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15 de janeiro de 2003
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Patrimônio de família

Filha de Lúcio Costa vai presidir Iphan

Lívia de Almeida

Bruno Veiga/Strana
Elisa Costa: por um Iphan com menos burocracia


Maria Elisa Costa nasceu e cresceu convivendo com um ilustre personagem. Era um tal de "patrimônio", assunto que não saía da pauta das conversas entre o pai, o arquiteto Lúcio Costa, e seus amigos. Gente que freqüentava a casa, como os poetas Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira e o escritor Mário de Andrade, que, juntos, ajudaram a dar partida, em 1937, ao Serviço de Patrimônio, presidido por Rodrigo de Melo Franco. "Patrimônio, para mim, era como se fosse uma pessoa da família", recorda a arquiteta, recém-indicada pelo ministro da Cultura, Gilberto Gil, para assumir justamente a presidência do Iphan, sucessor do Serviço de Patrimônio. "Tudo começou com um grupo de gente moça e apaixonada. O tempo foi desbotando esse projeto, criando uma estrutura interna confusa, burocratizada, com superposição de tarefas. Quero abrir as janelas e recuperar um pouco daquela paixão", diz Elisa, que chegou a fazer parte da Comissão Especial do Patrimônio de 1996 a 1998.


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Moradora do Leblon desde o tempo em que o prédio de cinco andares construído pelo pai parecia um espigão em meio a um areal, Elisa tem credenciais para encarar a tarefa de desburocratizar o Iphan. É do tipo que gosta de botar a mão na massa em vez de gastar muito latim com teorias. "Nunca quis montar um escritório de arquitetura. Ia ter de sair correndo atrás dos projetos e não ia ter tempo de fazê-los", conta. Seu primeiro trabalho, recém-formada, foi no desenvolvimento do projeto de urbanização de Brasília. "Acompanhei meu pai enquanto ele desenhava os contornos e inventava nomes, como Praça dos Três Poderes e Esplanada dos Ministérios", conta. Depois passou quatro anos na França, acompanhando o marido, Eduardo Sobral, no exílio, onde nasceu sua única filha. Hoje tem três netas, com 16, 14 e 3 anos.

De volta ao Brasil, fez casas no Itanhangá e em Búzios, projetos de preservação do patrimônio natural na Chapada dos Guimarães, cenografia do filme O Mágico e o Delegado e, nos últimos cinco anos, esteve envolvida com a revitalização do campus da Universidade Regional do Cariri, no Crato, Ceará. "Descobri um Brasil que o litoral não conhece. Quem imaginaria, por exemplo, que há tantas flores no Crato?" Nunca se filiou a partido político. O ministro da Cultura é seu conhecido há 25 anos. O primeiro contato aconteceu durante uma viagem a Lagos, na Nigéria. "Ele estava indo para um festival de música, e eu levava um projeto de meu pai", recorda-se. Dessa viagem, lembra um momento emocionante. "Foi quando Gil viu pela primeira vez um menino africano tão preto que chegava a ser azul-marinho e se deu conta de quanto era mestiço", recorda.

Elisa vai dividir sua semana entre o Rio – "minha âncora emocional" – e Brasília para dirigir uma estrutura que se espalha pelo país inteiro cuidando de milhares de bens tombados e museus. Só na cidade, o Iphan administra oito instituições: os museus de Belas Artes, da República, Histórico Nacional, Villa-Lobos, Chácara do Céu, do Açude, Paço Imperial, além do Imperial, em Petrópolis. "Essas instituições são um braço de comunicação com a sociedade. Não pretendo mudar sua direção, por enquanto. Elas estão funcionando bem. Não faz sentido mexer só por um capricho", diz.

Os museus do Iphan viveram um momento de grande renovação na década de 90, mesmo sem nunca deixar de lutar com a falta de recursos. O Belas Artes, dirigido há doze anos por Heloísa Lustosa, aumentou sua área de exposições de 2.000 para 10.500 metros quadrados. Recebeu exposições internacionais, como as de Monet, Rodin e Dalí. Outro importante espaço cultural da cidade, o Paço Imperial, tinha, no máximo, 2.000 visitantes por mês no início da década de 90. Trabalhos de climatização permitiram que a instituição passasse a abrigar exposições de nível internacional, como o evento sobre o expressionismo alemão, a que mostrou peças da Coleção Ghelman, e, em outubro do ano passado, a de obras do acervo da Tate Gallery, de Londres. "A proposta de desburocratizar e manter os museus em uma linha mais direta com a presidência do Iphan foi coisa que nós, diretores, sempre quisemos", afirma Vera Tostes, diretora do Museu Histórico Nacional há oito anos.

         
     
 
 
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