| |

O
que faz a diferença
Com
criatividade, eles ampliam
os limites
da
sala e transformam as aulas em movimentadas
janelas para o mundo
Rubiana
Peixoto
André Nazareth/Strana

SÉRGIO
DRAGO/Cest e São Vicente de Paulo
Muito querido pelos alunos, o professor de matemática
dá aulas apenas em dois colégios: privilégio para poucos |
O
professor de matemática Sérgio Drago, 52 anos,
pertence a um seleto grupo em sua profissão. Depois
de 31 anos de magistério, pode dar-se ao luxo de dividir
seu tempo entre apenas duas escolas: o Centro Educacional
Anysio Teixeira e o Colégio São Vicente de Paulo.
Além de ministrar aulas animadas, em que discute tanto
a resolução de equações quanto
a conjuntura política do país, ele tem energia
de sobra para organizar passeios e viagens com suas turmas.
Em um universo em que 29,6% dos professores de ensino médio
ganham até 10 reais por hora/aula, ele sabe que é
uma exceção, parte de uma elite de mestres que
recebe em média de quinze a trinta salários
mínimos por mês. "Só se consegue viver
bem em meia dúzia de escolas da cidade. Da Tijuca para
o subúrbio, rala-se muito para ganhar uma merreca",
reconhece. Os colégios que encabeçam o ranking
da pesquisa Veja Rio-Ipsos Marplan conseguem manter
professores experientes e motivados, como Sérgio Drago,
com os melhores salários da cidade a maioria
remunera o ensino médio com valores superiores a 23
reais a hora/aula , incentivos à reciclagem e
à especialização e horas remuneradas
fora da sala de aula para planejamento, estudos e reuniões
de trabalho. Algumas oferecem benefícios, como plano
de saúde (17%) e até de previdência privada
(5%). "As grandes não gostam de arriscar. Quem segura
a escola é a equipe, e as direções sabem
disso", diz Drago.
A especialização é um diferencial para
o profissional. Apenas 13% das instituições
de ensino do Rio têm mais de metade do corpo docente
com mestrado ou doutorado. O físico Marco Braga, 42,
está nesse grupo. Em 1988, trocou a estabilidade do
emprego em Furnas pelo mestrado em educação
na PUC-RJ e a carreira de professor. Na época, a família
e os amigos acharam que ele havia enlouquecido. Após
treze anos de experiência em sala de aula e um doutorado
em engenharia de produção voltada para o ensino
de ciências, Marco leciona no ensino fundamental e médio
no Colégio Santo Agostinho e no Cefet, escola técnica
federal. Ao mesmo tempo, faz pesquisas sobre métodos
artesanais para transmitir informação junto
com um grupo que formou com outros dois professores, batizado
de Tekne (técnica, em grego). O trio mantém
um site na internet, assina livros didáticos e dá
cursos de atualização. "O professor não
pode ficar restrito à graduação. Com
a especialização, ele consegue fugir do tradicional
quadro-negro e giz e ampliar a visão do aluno sobre
a disciplina", diz.
Fotos André Nazareth/Strana

MARIA
MARGARIDA CARDOSO/São Vicente de Paulo
Por
afinidade pedagógica, ela está há catorze anos na escola
do Cosme Velho: "Aqui tenho liberdade para inovar" |
Fotos André
Nazareth/Strana

SILVIA
CRISTINA DA COSTA/Liceu Franco-Brasileiro
Agitadora, organizou a passeata pela poesia: "Os estudantes
estão caídos pela tecnologia, e isso dificulta o trabalho" |
O
gosto pela novidade e a vontade de descobrir maneiras diferentes
de apresentar os conteúdos são uma constante
entre os mestres. "Aquele professor de cuspe e giz está
morto. Se não o avisaram ainda, avisem que ele está
no caixão", ironiza o professor de química José
Guilherne da Silva, 53 anos, o Guigui do colégio Cruzeiro.
Com mestrado e doutorado pela UFRJ e especialização
em San Francisco, nos Estados Unidos, ele ressalva que apenas
os diplomas não costumam dar resultado na sala de aula.
"Não basta ter conhecimento. É preciso ter cuidado
para não se distanciar dos alunos", afirma ele, que
é idolatrado pelos estudantes por seu bom humor e pela
descontração. Boas idéias para a sala
de aula não têm hora para acontecer. Maria Eulália
do Carmo Ferreira, 45 anos, mestre em ciências políticas
pelas Faculdades Bennett e com especialização
em relações internacionais pela PUC-RJ, dá
aulas de história faz 25 anos. Há onze está
no São Bento. "Às vezes tenho uma idéia
assistindo ao noticiário na TV. Quando isso acontece,
corro ao computador, ligo para um colega e, pronto, está
criada uma nova aula", conta. Silvia Cristina Pinto da Costa,
52 anos, professora de português e coordenadora de língua
e literatura do Liceu Franco-Brasileiro, gosta de agitar.
Com freqüência, promove eventos culturais que envolvem
todas as séries. Em setembro, realizou com os alunos
uma passeata pela poesia no Largo do Machado. Na camiseta
dos alunos estavam versos de Drummond e em suas mãos,
flores de papel. "Os estudantes são afetivos, livres
nas formas de se expressar, mas estão caídos
pela tecnologia, e isso dificulta nosso trabalho. Precisamos
ser muito criativos para acompanhar essas transformações",
diz.
A
liberdade para inventar aulas e utilizar materiais inusitados
varia bastante de escola para escola. Segundo a pesquisa Veja
Rio-Ipsos Marplan, 62% dos estabelecimentos permitem que
seus mestres decidam como e quando avaliar seus alunos; 65%
dão autonomia ao corpo docente para mudar seu programa
de trabalho; 51% aceitam modificações no conteúdo
e objetivo do curso; 87% deixam o professor escolher o material
didático. Apenas 6% das instituições
não concedem aos docentes nenhum tipo de autonomia.
Colégios como o Centro Educacional Anysio Teixeira,
onde leciona Sérgio Drago, têm a autonomia como
parte essencial do projeto pedagógico. Formado como
uma espécie de cooperativa de professores, o Ceat fornece
o suporte necessário para as atividades extraclasse.
As decisões pedagógicas são discutidas
em reuniões de equipe. Qualquer problema com professores
é tratado abertamente pelas coordenações
de ensino.
A coordenação pedagógica do Colégio
pH trabalha com uma orientação bem diferente.
Na instituição, que está entre as que
melhor pagam no Rio, a função do professor se
resume a dar aulas e supervisionar a correção
das provas. Nem mesmo a confecção das provas
é sua responsabilidade. O trabalho braçal é
feito por mais de 300 monitores, que também cuidam
das dúvidas dos alunos em horários alternativos.
"No pH, o sistema funciona apoiado em três bases: aluno-monitor-professor",
explica o engenheiro químico Guilherme Guimarães,
30 anos, que cursa licenciatura em química e dá
aulas no colégio e no pré-vestibular desde 1994.
"Todas as semanas, os alunos levam questões discursivas
para casa. Sem a ajuda do monitor, eu não teria como
corrigir tudo e ainda lançar as notas", explica.
André Nazareth/Strana

MARIA
EULÁLIA FERREIRA/São Bento
Ela cria aulas de história vendo o noticiário da TV: boas
idéias não têm hora para acontecer |
Ricardo Beliel

MARCO
BRAGA/Santo Agostinho e Cefet
Ele trocou emprego estável numa estatal pela carreira
de professor: decisão certa |
Guilherme
concentra toda a sua carga horária entre as três
unidades da escola e o cursinho. Chega a ter cerca de 1 000
alunos por ano. Mas há quem mantenha dedicação
exclusiva a uma escola apenas por afinidade com a proposta
pedagógica. É o caso da professora de história
Maria Margarida Cardoso, de 46 anos. De seus dezoito anos
em sala de aula, ela dedicou catorze ao Colégio São
Vicente de Paulo, no Cosme Velho. "Aqui tenho liberdade para
inovar", diz. Seu trabalho mais recente, adotado pela coordenação
pedagógica da instituição, atende pela
sigla MEP (Método de Ensino e Pesquisa), voltado para
estudantes do 3º ano do ensino médio. O objetivo
é ensinar os adolescentes a estudar sozinhos, sem depender
de pais, professores particulares nem cursinhos às
vésperas do vestibular. Também foi por opção
que Valéria Araújo de Souza, de 37 anos, se
especializou em atender ao ensino fundamental. "Nunca me senti
uma professorinha coitada e mal paga. Hoje o professor primário
é um mediador de conhecimentos. Antigamente, ele se
limitava a passar informações. Agora ele mantém
uma troca com os alunos", observa Valéria, que trabalha
no Colégio Andrews.
Com 31 anos de fidelidade ao Santo Agostinho, Marli Morgado
Ramalheira é representante de uma espécie em
extinção: a professora normalista. Atendendo
à nova Lei de Diretrizes e Bases de 1996, que exige
formação superior para todos os níveis
do magistério, 63% das escolas pesquisadas por Veja
Rio-Ipsos Marplan têm mais de 90% de seu corpo docente
com curso superior completo. "Quando me formei, os tempos
eram outros", diz Marli. A falta de curso superior não
a impediu de se especializar em matemática e escrever
uma coleção voltada para alunos da 1ª à
4ª série. "A atualização e a garra
são fundamentais para o mestre", afirma. Tania Camel,
professora de química da Edem, começou como
Marli, normalista aos 16 anos. Chegou a trabalhar em uma empresa
de telecomunicações como engenheira por três
anos, mas não agüentou de saudade da sala de aula.
Ela não esquece seu primeiro ano de magistério,
trabalhando com alunos com problema de repetência. Aos
12 anos, Severino aparentemente não conseguia alfabetizar-se
e estava prestes a ser enviado a uma turma para alunos excepcionais.
"Um dia, andando pela sala, cheguei perto dele e ouvi sua
voz, baixinha, juntando as sílabas de uma palavra.
Não me contive e exclamei: 'Severino, você sabe
ler!'. Não há melhor recompensa que essa", lembr recompensa que essa", lembra,
emocionada.
|