A hora de trocar

"Escolher a escola de ensino médio é um
dos grandes momentos de decisão na vida
de jovens e pais. Nessa hora, o diálogo é essencial"



Escola boa é aquela onde a gente se sente feliz. Mas basta se sentir feliz para que a escola seja boa? Escola não é um parque de diversões, é um dos lugares onde se aprende a viver, a estar em contato com nossas possibilidades de mudar e aceitar mudanças. E viver é também a alegria de reencontrar o conhecido a cada dia, aquilo que nos assegura a permanência dos afetos. Assim, "trocar de escola" não tem receita.

Certamente não é o tamanho físico de uma escola que define a relação ensino-aprendizagem. Esse espaço é construído pelas relações entre a instituição e as famílias. Com freqüência somos procurados por famílias que querem indicações de "escolas fortes", que assegurem ao aluno recém-alfabetizado o êxito no vestibular. Mas muito mais que preparar para o vestibular, a função da educação infantil e do ensino fundamental é proporcionar um saudável vínculo entre a criança e o seu processo de construção do conhecimento. Isto é, desenvolver a inteligência emocional.

Paredes pintadas e decoradas por mãozinhas infantis, conversas, risos e alguma desordem ordenada são os melhores indicadores da boa qualidade da vida escolar. Se a pequena escola do bairro lhe oferece essas oportunidades, por que trocar? Mas há também instituições que se estendem da creche à universidade e que têm a sensibilidade de preservar para cada segmento o espaço que atenda às suas necessidades próprias. Não vale ser grande em tamanho e número de alunos sem ter o cuidado de assegurar a cada criança o seu lugar, no qual ela não seja vista como o aluno 23 da turma C. Ou então, ser como a escolinha que cresceu junto com os seus aluninhos, mas os jovens adolescentes ainda permanecem vivenciando as mesmas experienciazinhas de sempre. Isto é, vivendo no diminutivo. Nos dois casos trocar de escola pode ser uma solução.

A primeira escola deve ter as características de segurança afetiva que o bebê encontra em sua própria casa. Um cantinho próprio para descansar, onde encontre seus brinquedos pessoais e alguém que converse com ele, e não apenas o mantenha limpo e bem alimentado. Se essa primeira escola for perto de casa, melhor ainda. Encontrar crianças já conhecidas no espaço escolar facilita a aceitação da primeira separação dos pais. O ideal é que essa primeira escola se estenda até pelo menos a 4ª série do ensino fundamental, porque essas relações iniciais garantem um inigualável conforto.

Da 5ª à 8ª série, as necessidades e os desejos são outros. Os interesses se multiplicaram e é preciso mais espaço físico e cultural para preencher as exigências e curiosidades. É a hora da turma, dos trabalhos em grupo, do sentimento do "não sei como sobrevivi sem você até agora". É o grande momento de deixar a casa e ganhar o clube, que pode ser a casa do colega ou a própria escola. As famílias também precisam abrir suas casas para os colegas de seus filhos, para que não fiquem com ninhos vazios. Se a primeira escola oferecer oportunidades de múltiplas vivências, não há por que trocar. A rotatividade da vida moderna se encarregará de trazer novos amigos. Mas uma boa escola não é um clube de esportes. Natação, judô e balé podem ser realizados em outros espaços. O essencial é identificar quais são os valores que essa fase escolar prioriza. Se são muitos conhecimentos cumulativos, apostilas para o vestibular e pouco espaço de discussão e reflexão, vale a pena pensar que criatividade e raciocínio são ingredientes para a construção moral do ser humano.

A escolha da escola de ensino médio é um dos grandes momentos de decisão na vida de jovens e pais. Nessa hora, sempre se devem escutar os estudantes, e o diálogo familiar é essencial. No caso de grandes dúvidas, vale incluir entrevistas com psicólogos que trabalhem com orientação educacional. A vida está repleta de imprevistos, e mudanças de escola acontecerão sem que sejam desejadas. As crianças deverão ser delicadamente preparadas. Para as mais velhas, mudanças de escola podem ter outras significações. Aquelas com dificuldade de aprendizagem e/ou comportamento, se não compreendidas, podem receber um selo que se tornará obstáculo para integrar-se na vida social escolar. Nesses casos, a mudança de escola poderá ser um alívio, mas é essencial que receba o tratamento necessário.

Para algumas crianças, o desafio da aprendizagem é estímulo, para outras é ansiedade paralisante. A troca de escola vai depender da história dos componentes dessa trama, sem que seja um drama. Há pessoas que celebram bodas de ouro de amizade. Conheceram-se no jardim-de-infância, estudaram alguns anos juntas, mas nunca se esqueceram das alegrias e dificuldades compartilhadas. Isso é o que vale a pena!

Clélia Argolo Estil é fonoaudióloga e psicopedagoga

 

dex="0" src="http://ecommerce.abril.com.br/templates/tabela_veja.asp?canal=30">