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CRÔNICA
Papel
de louca Tutty
Vasques Ela é demais! A
maneira segura como me disse que Chico Buarque não é tudo isso que
se apregoa por aí dá bem idéia do tipo de mulher a que me
refiro. Podia ser música dele. Tem uma nesse último disco, chama-se
Ela Faz Cinema, feita para alguém que, olhando assim, ninguém
sabe se está fora de si ou faz o estilo de uma grande dama. Ela é
assim! "O Chico é bom em muitas coisas, mas na cama é bem fraquinho
mesmo, isso é mais que sabido." Disfarcei minha ignorância com a
naturalidade dos sem-assunto: "Ahã, ahã...". O leitor por acaso
estava sabendo dessa história, caramba? "Não
é possível!", reagiu um grande amigo cuja mulher cultiva uma admiração
meio insana, meio histérica pelo Chico Buarque. "Não conte isso
para a Wandinha, não lhe dê esse desgosto." Deus me livre! Toquei
no assunto com mais meia dúzia de colegas, todos muito bem casados com
fãs tresloucadas do artista, e também entre eles a indignação
foi geral. "Era só o que faltava, essa não!" A idéia do símbolo
sexual masculino inatingível, ideal para mulheres em crise conjugal, não
pode cair assim a golpes de peteleco na virilidade do mito. Neguinho não
suportaria de repente descobrir que o tal cara por quem toda mulher não
hesitaria em trocá-lo, elas por elas, pau a pau, tem um jeito manso que
é só seu. Não
sei como vão reagir as mulheres; os homens com quem falei não admitem
a possibilidade, e pronto. "O Chico Buarque é o maior, e não se
fala mais nisso!" A sociedade machista demorou, mas acabou entendendo que a possibilidade
de o cara pegar a mulher dos outros é de uma para 10 milhões de
loucas por ele soltas por aí. Cá pra nós, ainda que aconteça,
como naquele famoso banho de mar com uma morena no Leblon, quanta honra: o marido
traído fica todo prosa por ser o primeiro abaixo de Chico Buarque na cadeia
alimentar das mulheres de Atenas. Não deixa de ser uma distinção
numa terra em que, como dizia Nelson Rodrigues, "diante de Chico Buarque todo
homem é um corno em potencial".
Peço desculpas às senhoras que me lêem pelo menos três
ou quatro tias, com certeza por de repente estar aqui, logo eu que andava
tão comportado, falando sem nenhum pudor da sexualidade do Chico Buarque.
Lamento, mas é inevitável: sempre que o artista volta aos palcos,
a imprensa entra no cio junto com a platéia. Antes de estrear Carioca,
em São Paulo, Chico falou sobre essa doideira à sua volta. Disse
a jornalistas que esse negócio de lindo pra cá, tesão pra
lá não passa de gozação de quem grita, piada de quem
escreve. "Não estou mais em idade de acreditar que sou sex symbol."
A Folha quis conferir. Saiu pelas ruas de São Paulo com um display
de papelão com a imagem do artista em tamanho natural para testar o assédio
das fãs. Fez fila! Depois, Luiz Caversan cunhou a seguinte definição
para "O homem que elas adoram", título de seu artigo na Folha Online: "Nem
todas as mulheres amam Chico Buarque de Hollanda; apenas as normais". Aí
incluídas, suponho, as que na hora agá fazem papel de loucas mesmo,
gritam, sobem na cadeira, chamam o cara de gostoso e o escambau! Xico Sá,
paulistano do Crato, cobriu a noite de estréia no Tom Brasil para o site
NoMínimo e flagrou o instante em que a situação quase fugiu
ao controle dos maridos ao redor: "Na
vigésima primeira canção, a lei mais explícita e almodovariana
do desejo prevalece, impera e ganha voz: 'Chico, eu quero dar pra você!'"
Naturalmente que gritou em vão.
"Eu não lido com isso", disse Chico em entrevista. "Acho que as pessoas
estão brincando." A brincadeira de gostar de alguém público
artista, político ou jogador de futebol e não se decepcionar
com o cara, francamente, virou coisa rara neste Brasil de grandes quebras de expectativa.
Chico Buarque é de uma raça de homens em extinção.
Quando entra em cartaz, o país volta a experimentar a sensação
de que ainda tem gente por aqui que pode dar certo no final.
Lindo, lindo, lindoooo! O "Chico Buarque
profundo", esse que minha amiga trouxe à tona, não interessa a ninguém,
a não ser a duas ou três sortudas que conseguem chegar perto dele
a ponto de ver até os defeitos. Da platéia, parece perfeito.
Assim que parar de nevar nos Jardins, farei uma moça feliz levando-a pela
mão para ver o Chico cantar do lado de lá da ponte aérea
(ele fica no Tom Brasil até meados de outubro). O leitor também
pode levar sua mulher sem susto. Ela vai te amar para sempre! É mole? Minha
amiga insiste que é mais ou menos... Chata! E-mails
para o cronista: tutty@nominimo.com.br
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