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PERFIL
Patrimônio
de família
Filha
de Lúcio Costa vai presidir Iphan
Lívia de Almeida
Bruno Veiga/Strana
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| Elisa
Costa: por um Iphan com menos burocracia |
Maria Elisa Costa nasceu e cresceu convivendo com um ilustre personagem.
Era um tal de "patrimônio", assunto que não saía
da pauta das conversas entre o pai, o arquiteto Lúcio Costa,
e seus amigos. Gente que freqüentava a casa, como os poetas
Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira e o escritor Mário
de Andrade, que, juntos, ajudaram a dar partida, em 1937, ao Serviço
de Patrimônio, presidido por Rodrigo de Melo Franco. "Patrimônio,
para mim, era como se fosse uma pessoa da família", recorda
a arquiteta, recém-indicada pelo ministro da Cultura, Gilberto
Gil, para assumir justamente a presidência do Iphan, sucessor
do Serviço de Patrimônio. "Tudo começou com
um grupo de gente moça e apaixonada. O tempo foi desbotando
esse projeto, criando uma estrutura interna confusa, burocratizada,
com superposição de tarefas. Quero abrir as janelas
e recuperar um pouco daquela paixão", diz Elisa, que chegou
a fazer parte da Comissão Especial do Patrimônio de
1996 a 1998.
Moradora
do Leblon desde o tempo em que o prédio de cinco andares
construído pelo pai parecia um espigão em meio a um
areal, Elisa tem credenciais para encarar a tarefa de desburocratizar
o Iphan. É do tipo que gosta de botar a mão na massa
em vez de gastar muito latim com teorias. "Nunca quis montar um
escritório de arquitetura. Ia ter de sair correndo atrás
dos projetos e não ia ter tempo de fazê-los", conta.
Seu primeiro trabalho, recém-formada, foi no desenvolvimento
do projeto de urbanização de Brasília. "Acompanhei
meu pai enquanto ele desenhava os contornos e inventava nomes, como
Praça dos Três Poderes e Esplanada dos Ministérios",
conta. Depois passou quatro anos na França, acompanhando
o marido, Eduardo Sobral, no exílio, onde nasceu sua única
filha. Hoje tem três netas, com 16, 14 e 3 anos.
De volta ao Brasil, fez casas no Itanhangá e em Búzios,
projetos de preservação do patrimônio natural
na Chapada dos Guimarães, cenografia do filme O Mágico
e o Delegado e, nos últimos cinco anos, esteve envolvida
com a revitalização do campus da Universidade Regional
do Cariri, no Crato, Ceará. "Descobri um Brasil que o litoral
não conhece. Quem imaginaria, por exemplo, que há
tantas flores no Crato?" Nunca se filiou a partido político.
O ministro da Cultura é seu conhecido há 25 anos.
O primeiro contato aconteceu durante uma viagem a Lagos, na Nigéria.
"Ele estava indo para um festival de música, e eu levava
um projeto de meu pai", recorda-se. Dessa viagem, lembra um momento
emocionante. "Foi quando Gil viu pela primeira vez um menino africano
tão preto que chegava a ser azul-marinho e se deu conta de
quanto era mestiço", recorda.
Elisa vai dividir sua semana entre o Rio "minha âncora
emocional" e Brasília para dirigir uma estrutura que
se espalha pelo país inteiro cuidando de milhares de bens
tombados e museus. Só na cidade, o Iphan administra oito
instituições: os museus de Belas Artes, da República,
Histórico Nacional, Villa-Lobos, Chácara do Céu,
do Açude, Paço Imperial, além do Imperial,
em Petrópolis. "Essas instituições são
um braço de comunicação com a sociedade. Não
pretendo mudar sua direção, por enquanto. Elas estão
funcionando bem. Não faz sentido mexer só por um capricho",
diz.
Os museus do Iphan viveram um momento de grande renovação
na década de 90, mesmo sem nunca deixar de lutar com a falta
de recursos. O Belas Artes, dirigido há doze anos por Heloísa
Lustosa, aumentou sua área de exposições de
2.000 para 10.500 metros quadrados. Recebeu exposições
internacionais, como as de Monet, Rodin e Dalí. Outro importante
espaço cultural da cidade, o Paço Imperial, tinha,
no máximo, 2.000 visitantes por mês no início
da década de 90. Trabalhos de climatização
permitiram que a instituição passasse a abrigar exposições
de nível internacional, como o evento sobre o expressionismo
alemão, a que mostrou peças da Coleção
Ghelman, e, em outubro do ano passado, a de obras do acervo da Tate
Gallery, de Londres. "A proposta de desburocratizar e manter os
museus em uma linha mais direta com a presidência do Iphan
foi coisa que nós, diretores, sempre quisemos", afirma Vera
Tostes, diretora do Museu Histórico Nacional há oito
anos.
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