no trânsito, pela sobrecarga do esgoto. No dia 19 de junho, o projeto foi aprovado. No fim do ano passado, atribuiu-se ao empresário José Isaac Peres, sócio do empreendimento, a insinuação de que a aprovação na Câmara lhe teria custado muito dinheiro. Peres negou. Mas, pressionado, o governador Garotinho vetou o shopping.

 
André Durão

O campo do Flamengo: shopping vetado

Apart-hotéis – A lei, aprovada em outubro do ano passado, permite a construção de aparts com área de 30 metros quadrados, uma vaga de garagem para cada dois apartamentos e a possibilidade de um gabarito de até quinze andares. O projeto foi aprovado por cinco comissões. O único parecer desfavorável foi o do vereador Eliomar Coelho. Em outubro, foi aprovado por unanimidade. Os efeitos da lei só foram sentidos meses depois, quando terrenos em pontos nobres da cidade passaram a ser disputadíssimos e começaram a chover licenças para os novos empreendimentos. Depois de muita polêmica, os vereadores decidiram criar uma nova lei, alterando a anterior. Não houve consenso e o projeto parou. É pouco provável que seja votado antes da eleição; portanto, a lei continua valendo.

Desconto de IPTU para hotéis – O projeto foi votado com uma agilidade rara. Numa mesma noite, em julho deste ano, a matéria foi apreciada duas vezes. Pela lei, os descontos, que beneficiam todos os hotéis da cidade (excluídos aparts e motéis), são escalonados. Em 2001, eles terão redução de 55%, caindo 5% a cada ano até 2004, quando serão de 40%.

Concessões de ônibus – Em 1997, a Câmara aprovou projeto de emenda à lei orgânica que permitia à iniciativa privada explorar serviços públicos por até cinqüenta anos. A oposição conseguiu aprovar uma emenda que excluía os ônibus dessa lista, estabelecendo às empresas do setor um limite de dez anos. Um ano depois, porém, a Câmara aprovou lei complementar que isentava as linhas de ônibus de licitação e prorrogava as atuais permissões por tempo indeterminado. O prefeito vetou as prorrogações. O veto foi derrubado, inclusive por vereadores da bancada governista. A oposição classificou de jogo de cena, mas o prefeito negou que houvesse acordo. A bancada do PT entrou na Justiça contra a dispensa de licitação. O caso ainda não foi julgado.

IPTU de 2000 – Em novembro do ano passado, o prefeito enviou projeto fixando alíquota única de cobrança do IPTU. Com a mudança, imóveis da Zona Oeste e dos subúrbios da Central e da Leopoldina teriam um aumento significativo no valor do imposto. Acordo entre a base governista e a bancada do PT aprovou emendas que previam descontos para proprietários de terrenos de até 20 metros quadrados nessas regiões, donos de lojas de até 150 metros quadrados e moradores de apartamentos de até 300 metros quadrados, exceto na orla. O prefeito reclamou. Depois de muita negociação, fixou-se a alíquota em 1,20%, com fatias de redução para contribuintes que sairiam muito prejudicados.

 

Dois projetos polêmicos já deram entrada na Câmara, mas ainda não foram apreciados:

Parques temáticos – O projeto prevê isenções fiscais até 2004 para os parques temáticos.

PEU de São Cristóvão – O Plano de Estruturação Urbano (PEU), que fixa leis urbanísticas para São Cristóvão, Benfica e Barreira do Vasco, chegou à Câmara em julho. Está prevista autorização para apartamentos de 24 metros quadrados, ainda menores que os apart-hotéis.

 

As abobrinhas

Discute-se de tudo na Câmara. De questões fundamentais para a cidade a assuntos exóticos. Um dos mais inusitados projetos aprovados nesta legislatura ficou conhecido como Lei do Macumbódromo. Disposto a evitar "os danos causados à vegetação", o vereador Chico Aguiar (PSC) propôs a criação de áreas específicas para o acendimento de velas na cidade. Ele pregava que fosse "reservado local aparelhado, nas áreas de maior procura pelos fiéis, para a realização das oferendas". O projeto foi apresentado em maio de 1998 e virou lei um ano mais tarde. Os vereadores também se preocupam em agradar as suas bases eleitorais com pequenos mimos. O vereador Áureo Ameno (PFL), preocupado com a torcida vascaína, apresentou em setembro de 1997 o projeto de criação do bairro Vasco da Gama, nas redondezas do estádio do time, em São Cristóvão. Os colegas aprovaram a idéia. Também foi bem recebida a Lei das Bandeiras, de autoria do presidente da Câmara, Gerson Bergher (PFL). Preocupado com o "civismo", o "fortalecimento da cidadania" e o "colorido agradável" da cidade, o projeto do vereador obriga as repartições públicas e escolas municipais a hastear diariamente a bandeira do Brasil, a do Estado e a do município. Durante a noite, as bandeiras têm de estar "devidamente iluminadas". O projeto foi apresentado em 1997 e virou lei em junho do ano passado.

Propostas assim fazem parte da rotina da Câmara. Mais da metade de todos os projetos de vereadores que viraram lei entre 1997 e 1999 se referem a novos nomes para áreas públicas; concessões de títulos de utilidade pública (que podem até isentar entidades de pagamento de IPTU, caso elas tenham atividades de educação cultural ou artística); leis autorizativas, que apenas asseguram à prefeitura o direito de fazer algo, como teatros, viadutos, praças, mas não garantem que a intenção saia do papel; e novas datas comemorativas no calendário. Nesta legislatura as concessões de título de utilidade pública beneficiaram, entre outras, a Federação de Pára-Quedismo e o Sindicato dos Lojistas do Comércio.

 

* Colaborou Fabio Brisolla

 

Veja on-line | Veja São Paulo | Veja Rio | Comer e Beber