O mito da boa escola

"Escolas grandes ou pequenas serão melhores
ou piores conforme as características das crianças
e, sobretudo, as expectativas das famílias"

 

Depois de quase três décadas pesquisando a escola pública, comecei a estudar a escolarização das elites. Parecia-me um bom caminho para entender melhor o que é considerado um ensino e uma escola de qualidade, questão sobre a qual há pouco estudo, sobretudo no Brasil. Além de ser considerado um tema politicamente incorreto pela maioria dos pesquisadores de educação, as escolas freqüentadas pelas elites, com honrosas exceções, não se mostram muito abertas ao olhar do pesquisador. Apesar das dificuldades, três anos de investigações têm permitido retomar algumas questões que me vêm acompanhando ao longo de minha experiência pessoal e profissional.

Faço parte da geração de profissionais da área da educação formada no início dos anos 60, que teve acesso a uma literatura profundamente crítica a respeito das escolas. Já na condição de mãe de três crianças, entre os critérios básicos de escolha da escola estavam: uma escola que não atrapalhasse a curiosidade natural das crianças e que não os tornasse ventríloquos de "conhecimentos" que não lhes serviriam para a vida. Tinha a convicção de que, embora indispensável como instrumento de socialização, as escolas não agregavam as maravilhas que normalmente apregoavam. Encontrava-me razoavelmente vacinada contra a "propaganda pedagógica" das escolas experimentais da época e a crença na superioridade das tradicionais escolas de elite. Gradativamente, em lugar dos primeiros critérios, fui construindo, pragmaticamente, um outro que preponderou na decisão final: o melhor mesmo é uma escola perto de casa. Tornaria mais fácil o deslocamento casa-escola, meus filhos formariam um grupo de amizades nas vizinhanças, o que se desdobraria em várias vantagens -- poderiam estudar com os colegas, seria mais fácil conhecer as famílias dos amigos de meus filhos e tudo se tornaria mais simples para a compatibilização dos programas de pais e filhos.

Hoje, revendo a questão da escola e do ensino de qualidade, vejo-me na contingência de reinterpretá-la, em uma conjuntura bastante diferente dos anos 70 e 80, em relação às promessas escolares no que tocam às perspectivas sociais, profissionais e éticas para a vida das novas gerações. Inúmeras pesquisas vêm apontando o hiato entre as práticas pedagógicas escolares e as linguagens, interesses e práticas culturais de crianças e jovens dos mais variados estratos sociais.

A inquietação sobre a qualidade do ensino é uma constante entre as famílias que sabem que as transformações sociais deixam em aberto uma série de certezas que pautaram suas opções em termos de escola, profissões e valores sociais. Estudando alguns segmentos das elites, fica evidente a preocupação com a "boa escola" para os filhos. Entretanto, os recursos que investem em educação, cultura e lazer são bons indicadores da convicção de que os bons resultados escolares dos filhos dependem muito mais deles, e dos investimentos "complementares" (cursos de língua, esportes, viagens ao exterior, assinatura de jornais e revistas, livros, programas de computador...), que do trabalho pedagógico das escolas. As instituições particulares, cientes disso, procuram atrair e reter a clientela com apelos mercadológicos: campos de esporte, teatro, artes plásticas, laboratórios de informática, convênios com cursos de línguas mesclam-se com promessas de orientações pedagógicas construtivistas, interdisciplinares, "alternativas" etc.

As escolas, mesmo as de maior prestígio, parecem agregar muito menos do que prometem, como indiquei anteriormente. Seu público conta com supervisão permanente das famílias que recorrem a ações preventivas ao fracasso escolar, que vão das aulas particulares e apoio psicopedagógico às estratégias de mudança para escolas que se "adaptem melhor" ao perfil dos filhos com dificuldades. Isso significa que o critério da "boa escola" tende a variar em razão das características dos estudantes e das expectativas dos pais. Escolas, grandes ou pequenas, serão melhores ou piores conforme as características das crianças e, sobretudo, as expectativas das famílias.

A cultura de avaliação dos sistemas escolares tem oferecido bons indicadores do desempenho médio das escolas, e seus resultados servem para relativizar o mito da "escola de qualidade". Os setores de elites que venho estudando sabem muito bem que determinadas "marcas" são, da mesma forma que as "boas etiquetas", garantia de padrão médio de qualidade no mercado do ensino e, sobretudo, de capital simbólico e social (no sentido de prestígio e relações sociais) que será agregado aos currículos dos filhos. O que parece consenso, entretanto, entre os que estão estudando a questão, é que não há a boa escola, e sim escolhas mais ajustadas quer às características das crianças e jovens, quer às circunstâncias e projetos dos familiares.

 

Zaia Brandão é doutora em educação. Professora e pesquisadora
do Programa de Pós-Graduação em Educação da PUC-Rio.

 

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