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Toni
Bellotto
Enola
Gay
Depois
da aula de spinning, enquanto derreto gorduras no aparelho
de abdominais (não importa quanto eu malhe, sempre
sobram gorduras), começo a pensar nesse nome misterioso
que tem me aparecido em sonhos: Enola Gay. Faz tempo que não
me pego assim, distraída, pensando em sonhos. A última
vez foi quando ainda tinha espinhas no rosto e era gordinha.
Desapareceram as espinhas, continuo gordinha e eis que esse
sonho recorrente começa a me intrigar. Tá certo
que sempre tive sonhos In. Incríveis e Inconfessáveis.
Por exemplo, sonhar que transava com o namorado da minha filha.
Ou com meu sogro. O rapazinho da garagem. O tipo de sonho
que você não libera nem para o analista. Mas
Enola Gay é só um nome. Um nome enigmático
que aparece envolto em névoas e impresso num fundo
prateado de alumínio. Pode ser que tenha alguma coisa
a ver com gays; a-mo gays; meu cabeleireiro, Valdemar, é
uma graça de pessoa, mas não conheço
ninguém chamado Enola. Tenho uma amiga chamada Nora,
uma americana elegantésima, divertidíssima,
mas que anda meio deprê desde que teve de passar por
uma mastectomia. Acontece. Começo a desconfiar que
Enola Gay tem a ver com minhas vidas passadas. A-mo vidas
passadas, acho aquele livro da Shirley MacLaine um clássico.
Transo regressão e já descobri muitas coisas
In a meu respeito. Intensas e Inacreditáveis. Por exemplo,
fui decapitada na Revolução Francesa (era uma
condessa riquésima, devassa e alcoólatra), fui
escrava de Cleópatra e amante de Al Capone. É
mole? Que currículo. Por causa disso, vou até
meu analista e abro o jogo: que coisa é essa Enola
Gay, que não me sai da cabeça? Mas, meu amor,
ele responde, então você não sabe que
Enola Gay era o nome do avião americano que despejou
as bombas atômicas sobre Hiroshima e Nagasaki?
Que falta de imaginação! Eu tentando me distrair,
pensar em outras coisas, e não é que essa porcaria
de assunto conseguiu me pegar? Quer dizer que só se
fala em guerra? Só se pensa nisso? Tudo bem, vidas
passadas e sonhos eróticos podem ser grandes bobagens,
mas são bem melhores que essa sensação
maldita de que uma bomba pode cair a qualquer momento sobre
nossa cabeça, não é mesmo?
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