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REPORTAGEM DE CAPA
Ecos do produtor das estrelas Com fala mansa e talento no
estúdio, Mario Caldato conquistou astros como Jack Johnson, Beck, D2 e Björk Sérgio
Garcia*
André Valentim/Strana
 | Mario
Caldato, no
estúdio: produtor
detalhista e
requisitado | Só
mesmo a atuação nos bastidores explica o fato de Mario Caldato Junior
caminhar pelo Leblon completamente despercebido. Estivesse ele acompanhado de
um de seus parceiros de trabalho, a história seria outra. Produtor de estrelas
da música, ele está por trás do rock banquinho-e-violão
de Jack Johnson, do samba psicodélico de Marisa Monte, da batida perfeita
de Marcelo D2 e do influente trio americano Beastie Boys. Já trabalhou
com a cantora Björk, com o cantor Beck, com o grupo Blur, com o blueseiro
John Lee Hooker, com os roqueiros galeses do Super Furry Animals. A lista de brasileiros
inclui Bebel Gilberto e Seu Jorge. Numa estimativa conservadora, já ajudou
a vender mais de 10 milhões de discos. "Sou como um cozinheiro, que busca
o tempero e o ponto certo do preparo. Não tenho uma fórmula pronta",
diz ele, com um carregado sotaque, pontilhado como vírgula pela expressão
"you know". Caldato nasceu em São Paulo, em 1961, mudou-se com os pais
para Los Angeles aos 3 anos e só há um ano e meio voltou a morar
no Brasil, no Leblon. Mestre, mago, papa, visionário, gênio são
os adjetivos que os artistas mais lhe atribuem. Discreto como ele só e
avesso a estrelismo, o produtor subestima sua importância e repete sempre
um dogma aparentemente óbvio, mas que encerra a simplicidade de seu tempero
sonoro: "O que importa é a música". Ou seja: efeitos, novidades
e tecnicismo têm de estar a serviço da música, e não
há produtor que dê jeito se ela for ruim.
Arquivo Pessoal
 | Com
Jack Johnson, no
estúdio do Havaí: intervalos
para ver o pôr-do-sol
| Caldato
tem um jeitão "Dalai Lama" comparação feita por Seu
Jorge e eterna fala mansa. As exceções são para acentuar
momentos marcantes de sua vida, quando então ele solta um estridente "caraca!"
que antecede a historinha. Sua primeira lembrança musical foi o órgão
Sears Silverstone que o pai comprou numa loja de departamentos de Los Angeles.
O mecânico italiano de carros Mario Caldato, casado com a dona-de-casa brasileira
Guiomar, impôs ao filho o aprendizado musical. Na casa deles, a trilha era
diversificada: Sérgio Mendes ("O mais tocado"), canções orquestrais
dos anos 50, uns italianos e até um vinil do Carequinha, xodó do
guri que os pais carregaram na bagagem. Via rádio, aos poucos ele foi conhecendo
Beatles, Doors, Beach Boys, Rolling Stones, e as aulas de piano clássico
ficaram mais e mais enfadonhas. A gota d'água para sua migração
de vez para o pop foi um tapa que a professora alemã de piano lhe deu durante
a aula. Na vizinhança do bairro em que morava, South West, de população
eminentemente negra, ele tomou contato com o som da Motown. Irresistível.
Aos 12 anos, juntou-se a dois amigos e montou uma banda cover dos Beatles. Caldato
limitava-se a fazer barulho na percussão. Metódico,
disciplinado e organizado ao extremo, ele guarda até hoje em uma das duas
casas que mantém em Los Angeles a fita cassete de seu primeiro show, improvisado
na sala, para a platéia de parentes. "Lá em casa, ele fica louco
porque os discos não estão em ordem alfabética", conta o
músico e produtor Kassin, inicialmente fã de Caldato, que depois
virou parceiro e amigo dele. A dupla se une a Ed Motta e é capaz de ficar
horas e horas numa conversa aparentemente enigmática. O assunto são
relíquias obscuras dos anos 60 e 70, como o grupo de soul Little Beaver
e a gravadora Fania, especializada em salsa. Já ouviu falar? Outra preciosidade
guardada no computador são as bases originais digitalizadas de Marvin Gaye
e Bob Marley, em que se pode ouvir cada instrumento separadamente ou os cantores
a capela. Iguaria para poucos. A casa-estúdio de Los Angeles é outro
rico acervo de quinquilharias musicais. São sintetizadores, teclados, microfones,
guitarras e mesas de som de vinte, trinta anos, além de milhares de discos
com organização de parada militar.
Divulgação
 | Beck:
parceria em algumas músicas
| "Sou
um cara dos anos 60, 70. Gosto mais de música velha. Naquela época
eles estavam num aprendizado, mexendo em tudo, experimentando", diz. A afirmação
pode induzir a pensar que o produtor seja daqueles saudosistas radicais, sem olhos
nem ouvidos para o novo. Nada disso. Boa parte da produção
musical contemporânea deriva de bossas nas quais Caldato teve participação
decisiva. A simbiose do hip hop com o rock e um certo teclado retrô que
hoje costura do rap ao som lounge devem seu tributo ao produtor, precisamente
à sua parceria mais prolífica, com os Beastie Boys. A cronologia
de como ele conheceu o trio nova-iorquino é motivo para mais alguns "caraca!".
Em meados dos anos 80 ele foi ao clube Power Tools, em Los Angeles, ver o grupo.
O som, um horror, levou o trio a desistir do show. Foi então que Caldato
se apresentou ao dono da boate com a solução para o problema acústico.
Nessa época, ele levava uma vida dupla. Aos 17 anos saiu da casa dos pais.
Para se sustentar, trabalhou oito anos como torneiro mecânico. Parte do
salário ele sempre investia em equipamentos, e assim montou um estúdio
caseiro. Durante o dia, a rotina de operário. Pela madrugada, a noite de
Los Angeles. No Power Tools, freqüentado por artistas como Andy Warhol, ele
conheceu um DJ que lhe propôs sociedade num selo de rap. Convite aceito,
eles gravaram Tone Loc, um dos primeiros rappers a estourar nas paradas. Foi o
incentivo que Caldato precisava para abandonar a fábrica. Para sua surpresa,
ganhou 9.000 dólares de indenização, rapidamente convertidos
em novos equipamentos. Em seguida, gravaram Young MC, outro estouro. Depois, a
grande tacada com os Beastie Boys, que já vinham de uma estréia
fonográfica colossal. "A gente trabalhava cinco artistas por dia. Era sinistro",
diz ele, que nessa época já havia largado de mão piano, baixo,
guitarra e percussão em prol da carreira nos bastidores.
Divulgação
 | Beastie
Boys: mais
de 2 milhões
de discos vendidos
| Caldato
gravou o segundo lançamento dos Beastie Boys, e a partir do terceiro disco
assinou a produção musical, marcando uma nova fase da sonoridade
do grupo (veja quadro). A mudança do trio
para Los Angeles ampliou o que era tão-somente trabalho para uma imensa
camaradagem. Ele passou a ser íntimo dos artistas, que alugaram uma mansão
em Hollywood Hills. "Fiquei amigaço dos caras. Eles me chamavam para tudo:
'Mario, meu carro não funciona, o teto está com vazamento'." Não
era para amadores a Los Angeles no fim dos anos 80. Ele se diverte ao lembrar
do dia em que Mike D, um dos Beastie, arrebentou o portão e uma parede
da mansão ao volante de uma Mercedes alugada. Pra lá de Marrakesh,
claro.
Otavio Dias de Oliveira
 | Seu
Jorge: "Ele é um Dalai Lama" |
Foi
justamente o trabalho com o grupo que reaproximou o produtor de seu país
natal. Em 1996 ele acompanhou a banda na turnê pelo Brasil. Desde que se
mudara para os Estados Unidos, ainda criança de colo, Caldato só
tinha estado no Brasil uma vez, aos 10 anos de idade. Foram 25 anos entre a primeira
e a segunda visita, que marcou o início do flerte com seu país natal,
relação que era restrita à idolatria pela música brasileira,
principalmente Ben Jor e Os Mutantes. O produtor fez amizade com os rapazes do
Planet Hemp, que abriu os shows da turnê do grupo americano. Retornou para
os Estados Unidos, mas em um mês estava de volta ao Rio, para produzir um
disco do então grupo de Marcelo D2. Ganhou vaga cativa no olimpo da turma
e ficou amigo do rapper a ponto de Marcelo se tornar padrinho de uma das filhas
do produtor. "Ele salvou a gente", diz o cantor BNegão, ex-Planet. "Perto
do segundo, nosso primeiro disco parece uma fita demo." As virtudes apontadas
pelos artistas vão além da tranqüilidade e paciência
perenes. "Ele é detalhista, mas sem perder o foco no global", elogia Marisa
Monte, que trabalhou com ele em Universo ao Meu Redor, a primeira produção
de samba de Caldato, com toque psicodélico. Ele, inclusive, toca guitarra
em uma das músicas, assinando discretamente nos créditos como Mario
C. Seu Jorge destaca o bom trânsito do produtor entre o universo da alta
tecnologia e o de antigamente, quando, sem tantos recursos tecnológicos,
"dava-se um jeito". "Caldato é um técnico de som formidável,
dos melhores que já vi", diz Kassin. Um aprendizado autodidata dos tempos
em que quebrava a cara abrindo sintetizadores e amplificadores e conectando a
aparelhagem em seu estúdio caseiro, no método tentativa e acerto.
Fotos Arquivo Pessoal
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 | O
produtor em dois momentos: com
o amigo e compadre Marcelo
D2 (acima), que é padrinho
de uma das filhas de Caldato.
Eles começaram a trabalhar
juntos no tempo em que o
rapper era do Planet Hemp, parceria
que perdura até hoje; e
com a mulher, Samantha, com
quem mora no Leblon
| Foi
em 1996, enfurnado no estúdio com o Planet Hemp, que Caldato conheceu a
violoncelista de Black Alien, Samantha. Dois anos depois, eles se encontraram
em Paris, onde ela compilava um disco. Mais um ano e estavam casados. "Ele é
muito tranqüilo, comedido e humilde. Nunca o vi numa atitude arrogante",
diz ela. As viagens dele pelo mundo levaram a família o casal e
duas filhas a fixar-se no Rio, um ano e meio atrás. O pai dele morreu
na época da última mudança, e a mãe mora em Las Vegas.
Quando não está em frente a mesas de som pelo planeta semana
passada embarcou para a Austrália, onde ficará um mês contratado
pelo John Butter Trio , ele gosta de ir à Praia do Leblon de manhã.
Só sai do sério, sem perder a ternura, quando a areia e o mar estão
sujos. Vegetariano desde os tempos de convivência com uma comunidade hippie
californiana, não come nada de origem animal, com exceção
de peixe. Metódico, costuma trabalhar diariamente de oito a dez horas.
Com o tempero certo para a salada de sons. *Colaborou
Telma Alvarenga
Os
toques do produtor Jack
Johnson
Caldato
produziu dois discos do cantor havaiano, On and On (2003) e In Between
Dreams (2005). Ele deu mais suavidade ao estilo de Johnson usando pequenos
instrumentos, como um chocalho em formato de ovo, comum nas rodas de samba. As
gravações foram no Havaí. "Nos fins de tarde, Jack parava
tudo e a gente ia ver o pôr-do-sol", conta Samantha.
Beastie Boys
Foram
oito trabalhos com o trio. Caldato incrementou a percussão, introduzindo
nas gravações uma levada latina inspirada em ritmos como a conga.
Oscar Cabral
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Marcelo
D2
A
parceria começou com o Planet Hemp e continua até hoje. No último
disco, Meu Samba É Assim, Caldato caprichou na mixagem com efeitos
de eco e nos breques. Marisa
Monte
O
único dueto deles foi em Universo ao Meu Redor. A dupla dividiu
a produção desse disco de samba, que é bem diferente dos
anteriores da cantora. Trata-se de um samba mais psicodélico, com o toque
acentuado dos teclados. |
Para
passar dos 80, 90... Para
aumentar a chance de passar dos 80 anos com boa saúde, é importante
começar cedo a se prevenir contra doenças como arteriosclerose,
artrose e osteoporose. Veja seis cuidados indispensáveis para ter uma velhice
saudável, segundo a geriatra Mariana Jacob
Fazer check-up anualmente a partir dos 35 anos e alimentar-se de frutas,
legumes, verduras e proteínas, reduzindo doce e gordura
Fazer atividade física, com supervisão médica. Para os obesos
e os que sofrem de artrose, os exercícios na água são os
mais indicados
Vacinar-se contra pneumonia (a partir dos 50 anos) e hepatite A e B
Usar filtro solar FPS 50, que deve ser aplicado no rosto e no corpo meia hora
antes de sair, e evitar o sol entre 10h e 16h
Sob orientação médica, após a menopausa a mulher deve
repor o cálcio, para prevenir a osteoporose
Fazer cursos para se atualizar e se socializar. Estudar línguas é
um ótimo exercício para a memória |
Boa
saúde e dinheiro no bolso
Dilmar Cavalher/Strana
 | | Néri:
idosos com alta renda |
O
Rio é o estado brasileiro onde os idosos estão mais satisfeitos
com a saúde. Divulgada há dois meses, a pesquisa Saúde da
Terceira Idade: a Fonte da Juventude, da Fundação Getulio Vargas,
mostra que 49,8% dos fluminenses que já passaram dos 65 anos dizem gozar
de boa ou muito boa saúde. São Paulo ficou em segundo lugar, com
47,37%. A média nacional é de 40,8%. O estudo, que tomou como base
dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios, do IBGE, foi coordenado
por Marcelo Néri, chefe do Centro de Políticas Sociais do Instituto
Brasileiro de Economia da FGV. Segundo
ele, uma das explicações para a boa colocação do Rio
no ranking da saúde da terceira idade é o poder aquisitivo. Os idosos
fluminenses apresentam a segunda maior renda do país. "Um fator importante
é que o Rio, como foi capital federal, tem muito funcionário público
aposentado e o nível de escolaridade da população é
alto", diz Néri. "Os idosos trazem em seus contracheques um pouco da imagem
do passado glorioso do Rio." Néri defende que a cidade assuma de vez sua
vocação de Flórida brasileira. "Deveriam ser criadas políticas
públicas e privadas para incentivar o turismo e atrair idosos de outros
estados", diz. "Do ponto de vista econômico, o retorno seria muito bom.
É um grupo com poder de compra grande." | |