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13 de setembro de 2006

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CRÔNICA
  

CRÔNICA

Papel de louca

Tutty Vasques

Ela é demais! A maneira segura como me disse que Chico Buarque não é tudo isso que se apregoa por aí dá bem idéia do tipo de mulher a que me refiro. Podia ser música dele. Tem uma nesse último disco, chama-se Ela Faz Cinema, feita para alguém que, olhando assim, ninguém sabe se está fora de si ou faz o estilo de uma grande dama. Ela é assim! "O Chico é bom em muitas coisas, mas na cama é bem fraquinho mesmo, isso é mais que sabido." Disfarcei minha ignorância com a naturalidade dos sem-assunto: "Ahã, ahã...". O leitor por acaso estava sabendo dessa história, caramba?

"Não é possível!", reagiu um grande amigo cuja mulher cultiva uma admiração meio insana, meio histérica pelo Chico Buarque. "Não conte isso para a Wandinha, não lhe dê esse desgosto." Deus me livre! Toquei no assunto com mais meia dúzia de colegas, todos muito bem casados com fãs tresloucadas do artista, e também entre eles a indignação foi geral. "Era só o que faltava, essa não!" A idéia do símbolo sexual masculino inatingível, ideal para mulheres em crise conjugal, não pode cair assim a golpes de peteleco na virilidade do mito. Neguinho não suportaria de repente descobrir que o tal cara por quem toda mulher não hesitaria em trocá-lo, elas por elas, pau a pau, tem um jeito manso que é só seu.

Não sei como vão reagir as mulheres; os homens com quem falei não admitem a possibilidade, e pronto. "O Chico Buarque é o maior, e não se fala mais nisso!" A sociedade machista demorou, mas acabou entendendo que a possibilidade de o cara pegar a mulher dos outros é de uma para 10 milhões de loucas por ele soltas por aí. Cá pra nós, ainda que aconteça, como naquele famoso banho de mar com uma morena no Leblon, quanta honra: o marido traído fica todo prosa por ser o primeiro abaixo de Chico Buarque na cadeia alimentar das mulheres de Atenas. Não deixa de ser uma distinção numa terra em que, como dizia Nelson Rodrigues, "diante de Chico Buarque todo homem é um corno em potencial".

Peço desculpas às senhoras que me lêem – pelo menos três ou quatro tias, com certeza – por de repente estar aqui, logo eu que andava tão comportado, falando sem nenhum pudor da sexualidade do Chico Buarque. Lamento, mas é inevitável: sempre que o artista volta aos palcos, a imprensa entra no cio junto com a platéia. Antes de estrear Carioca, em São Paulo, Chico falou sobre essa doideira à sua volta. Disse a jornalistas que esse negócio de lindo pra cá, tesão pra lá não passa de gozação de quem grita, piada de quem escreve. "Não estou mais em idade de acreditar que sou sex symbol."

A Folha quis conferir. Saiu pelas ruas de São Paulo com um display de papelão com a imagem do artista em tamanho natural para testar o assédio das fãs. Fez fila! Depois, Luiz Caversan cunhou a seguinte definição para "O homem que elas adoram", título de seu artigo na Folha Online: "Nem todas as mulheres amam Chico Buarque de Hollanda; apenas as normais". Aí incluídas, suponho, as que na hora agá fazem papel de loucas mesmo, gritam, sobem na cadeira, chamam o cara de gostoso e o escambau! Xico Sá, paulistano do Crato, cobriu a noite de estréia no Tom Brasil para o site NoMínimo e flagrou o instante em que a situação quase fugiu ao controle dos maridos ao redor:

"Na vigésima primeira canção, a lei mais explícita e almodovariana do desejo prevalece, impera e ganha voz: 'Chico, eu quero dar pra você!'"

Naturalmente que gritou em vão. "Eu não lido com isso", disse Chico em entrevista. "Acho que as pessoas estão brincando." A brincadeira de gostar de alguém público – artista, político ou jogador de futebol – e não se decepcionar com o cara, francamente, virou coisa rara neste Brasil de grandes quebras de expectativa. Chico Buarque é de uma raça de homens em extinção. Quando entra em cartaz, o país volta a experimentar a sensação de que ainda tem gente por aqui que pode dar certo no final.

Lindo, lindo, lindoooo!

O "Chico Buarque profundo", esse que minha amiga trouxe à tona, não interessa a ninguém, a não ser a duas ou três sortudas que conseguem chegar perto dele a ponto de ver até os defeitos. Da platéia, parece perfeito.

Assim que parar de nevar nos Jardins, farei uma moça feliz levando-a pela mão para ver o Chico cantar do lado de lá da ponte aérea (ele fica no Tom Brasil até meados de outubro). O leitor também pode levar sua mulher sem susto. Ela vai te amar para sempre! É mole? Minha amiga insiste que é mais ou menos... Chata!


E-mails para o cronista: tutty@nominimo.com.br

     
   

 

 
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