|
CRÔNICA
Varejo
Manoel Carlos
ALIANÇAS
Não me acho conservador,
mas sei que, em alguns momentos da vida, uma postura mais rígida,
pelo menos quanto aos costumes, se faz necessária. Algumas
vezes sou acusado – a palavra é essa – pela minha mulher
de ser liberal demais na educação dos nossos filhos.
– Imponha certos limites. Entre
um sim e outro, coloque um não.
Leo Martins
 |
Minha mulher é devoradora desses livros que tratam da educação
e do comportamento de crianças e jovens. Eu, na medida do
possível, procuro ouvi-la.
Mas voltemos ao conservadorismo.
Eu me vi, dia desses, no centro de uma discussão entre casais
de amigos. Era sobre o uso ou não da aliança, para
casados, no anular da mão esquerda. Ah, se vocês vissem
como caíram em cima de mim!
– Você é preconceituoso!
– me disse a Marta.
– Retrógrado – exagerou
o Amilcar, marido dela.
– Nunca pensei! – exclamou a
Laura, o olhar cheio de tristeza.
– Nossa! – bradou a Ângela
–, que coisa mais antiga!
Por que tanta indignação?,
perguntarão meus possíveis leitores. E eu respondo:
porque sou a favor. A favor do uso da aliança para casados.
Pois foi por isso.
Diante dessa minha declaração,
talvez até, entre esses poucos que me lêem neste momento,
alguns deixem a revista de lado e saiam para aproveitar o domingo
no calçadão, exclamando:
– Mas esse cronista é
antigo demais! Xô, xô, sai pra lá, senhor anacrônico!
Pode ser.
De qualquer forma, assumo. Uso
aliança. Sempre usei. No primeiro, no segundo e neste terceiro
casamento, em que me encontro há mais de 25 anos!
Quando me perguntam o motivo
dessa minha opção, tenho certeza de que ela está
ligada à tristeza da minha mãe pelo fato de meu pai
não usar no dedo esse símbolo do matrimônio.
Quer dizer: usar, usou. Usou nos primeiros anos de casado – de 1928
a 1931. Mas, num gesto generoso, doou a aliança à
campanha Ouro para o Bem de São Paulo, contribuindo assim
para o movimento paulista na Revolução de 1932.
Minha mãe não se
conformava. E até morrer (de aliança), com mais de
90 anos, ainda repetia:
– Ele tinha abotoaduras, prendedores
de gravata, uma coleção de moedas. Tudo de ouro. Por
que foi doar logo a aliança?
Essa queixa marcou a minha infância.
RIO 40º
O calor desse último verão
me trouxe à memória o conto Luiz Soares, de
Machado de Assis, que li há muitos anos. Procurei e encontrei-o
nos Contos Fluminenses. Leiam comigo as dez primeiras linhas:
"Trocar o dia pela noite, dizia
Luiz Soares, é restaurar o império da natureza, corrigindo
a obra da sociedade. O calor do sol está dizendo aos homens
que vão descansar e dormir, ao passo que a frescura relativa
da noite é a verdadeira estação em que se deve
viver. Livre em todas as minhas ações, não
quero sujeitar-me à lei absurda que a sociedade me impõe:
velarei de noite, dormirei de dia".
Fica a sugestão. Eu já
faço a troca quando escrevo novela.
ARRASTÃO
A lembrança positiva que
se tem dessa palavra está ligada à letra de Vinicius
para a música de Edu Lobo, que ganhou o 1º Festival
de Música Popular Brasileira, em 1965, na voz de Elis Regina.
Hoje, para além de todos
os seus significados, o que a palavra nos lembra é a violência
que ocorre nas praias cariocas, quando centenas de pessoas são
roubadas e agredidas por centenas de outras. Isso acontece em todo
o Rio de Janeiro, inclusive no Leblon.
CELULAR & CELULARI
Os celulares não funcionam.
Eu ligo um número e ouço a mensagem que diz: o número
discado não está correto. Ou então: esse aparelho
não recebe ligações a cobrar. E no entanto
o número que eu disco é o da minha casa. Desisto.
O único celular que funciona no Brasil é o Edson.
Mas ele é Celulari, que é o que faz a diferença.
CONSELHO
Não te abras com teu amigo,
Que um outro amigo tem.
E o amigo do teu amigo
Possui amigos também.
Mário Quintana
E-mails para o cronista:
almaviva@uninet.com.br
|