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CRÔNICA
Sorria, você está
num museu!
Tutty Vasques
Vida
de cronista é um inferno. Está difícil, caros
leitores, muito difícil escapar do lugar-comum que andam
sussurrando no breu das tocas. Vocês sabem do que estou falando:
todo dia o noticiário nos incita à ladainha dos indignados.
É preciso resistir à tentação de virar
porta-voz do que estão falando alto pelos botecos: "basta!",
"assim não dá!", "onde vamos parar?", "a situação
está fora de controle", "é o fim do mundo", enfim,
o famoso estado de coisas a que chegamos, o tal lugar-comum que
anda nas cabeças, anda nas bocas.
O que será que será
que resta dizer quando não se quer falar no que não
tem conserto nem nunca terá? O pior é que o queixume
faz um sucesso danado: o leitor ô raça!
adora quem dá forma escrita ao senso comum do pessimismo.
Soa verdadeiro, autêntico e corajoso declarar que não
dá mais para viver no Rio de Janeiro, que o Brasil não
tem governo nem nunca terá, a conversa mole de sempre.
Nessas horas o melhor é
ir buscar inspiração lá fora, deixar-se surpreender
pela cidade que, basta olhar a paisagem em volta, não é,
positivamente, lugar comum. Lá fui eu, do CCBB vizinho da
Candelária ao Sesc Copacabana, dia de luz, festa de sol,
lagoa, mar, baía, uma tarde inteira no circuito mais popular
e democrático do balneário, experimente só
dar uma olhada no roteiro cultural de museus e galerias. Na semana
passada, contei 21 opções grátis de programas
do gênero, alguns instalados em raros templos cariocas do
Primeiro Mundo das artes.
A tal "cidade partida" que Zuenir
Ventura diagnosticou há mais de uma década parece
sarada nas mostras e exposições em cartaz no Rio de
Janeiro. Vêem-se muito mais negros e suburbanos hoje em eventos
de artes plásticas do que em teatros, por exemplo. A paisagem
humana é por vezes mais brasileira na Casa França-Brasil
do que num multiplex desses qualquer.
O carioca como ele é
alô, alô, Realengo, aquele abraço! está
exposto na instalação Auto-retrato Falado,
cujo resultado vai tomando as paredes do estande montado no foyer
do CCBB. O projeto do multimídia Jair de Souza convida o
público a construir a própria imagem a partir de 8
000 elementos faciais captados no rosto de 1 000 pessoas de todas
as idades, sexos e origens fotografadas uma a uma, seletivamente,
nos quatro cantos da cidade. Um trabalho cão para uma experiência
que está se revelando fantástica na prática.
Funciona assim:
O participante é chamado
a uma cabine onde é fotografado por uma webcam e, com auxílio
de operadores de um software de retrato falado, vai montando na
tela do computador como imagina seu contorno do queixo, o desenho
da boca, o nariz, o cabelo, só de olhos são mais de
1 500 pares a escolher. O processo dura vinte minutos e, no final,
o auto-retrato falado é impresso ao lado da foto real em
um postal.
Ainda que você não
queira participar, vale a pena conferir o mural da mestiçagem
que vai tomando conta da instalação. Alguns ficam
parecidíssimos, outros bem mais bonitos, há também
quem mude de sexo, de identidade, de cor... Um andar acima, o museu
oferece as mostras China Hoje e Instantâneos da
Felicidade (Coleção Maison de la Photographie
de Paris), tudo de graça. Do outro lado da rua, na Casa França-Brasil,
passei uma boa meia hora tentando entender o processo criativo do
francês Georges Rousse em suas fotos de intervenções
artísticas em ambientes arquitetônicos, um negócio
louquíssimo.
Programão que pode se
estender sem custos por muitos outros espaços de arte espalhados
pela cidade. Optei por aproveitar o tempo que restava até
o pôr-do-sol para dar uma olhada na estranha sensualidade
das fotos de Irina Ionesco (Espelhos de Luz e Sombra), cartaz
da galeria Sesc Copacabana, e nem sei se fiz a melhor escolha. Tinha
a Foto-Rio 2007, no Centro Cultural Justiça Federal,
com onze individuais de craques como Rogério Reis e Cássio
Vasconcelos, mais a pintora Vera Fischer em Botafogo, Portinari
no Moreira Salles, Valéria Costa Pinto na Casa do Saber...
Faça você o seu
roteiro e, ao voltar para casa, experimente a sensação
de que o Rio de Janeiro do noticiário esse que não
tem vergonha, decência ou juízo é mera
ficção. Ou não seria habitado por esse povo
educado que a gente encontra quando visita o mundo das artes plásticas.
Pode até não ser bem assim, museu não é
exatamente marca registrada do lugar onde vivemos, mas é
um santo remédio para a auto-estima ferida do carioca. Xô,
depressão! Ao primeiro sinal de indignação
crônica, dê um pulinho no CCBB. É tiro e queda!
A persistirem os sintomas, procure um médico.
e-mail: tutty@nominimo.com.br
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