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14 de junho de 2006

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Da Idade da Pedra

Gravuras brasileiras em mostra no Sesc

Isabel Butcher

 

Dilmar Cavalher/Strana
Guilherme, a Marinoni e um trabalho de Volpi: acervo com mais de 170 artistas

Na era da alta tecnologia, uma impressora litográfica do século XIX, instalada nos fundos de uma casa na Tijuca, mantém-se insubstituível. Da velha Marinoni já saíram gravuras de artistas do calibre de Milton DaCosta, Carlos Scliar, Alfredo Volpi e Cândido Portinari. Séries numeradas de trabalhos de Oscar Niemeyer, J. Carlos, Portinari, Rubens Gerchman, Anna Letycia, Burle Marx e muitos outros também foram preparadas pela velha impressora, que percorreu um longo caminho até chegar ao Rio, há mais de trinta anos. Um pouco dessa história poderá ser conhecido na mostra Litografia e Serigrafia – História Impressa pela Lithos, a partir de terça (13), no Espaço Cultural Arte Sesc, no Flamengo. São mais de 100 gravuras de grandes nomes das artes plásticas nacionais, além de uma série de pedras litográficas – matrizes com as quais são feitas as gravuras – e alguns livros de arte.

 
Fotos Divulgação
J. Carlos: obras na mostra


A impressora é a estrela da Lithos Edições de Arte, gráfica fundada em 1973, mas com uma história que começa em 1917, quando Genaro Rodrigues aprendeu o ofício em Belém do Pará. Nos anos 30, já no Rio, Genaro passou por diversas gráficas e tornou-se amigo de artistas como Portinari e Enrico Bianco, a quem ensinou sua técnica. No fim dos anos 60, montou seu ateliê nos fundos do Museu Histórico Nacional. Na época, os filhos Guilherme e Genaro já o acompanhavam. Foi Guilherme quem ficou à frente dos negócios, preservando não só a técnica como as máquinas, as pedras e, claro, as gravuras que saem da prensa. E foi Guilherme quem, num acaso do destino, reencontrou a Marinoni com a qual o pai havia trabalhado em Belém. Numa ida à Bahia para examinar o acervo de uma gráfica falida, ele encontrou a impressora e centenas de pedras litográficas com desenhos variados, de trabalhos artísticos a propagandas. Comprou tudo.

A exposição está dividida em oito módulos com obras de alguns dos 170 artistas que já passaram pela gráfica. Há raridades, como um exemplar do precioso Mapa Architectural do Rio de Janeiro (de 1874) – a pedra matriz foi descoberta pela família durante as obras para a instalação do ateliê no Museu Histórico Nacional. Escritores também fizeram ali seus livros ilustrados. Uma rara edição, com apenas 100 exemplares, de Amor, Sinal Estranho, de Carlos Drummond de Andrade, com ilustrações de Bianco, saiu da velha Marinoni. O mais recente lançamento da gráfica é uma edição especial de manuscritos de Paulo Coelho, com ilustrações de sua mulher, a artista plástica Christina Oiticica. Um item de colecionador, à venda apenas em poucas lojas Louis Vuitton ao redor do mundo.

 
Francisco Brennand: serigrafia que lembra azulejos Athos Bulcão: delicadas variações sobre o azul

Apesar de todo o prestígio, Guilherme passou por alguns maus bocados ao longo dos anos. Chegou a pensar em vender tudo. Numa época, quase falido – havia vendido apenas um exemplar do livro Realismo Mágico, uma série de gravuras de Di Cavalcanti –, sem saber o que fazer para pagar as dívidas, ouviu um carro parar à porta da gráfica. Dele saltou um milionário, grande proprietário de terrenos na Barra da Tijuca. Comprou os outros 99 exemplares do livro de Di. "Talvez ele não saiba, mas me salvou naquele momento." A arte agradece.

     
   

 

 
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