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14 de junho de 2006

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CRÔNICA
  

CRÔNICA

Helena, Helenas

Manoel Carlos

Sempre por ocasião de uma nova novela, sou procurado para dar entrevistas sobre os temas que serão abordados, elenco escolhido, quem será o vilão etc. Faz parte do lançamento do produto, como se costuma dizer. E uma pergunta, nesses anos todos de profissão, tem estado permanentemente presente: qual a razão de eu batizar todas as minhas protagonistas com o nome de Helena?

Aqui, neste mesmo espaço, já afirmei que se trata de cacoete de autor e que não há nada de profundo ou de oculto na escolha desse nome. Agora, diante da estréia de Páginas da Vida, meu próximo trabalho, não foi diferente das outras vezes, mas com uma extensão que eu não esperava: por causa da minha crônica quinzenal nesta revista, a mesma indagação vem sendo endereçada ao cronista, por intermédio do e-mail ao pé desta página, e não apenas ao autor da novela, pelos e-mails da TV Globo. Isso significa que leitores, além de telespectadores, se interessam pela questão e fazem a mesma pergunta: por que Helena? Por que não Angela, Daisy, Juliana, Leandra, Carolina? E por estar a curiosidade, desta vez, vinculada à crônica, é através dela que eu vou responder aos leitores, mais do que aos telespectadores.

Para início de conversa, devo dizer que não tive nenhum amor com esse nome. Portanto, nenhuma Helena foi minha namorada ou mulher. Tampouco tenho na família, à exceção de uma sobrinha-neta de 10 anos, alguma outra Helena. Esse nome, na verdade, sempre esteve ligado a mim por meio da ficção. Li Helena, de Machado de Assis, muito cedo, aí por volta dos 12 anos, e mais tarde, nos anos 50, adaptei o romance para a televisão, com a personagem interpretada, se não me engano, pela atriz Maria Helena Dias. E me afeiçoei tanto ao nome que, aí pelos meus 16 anos, me aventurei a escrever um romance (vejam só!), tendo Helena como personagem principal. Para o bem da literatura o romance não vingou, mas o nome me ficou para sempre. O que há com o nome de Helena, finalmente? Respondo: para mim não existe nome feminino melhor para virar personagem. Já me parece, logo de cara, um nome fictício, que ninguém tem na vida real, ainda que eu conheça várias Helenas de carne e osso. Tanto isso não me convence que, mesmo tendo duas filhas, a nenhuma dei esse nome, achando que seria literatice da minha parte.

Mas foi quando eu me interessei por mitologia e deparei com a história da Helena de Tróia que resolvi, de vez, chamar sempre minha protagonista pelo nome da deusa. Vi no personagem mitológico a verdadeira encarnação do ser humano feminino, que carrega – vida afora – as imperfeições da sua natureza. Chamou-me a atenção encontrar uma deusa tão cheia de humanidade, tão semelhante a nós, pobres mortais. Pinçando nas várias versões que existem sobre ela, e misturando umas com as outras, no que chamarei de miscelânea mitológica, recolhem-se informações fascinantes de tão reais e de tão atuais. Para facilitar, trocarei os nomes gregos por nomes corriqueiros, do nosso dia-a-dia. Vejamos:

Helena, já casada com José, é raptada por Antonio, com seu próprio consentimento, apaixonando-se por ele. Por causa desse rapto, inicia-se uma guerra que dura sete anos, e na qual Antonio morre. Helena casa-se então com o seu cunhado João, a quem trai mais tarde, voltando a casar-se com o primeiro marido, José. As diversas versões nos dão conta de três finais para essa mulher:

1) Viveu com José até a morte, sendo enterrados juntos.

2) Sobreviveu a José e, perseguida por uma rival, foi enforcada.

3) Viúva também de José, casou-se com um novo pretendente, Pedro, com ele vivendo até a velhice.

Vocês hão de concordar comigo que isso é uma história atual, que bem poderia estar numa das nossas telenovelas. Raptos, paixões desenfreadas, traições, adultérios, perseguição e morte por ciúme. O que fica faltando? Absolutamente nada. A novela está pronta.

Se alguma Helena minha leitora, ainda que ocasional, não conhecia essa história, que dela tire proveito e alegria. Afinal, ter uma deusa como xará, que reúna tantas imperfeições humanas, é de envaidecer qualquer mulher.

Um verdadeiro presente dos deuses.

E-mails para o cronista: almaviva@uninet.com.br

     
   

 

 
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