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CRÔNICA
A
babá
Adriana
Falcão
Ela
veio do interior. Onze irmãos. Começou a ajudar a
mãe logo cedo, tomou conta de menino, catou piolho, caiou
muro, passou fome, cortou cana. Um dia veio pro Rio de Janeiro,
"agora, sim, o negócio vai ser outro". E lavou roupa, levou
golpe, fez faxina, trabalhou em casa de madame, lustrou prata, engomou
vestido de festa, levou gato angorá em pet shop, arrumou
criança pra aula. Hoje ela cuida de uma velhinha bem velhinha
que infelizmente não sai mais da cama. Logo no primeiro dia
de serviço avisaram que dona Diva não falava. Porque
duvidou disso, ela foi logo puxando conversa.
A senhora tem cara de quem gosta de sorvete.
Breve silêncio.
A mocinha falou comigo?
Falei que a senhora tem cara de quem gosta de sorvete.
Gosto muito do de pistache porque é verde.
Com casquinha de biscoito?
E muita calda por cima. O Major sempre me trazia, quando
chegava da rua. Ele nunca deixou de me trazer nem que fosse um bombonzinho,
um perfuminho, uma margarida...
A partir de então, dona Diva fala o dia inteiro.
Quantos anos eu tenho mesmo?
91.
Mentira sua.
Agora, sim, ela aprendeu. Sempre que a patroa pergunta a própria
idade, ela responde "5". Ou 12. No máximo, 20. A velhinha
fica feliz da vida.
Tão engraçadinha essa menina.
Não é menina, dona Diva, é o cachorro.
Vocês pensam que me enganam.
O cachorro da casa passou a ser uma menina pra agradar dona Diva,
que nunca gostou muito de cachorro. Precisa ver como ele fica lindo
de lacinho e de vestido.
Você não vai me levar pra escola hoje?
É mesmo. Que burrice a minha. Vou só engomar
seu uniforme primeiro.
Você é muito demorada.
A senhora é que não imagina o trabalho que
dá pra passar aquela saia, prega por prega.
Mentira nem sempre é mentira de verdade. Esse tipo de filosofia,
ela aprende no dia-a-dia.
Vá tomando seu suquinho enquanto eu vou buscar a toalha.
Pensa que eu não sei que você bota remédio
dentro? E pode esquecer o banho.
Além de babá, ela passou a acumular as funções
de enfermeira, mágica, diplomata, carteiro e autora de cartas
fictícias.
Olha o que acabou de chegar: carta de Alzira, sua amiga de
infância.
Finalmente. Cadê meus óculos?
Deixa que eu leio pra senhora. "Querida Diva, por aqui está
tudo bem, graças a Deus..."
(Desde a II Guerra dona Alzira não dá notícias.)
E cadê Olavinho, que nunca mais apareceu?
Tá ótimo. Bonito. Gordo. Mandou avisar que
na semana que vem aparece sem falta.
(Olavinho não dá as caras há mais de trinta
anos.)
Não está na hora do meu balé?
Seu balé não é hoje não, dona
Diva. É dia de terça e quinta.
Quando esquece as coisas, a velhinha fica tão triste que
não custa nada dar uma mãozinha.
Eu preciso telefonar pro... pra... pro...
Pro seu professor de piano.
Que professor de piano, menina! Eu preciso telefonar pra...
Pra costureira?
Já disse que não.
Claro que não. A senhora precisa ligar pro seu avô,
que hoje é aniversário dele.
Você quer parar de me atrapalhar? Eu já lembrei.
Preciso telefonar pro Major pra saber se ele vai atrasar pra janta.
(O Major morreu em 1969.)
Pode deixar que eu ligo. (Disca um número qualquer.)
Só dá ocupado.
Quantos anos eu tenho mesmo?
16.
Então deixa pra lá. Com 16 eu não conhecia
o Major ainda.
É mesmo. Que burrice a minha.
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