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14 de junho de 2006

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REPORTAGEM DE CAPA

Ecos do produtor das estrelas

Com fala mansa e talento no estúdio, Mario Caldato conquistou astros como Jack Johnson, Beck, D2 e Björk

Sérgio Garcia*

 

André Valentim/Strana

Mario Caldato, no estúdio: produtor detalhista e requisitado

Só mesmo a atuação nos bastidores explica o fato de Mario Caldato Junior caminhar pelo Leblon completamente despercebido. Estivesse ele acompanhado de um de seus parceiros de trabalho, a história seria outra. Produtor de estrelas da música, ele está por trás do rock banquinho-e-violão de Jack Johnson, do samba psicodélico de Marisa Monte, da batida perfeita de Marcelo D2 e do influente trio americano Beastie Boys. Já trabalhou com a cantora Björk, com o cantor Beck, com o grupo Blur, com o blueseiro John Lee Hooker, com os roqueiros galeses do Super Furry Animals. A lista de brasileiros inclui Bebel Gilberto e Seu Jorge. Numa estimativa conservadora, já ajudou a vender mais de 10 milhões de discos. "Sou como um cozinheiro, que busca o tempero e o ponto certo do preparo. Não tenho uma fórmula pronta", diz ele, com um carregado sotaque, pontilhado como vírgula pela expressão "you know". Caldato nasceu em São Paulo, em 1961, mudou-se com os pais para Los Angeles aos 3 anos e só há um ano e meio voltou a morar no Brasil, no Leblon. Mestre, mago, papa, visionário, gênio são os adjetivos que os artistas mais lhe atribuem. Discreto como ele só e avesso a estrelismo, o produtor subestima sua importância e repete sempre um dogma aparentemente óbvio, mas que encerra a simplicidade de seu tempero sonoro: "O que importa é a música". Ou seja: efeitos, novidades e tecnicismo têm de estar a serviço da música, e não há produtor que dê jeito se ela for ruim.

 
Arquivo Pessoal

Com Jack Johnson, no estúdio do Havaí: intervalos para ver o pôr-do-sol

Caldato tem um jeitão "Dalai Lama" – comparação feita por Seu Jorge – e eterna fala mansa. As exceções são para acentuar momentos marcantes de sua vida, quando então ele solta um estridente "caraca!" que antecede a historinha. Sua primeira lembrança musical foi o órgão Sears Silverstone que o pai comprou numa loja de departamentos de Los Angeles. O mecânico italiano de carros Mario Caldato, casado com a dona-de-casa brasileira Guiomar, impôs ao filho o aprendizado musical. Na casa deles, a trilha era diversificada: Sérgio Mendes ("O mais tocado"), canções orquestrais dos anos 50, uns italianos e até um vinil do Carequinha, xodó do guri que os pais carregaram na bagagem. Via rádio, aos poucos ele foi conhecendo Beatles, Doors, Beach Boys, Rolling Stones, e as aulas de piano clássico ficaram mais e mais enfadonhas. A gota d'água para sua migração de vez para o pop foi um tapa que a professora alemã de piano lhe deu durante a aula. Na vizinhança do bairro em que morava, South West, de população eminentemente negra, ele tomou contato com o som da Motown. Irresistível. Aos 12 anos, juntou-se a dois amigos e montou uma banda cover dos Beatles. Caldato limitava-se a fazer barulho na percussão.

Metódico, disciplinado e organizado ao extremo, ele guarda até hoje em uma das duas casas que mantém em Los Angeles a fita cassete de seu primeiro show, improvisado na sala, para a platéia de parentes. "Lá em casa, ele fica louco porque os discos não estão em ordem alfabética", conta o músico e produtor Kassin, inicialmente fã de Caldato, que depois virou parceiro e amigo dele. A dupla se une a Ed Motta e é capaz de ficar horas e horas numa conversa aparentemente enigmática. O assunto são relíquias obscuras dos anos 60 e 70, como o grupo de soul Little Beaver e a gravadora Fania, especializada em salsa. Já ouviu falar? Outra preciosidade guardada no computador são as bases originais digitalizadas de Marvin Gaye e Bob Marley, em que se pode ouvir cada instrumento separadamente ou os cantores a capela. Iguaria para poucos. A casa-estúdio de Los Angeles é outro rico acervo de quinquilharias musicais. São sintetizadores, teclados, microfones, guitarras e mesas de som de vinte, trinta anos, além de milhares de discos com organização de parada militar.

 
Divulgação

Beck: parceria em algumas músicas

"Sou um cara dos anos 60, 70. Gosto mais de música velha. Naquela época eles estavam num aprendizado, mexendo em tudo, experimentando", diz. A afirmação pode induzir a pensar que o produtor seja daqueles saudosistas radicais, sem olhos – nem ouvidos – para o novo. Nada disso. Boa parte da produção musical contemporânea deriva de bossas nas quais Caldato teve participação decisiva. A simbiose do hip hop com o rock e um certo teclado retrô que hoje costura do rap ao som lounge devem seu tributo ao produtor, precisamente à sua parceria mais prolífica, com os Beastie Boys. A cronologia de como ele conheceu o trio nova-iorquino é motivo para mais alguns "caraca!". Em meados dos anos 80 ele foi ao clube Power Tools, em Los Angeles, ver o grupo. O som, um horror, levou o trio a desistir do show. Foi então que Caldato se apresentou ao dono da boate com a solução para o problema acústico. Nessa época, ele levava uma vida dupla. Aos 17 anos saiu da casa dos pais. Para se sustentar, trabalhou oito anos como torneiro mecânico. Parte do salário ele sempre investia em equipamentos, e assim montou um estúdio caseiro. Durante o dia, a rotina de operário. Pela madrugada, a noite de Los Angeles. No Power Tools, freqüentado por artistas como Andy Warhol, ele conheceu um DJ que lhe propôs sociedade num selo de rap. Convite aceito, eles gravaram Tone Loc, um dos primeiros rappers a estourar nas paradas. Foi o incentivo que Caldato precisava para abandonar a fábrica. Para sua surpresa, ganhou 9.000 dólares de indenização, rapidamente convertidos em novos equipamentos. Em seguida, gravaram Young MC, outro estouro. Depois, a grande tacada com os Beastie Boys, que já vinham de uma estréia fonográfica colossal. "A gente trabalhava cinco artistas por dia. Era sinistro", diz ele, que nessa época já havia largado de mão piano, baixo, guitarra e percussão em prol da carreira nos bastidores.

 
Divulgação

Beastie Boys: mais de 2 milhões de discos vendidos

Caldato gravou o segundo lançamento dos Beastie Boys, e a partir do terceiro disco assinou a produção musical, marcando uma nova fase da sonoridade do grupo (veja quadro). A mudança do trio para Los Angeles ampliou o que era tão-somente trabalho para uma imensa camaradagem. Ele passou a ser íntimo dos artistas, que alugaram uma mansão em Hollywood Hills. "Fiquei amigaço dos caras. Eles me chamavam para tudo: 'Mario, meu carro não funciona, o teto está com vazamento'." Não era para amadores a Los Angeles no fim dos anos 80. Ele se diverte ao lembrar do dia em que Mike D, um dos Beastie, arrebentou o portão e uma parede da mansão ao volante de uma Mercedes alugada. Pra lá de Marrakesh, claro.

 
Otavio Dias de Oliveira

Seu Jorge: "Ele é um Dalai Lama"

Foi justamente o trabalho com o grupo que reaproximou o produtor de seu país natal. Em 1996 ele acompanhou a banda na turnê pelo Brasil. Desde que se mudara para os Estados Unidos, ainda criança de colo, Caldato só tinha estado no Brasil uma vez, aos 10 anos de idade. Foram 25 anos entre a primeira e a segunda visita, que marcou o início do flerte com seu país natal, relação que era restrita à idolatria pela música brasileira, principalmente Ben Jor e Os Mutantes. O produtor fez amizade com os rapazes do Planet Hemp, que abriu os shows da turnê do grupo americano. Retornou para os Estados Unidos, mas em um mês estava de volta ao Rio, para produzir um disco do então grupo de Marcelo D2. Ganhou vaga cativa no olimpo da turma e ficou amigo do rapper a ponto de Marcelo se tornar padrinho de uma das filhas do produtor. "Ele salvou a gente", diz o cantor BNegão, ex-Planet. "Perto do segundo, nosso primeiro disco parece uma fita demo." As virtudes apontadas pelos artistas vão além da tranqüilidade e paciência perenes. "Ele é detalhista, mas sem perder o foco no global", elogia Marisa Monte, que trabalhou com ele em Universo ao Meu Redor, a primeira produção de samba de Caldato, com toque psicodélico. Ele, inclusive, toca guitarra em uma das músicas, assinando discretamente nos créditos como Mario C. Seu Jorge destaca o bom trânsito do produtor entre o universo da alta tecnologia e o de antigamente, quando, sem tantos recursos tecnológicos, "dava-se um jeito". "Caldato é um técnico de som formidável, dos melhores que já vi", diz Kassin. Um aprendizado autodidata dos tempos em que quebrava a cara abrindo sintetizadores e amplificadores e conectando a aparelhagem em seu estúdio caseiro, no método tentativa e acerto.

 

Fotos Arquivo Pessoal

O produtor em dois momentos: com o amigo e compadre Marcelo D2 (acima), que é padrinho de uma das filhas de Caldato. Eles começaram a trabalhar juntos no tempo em que o rapper era do Planet Hemp, parceria que perdura até hoje; e com a mulher, Samantha, com quem mora no Leblon

Foi em 1996, enfurnado no estúdio com o Planet Hemp, que Caldato conheceu a violoncelista de Black Alien, Samantha. Dois anos depois, eles se encontraram em Paris, onde ela compilava um disco. Mais um ano e estavam casados. "Ele é muito tranqüilo, comedido e humilde. Nunca o vi numa atitude arrogante", diz ela. As viagens dele pelo mundo levaram a família – o casal e duas filhas – a fixar-se no Rio, um ano e meio atrás. O pai dele morreu na época da última mudança, e a mãe mora em Las Vegas. Quando não está em frente a mesas de som pelo planeta – semana passada embarcou para a Austrália, onde ficará um mês contratado pelo John Butter Trio –, ele gosta de ir à Praia do Leblon de manhã. Só sai do sério, sem perder a ternura, quando a areia e o mar estão sujos. Vegetariano desde os tempos de convivência com uma comunidade hippie californiana, não come nada de origem animal, com exceção de peixe. Metódico, costuma trabalhar diariamente de oito a dez horas. Com o tempero certo para a salada de sons.

*Colaborou Telma Alvarenga

 

Os toques do produtor

Jack Johnson

Caldato produziu dois discos do cantor havaiano, On and On (2003) e In Between Dreams (2005). Ele deu mais suavidade ao estilo de Johnson usando pequenos instrumentos, como um chocalho em formato de ovo, comum nas rodas de samba. As gravações foram no Havaí. "Nos fins de tarde, Jack parava tudo e a gente ia ver o pôr-do-sol", conta Samantha.

Beastie Boys

Foram oito trabalhos com o trio. Caldato incrementou a percussão, introduzindo nas gravações uma levada latina inspirada em ritmos como a conga.

 
Oscar Cabral

Marcelo D2

A parceria começou com o Planet Hemp e continua até hoje. No último disco, Meu Samba É Assim, Caldato caprichou na mixagem com efeitos de eco e nos breques.

Marisa Monte

O único dueto deles foi em Universo ao Meu Redor. A dupla dividiu a produção desse disco de samba, que é bem diferente dos anteriores da cantora. Trata-se de um samba mais psicodélico, com o toque acentuado dos teclados.


Para passar dos 80, 90...

Para aumentar a chance de passar dos 80 anos com boa saúde, é importante começar cedo a se prevenir contra doenças como arteriosclerose, artrose e osteoporose. Veja seis cuidados indispensáveis para ter uma velhice saudável, segundo a geriatra Mariana Jacob

Fazer check-up anualmente a partir dos 35 anos e alimentar-se de frutas, legumes, verduras e proteínas, reduzindo doce e gordura

Fazer atividade física, com supervisão médica. Para os obesos e os que sofrem de artrose, os exercícios na água são os mais indicados

Vacinar-se contra pneumonia (a partir dos 50 anos) e hepatite A e B

Usar filtro solar FPS 50, que deve ser aplicado no rosto e no corpo meia hora antes de sair, e evitar o sol entre 10h e 16h

Sob orientação médica, após a menopausa a mulher deve repor o cálcio, para prevenir a osteoporose

Fazer cursos para se atualizar e se socializar. Estudar línguas é um ótimo exercício para a memória



Boa saúde e dinheiro no bolso

 
Dilmar Cavalher/Strana
Néri: idosos com alta renda

O Rio é o estado brasileiro onde os idosos estão mais satisfeitos com a saúde. Divulgada há dois meses, a pesquisa Saúde da Terceira Idade: a Fonte da Juventude, da Fundação Getulio Vargas, mostra que 49,8% dos fluminenses que já passaram dos 65 anos dizem gozar de boa ou muito boa saúde. São Paulo ficou em segundo lugar, com 47,37%. A média nacional é de 40,8%. O estudo, que tomou como base dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios, do IBGE, foi coordenado por Marcelo Néri, chefe do Centro de Políticas Sociais do Instituto Brasileiro de Economia da FGV.

Segundo ele, uma das explicações para a boa colocação do Rio no ranking da saúde da terceira idade é o poder aquisitivo. Os idosos fluminenses apresentam a segunda maior renda do país. "Um fator importante é que o Rio, como foi capital federal, tem muito funcionário público aposentado e o nível de escolaridade da população é alto", diz Néri. "Os idosos trazem em seus contracheques um pouco da imagem do passado glorioso do Rio." Néri defende que a cidade assuma de vez sua vocação de Flórida brasileira. "Deveriam ser criadas políticas públicas e privadas para incentivar o turismo e atrair idosos de outros estados", diz. "Do ponto de vista econômico, o retorno seria muito bom. É um grupo com poder de compra grande."

     
   

 

 
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