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Quem
escolhe?
"A
escolha da escola
deve ser feita,
antes de
tudo, em conformidade
com o
trabalho educacional desenvolvido
na família"
A
família vive uma crise de identidade. Embora seja bem
grande o número de pessoas que criticam os pais, como
se fossem eles os únicos culpados pelos atos inadequados
dos filhos, nunca houve nas gerações anteriores
pais tão preocupados com a democratização
da relação. A hierarquia rígida que existia
na família foi sendo gradualmente substituída
por diálogo, respeito à individualidade, direito
à privacidade, desejo de alcançar uma relação
baseada no respeito mútuo e não no medo. Assistimos,
ano a ano, à luta dos pais para não repetirem
o modelo inflexível que vigorou até a década
de 60. Até então prevaleciam duas concepções:
ou a criança era vista como um adulto em miniatura
(o que gerava expectativas irreais sobre suas possibilidades:
não se sujar, sentar direitinho etc.) ou, ao contrário,
como um ser incapaz de participar de decisões (era
comum ouvir-se: criança não tem querer!). Qualquer
que fosse a maneira, o caminho da criança era apenas
um: obedecer sem contestar. Depois, chegou-se ao oposto: tem
criança decidindo até o modelo de carro que
o pai vai comprar ou se a família vai encomendar um
irmãozinho a mais! Devido a tantas mudanças,
muitas vezes os pais confundem ou ignoram seu verdadeiro papel.
Em nome da igualdade, tem gente desesperada com a falta de
limites dos filhos. A questão é: até
onde vai o direito de as crianças decidirem sobre a
própria vida e sobre a vida da família?
Ouvir as necessidades dos filhos e atender a elas é
fundamental. Saber quais são seus desejos, preferências,
expectativas e necessidades é importante. Mas é
necessário que os pais estejam conscientes de suas
responsabilidades. Por exemplo, quem decide que tipo de escola
o filho deve freqüentar, qual o modelo de educação
a ser seguido, com que idade começar a ir ao colégio,
se deve ou não faltar à escola porque está
chovendo muito? Decisões desse teor devem tomar por
matriz a análise cuidadosa do estágio de desenvolvimento
da criança e não apenas o que ela gostaria de
fazer. Nas primeiras séries (educação
infantil e ensino fundamental), a escolha tem de ser feita
pelos pais, porque a criança não tem ainda condição
intelectual ou emocional, nem discernimento, para definir
qual modelo de escola irá cursar tradicional
ou moderna, religiosa ou leiga, voltada para o conteúdo
ou para a formação de habilidades.
Essa opção precisa ser feita com base em vários
elementos. O mais importante (antes de considerar distância
da residência, equipamentos, instalações
confortáveis etc.) deve ser a definição
do tipo de educação que se deseja dar aos filhos.
A escolha deve ser feita, antes de tudo, em conformidade com
o trabalho educacional desenvolvido na família. É
importante que não haja discrepância entre o
que os pais ensinam e o que é trabalhado na escola.
Assim, se eles acreditam que o mais importante é o
desenvolvimento do raciocínio e da análise crítica,
devem buscar uma instituição que priorize a
discussão e a formação do pensamento
divergente. Se, ao contrário, acham que o respeito
à hierarquia e à autoridade e o domínio
do conteúdo programático são os aspectos
essenciais na educação, devem procurar escolas
que tenham perfil mais tradicional do ponto de vista pedagógico.
Em geral, o que a criança priorizaria? A escola onde
o amigo preferido estuda, o prédio mais "maneiro" e
outras coisas que nada têm a ver com uma formação
de qualidade. Crianças e adolescentes buscam, na maior
parte dos casos, o prazer, enquanto pais e professores têm
metas educacionais, dirigem seu olhar para mais adiante.
O segundo aspecto essencial a ser considerado é a personalidade
da criança. Como é nosso filho? É voraz
e interessado em aprender ou só pensa em jogar futebol
e videogame? Tem alta capacidade de concentração
ou se distrai com facilidade? É motivado ou é
preciso estar sempre criando situações para
que se interesse por qualquer coisa? Desiste com facilidade
dos projetos em que encontra dificuldade ou é obstinado?
É introvertido ou despachado? Cada uma dessas perguntas
(e muitas outras) deve ser considerada. A partir de 12 anos
mais ou menos, porém, se precisamos transferir a criança
para outro estabelecimento de ensino, ela já terá
condições de trocar idéias de forma mais
objetiva. Aí, sim, será positivo ouvi-la para
avaliar o que deseja. É bom lembrar que o imediatismo
do adolescente pode conduzi-lo a aspirações
nem sempre mais indicadas quando se trata de estudar. De todo
modo, ouvir os filhos, em qualquer idade, é sempre
bom e necessário. Considerar de fato o que disseram
também. A decisão final, no entanto, deve ser
dos pais. A família precisa reassumir sem medo o papel
de principal agência educadora das novas gerações.
A escolha da escola é uma decisão dos pais,
ainda que baseada nos desejos e nas características
dos filhos.
Tania
Zagury é filósofa, mestre em educação,
autora de Educar sem Culpa e Limites
sem Trauma, entre outros
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