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ARTE
Da Idade da Pedra Gravuras brasileiras em mostra no Sesc
Isabel Butcher
Dilmar Cavalher/Strana
 | | Guilherme,
a Marinoni e um trabalho de Volpi: acervo com mais de 170 artistas
| Na
era da alta tecnologia, uma impressora litográfica do século XIX,
instalada nos fundos de uma casa na Tijuca, mantém-se insubstituível.
Da velha Marinoni já saíram gravuras de artistas do calibre de Milton
DaCosta, Carlos Scliar, Alfredo Volpi e Cândido Portinari. Séries
numeradas de trabalhos de Oscar Niemeyer, J. Carlos, Portinari, Rubens Gerchman,
Anna Letycia, Burle Marx e muitos outros também foram preparadas pela velha
impressora, que percorreu um longo caminho até chegar ao Rio, há
mais de trinta anos. Um pouco dessa história poderá ser conhecido
na mostra Litografia e Serigrafia História Impressa pela Lithos,
a partir de terça (13), no Espaço Cultural Arte Sesc, no Flamengo.
São mais de 100 gravuras de grandes nomes das artes plásticas nacionais,
além de uma série de pedras litográficas matrizes
com as quais são feitas as gravuras e alguns livros de arte.
Fotos Divulgação
 | | J.
Carlos: obras na mostra | A
impressora é a estrela da Lithos Edições de Arte, gráfica
fundada em 1973, mas com uma história que começa em 1917, quando
Genaro Rodrigues aprendeu o ofício em Belém do Pará. Nos
anos 30, já no Rio, Genaro passou por diversas gráficas e tornou-se
amigo de artistas como Portinari e Enrico Bianco, a quem ensinou sua técnica.
No fim dos anos 60, montou seu ateliê nos fundos do Museu Histórico
Nacional. Na época, os filhos Guilherme e Genaro já o acompanhavam.
Foi Guilherme quem ficou à frente dos negócios, preservando não
só a técnica como as máquinas, as pedras e, claro, as gravuras
que saem da prensa. E foi Guilherme quem, num acaso do destino, reencontrou a
Marinoni com a qual o pai havia trabalhado em Belém. Numa ida à
Bahia para examinar o acervo de uma gráfica falida, ele encontrou a impressora
e centenas de pedras litográficas com desenhos variados, de trabalhos artísticos
a propagandas. Comprou tudo.
A
exposição está dividida em oito módulos com obras
de alguns dos 170 artistas que já passaram pela gráfica. Há
raridades, como um exemplar do precioso Mapa Architectural do Rio de Janeiro
(de 1874) a pedra matriz foi descoberta pela família durante as
obras para a instalação do ateliê no Museu Histórico
Nacional. Escritores também fizeram ali seus livros ilustrados. Uma rara
edição, com apenas 100 exemplares, de Amor, Sinal Estranho,
de Carlos Drummond de Andrade, com ilustrações de Bianco, saiu da
velha Marinoni. O mais recente lançamento da gráfica é uma
edição especial de manuscritos de Paulo Coelho, com ilustrações
de sua mulher, a artista plástica Christina Oiticica. Um item de colecionador,
à venda apenas em poucas lojas Louis Vuitton ao redor do mundo.
 |  | | Francisco
Brennand: serigrafia que lembra azulejos | Athos
Bulcão: delicadas variações sobre o azul |
Apesar
de todo o prestígio, Guilherme passou por alguns maus bocados ao longo
dos anos. Chegou a pensar em vender tudo. Numa época, quase falido
havia vendido apenas um exemplar do livro Realismo Mágico, uma série
de gravuras de Di Cavalcanti , sem saber o que fazer para pagar as dívidas,
ouviu um carro parar à porta da gráfica. Dele saltou um milionário,
grande proprietário de terrenos na Barra da Tijuca. Comprou os outros 99
exemplares do livro de Di. "Talvez ele não saiba, mas me salvou naquele
momento." A arte agradece. |