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Tsuchmoto: estátuas agressivas, mistura de máquinas e totens modernos |
| Fotos: Betina Scheier |
Na Marcenaria Tasukawa, na Tinturaria Okamura e no tempo zen-budista do bairro do Jabaquara, em São Paulo, todos sabem o endereço de Manabu Mabe. O pintor japonês, vencedor em 1957 do Prêmio Melhor Pintor Nacional, da Bienal de São Paulo, e da Bienal dos Jovens de Paris, em 1959, desde a década de 40 mora no bairro onde se concentra uma das mais densas colônias japonêsas de todo o Brasil. No Jabaquara, Manabu, 44 anos, chefia um grupo de artistas plásticos vindos do Japão recentemente e que se estabeleceram na vizinhança, formando com êle o "quadrilátero nipônico das artes plásticas" os pintores Wakabayashi e Nomura e o escultor Tsuchimoto. Sua casa, quartel-general das reuniões do grupo convocado para conversar sôbre arte e disputar partidas do antigo jôgo chinês "majon", é um encontro Brasil-Japão: nela velhas chaleiras de cobre, uma imensa carranca do rio São Francisco, um pinheiro-anão "bon-sai" e uma gaiola do Nordeste vivem juntos em transparente harmonia. Do amplo atelier do pintor vê-se o jardim japônes que o próprio Mabe plantou, enquanto no gramado ao lado seus filhos brasileiros jogam futebol.
O alto preço da fama Hoje Mabe é mundialmente conhecido e tem uma cotação internacional alta (mais de 10.000 cruzeiros novos é a média do preço de seus quadros). De Quioto, de Tóquio, de Yokohama chegam-lhe cartas pedindo para "apadrinhar" emigrantes que deixam o Japão. Seus colegas de arte e nacionalidade falam pouco português, trabalham em profissões silenciosas artesanato, pintura, cêramica , mas animam-se quando falam do Brasil, com sorrisos que substituem a falta de eloqüência. Tsuchimoto, o escultor, 34 anos, casou-se com uma irmã de Mabe e trabalha o dia inteiro na fábrica de cerâmica do tio, em Moji das Cruzes. Nascido e criado em Quioto, onde estudou belas-artes, adora a Bahia ("é a Quioto do Brasil, a cidade cultural antiga"), desde que foi convidado a expor suas obras em Salvador. Suas esculturas são agressivas: na frente da casa térrea modesta, numa vila do Jabaquara, elas surgem com ares de totens imprevisíveis, de madeira ou cobre pintado, mistura de engrenagens arrancadas de máquinas velhas e estátuas indígenas dos mares do Sul.
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Nomura: nos quadros a fauna colorida do Brasil |
Dez mil concorrentes Tsuchimoto deixou o Japão porque a concorrência é grande demais (há 10 mil artistas plásticos só em Tóquio) e "lá a tecnologia é sufocante". "Além do que", esclarece Mabe, "os colecionadores do Japão se voltam para Paris como girassóis em busca do sol. É a moda e a obsessão do Japão: a arte que a França faz". Nomura, 40 anos, nascido em Tóquio, fêz sua primeira exposição na Galeria Astréia, de São Paulo, em agôsto último, juntamente com Tsuchimoto. Como êste, também trabalha na indústria, na confecção de objetos de charão (verniz de laca). No Japão foi fiscal do Ministério da Indústria e Comércio, no setor de artesanato de exportação, uma das fontes importantes de divisas do país. Seus quadros misturam tons prateados e dourados com vermelhos e amarelos de extraordinária delicadeza, muitas vêzes com a inclusão de um elemento figurativo: um peixe, um galo, uma borboleta retratada em côres luminosas. ("As borboletas do Brasil", traduz Mabe, "o impressionam pela sua maravilhosa variedade".)
O "artista" do grupo Wakabayashi, 47 anos, vende bem suas abstrações intensas, de côres violentas (vermelhos, amarelos) e texturas ásperas. Em junho vendeu 27 dos 29 quadros de pequeno formato expostos também na Galeria Astréia, ao preço médio de 1.200 cruzeiros novos. No grupo, êle é quem está mais perto da imagem consagrada do "artista": relaxado quanto ao aspecto, passeia muito pelos campos e pinta sem ordem, deixando muitos quadros por terminar. Distraído, freqüentemente ausente das perguntas que lhe fazem, demora às vêzes um ou dois meses para acabar uma tela. Começa sempre com manchas de tinta sôbre as quais espalha cola, tinta vinílica e plástico recortado para intensificar seu efeito. Wakabayashi já exporta sua arte: acaba de ser convidado para expor na União Pan-Americana de Washington.
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| Wakabayashi: côres violentas |
Do cafèzal ao cavalete Manabu Mabe, no momento, prepara uma exposição em Houston, Texas. Hoje, êle vive de pintura. Os quadros têm títulos poéticos "Fusão na Tarde", "Voz do Outono", "Deslumbramento" , e continuam a recusar a técnica ou os temas da arte op ou pop. Mabe diz: "Para mim, a pintura tem que ter tinta e tela. Êsses fios elétricos e essas luzes que acendem e apagam emitindo sons já estão superados pelo cinema, que faz tudo isso muito melhor". Antes da pintura êle conheceu a lavoura e o comércio. Com dez anos de idade veio para o Brasil com seus pais, para trabalhar nos cafezais, perto de Lins, no interior do Estado de São Paulo. Assim passou 23 anos. Entre uma e outra tarefa, improvisava um cavalete e pintava. Sua arte, como o café, nasceu da terra roxa: "A minha pintura é essencialmente brasileira, começou no meio do jôgo das peneiras, na abanação do café, ou quando éramos obrigados a dormir no cafèzal, temendo a geada que queimava tudo quando o dia amanhecia. Saindo de uma terra fechada, como é o arquipélago japonês, a amplidão e a realidade brasileiras mexeram comigo. Vendo os trabalhadores cuspirem barro, eu no início ficava espantado. E meu pai dizia: É uma realidade do mundo, não é só o café que não tem pena!"
"Como o rato do campo" A geada venceu, o pai morreu ainda moço. Mabe, pobre mas já certo de sua vocação, foi para a cidade grande. São Paulo. Fazia gravatas por um processo japonês especial, e as vendia nas esquinas. Depois, em companhia de outros artistas japonêses Takaoka, Handa, Aki , foi a pé até o Rio de Janeiro para estudar. Para sobreviver como artistas, em 1935 fundaram o Grupo Seibi, em São Paulo, idealizado pelos pintores Tanaka e Handa e o poeta Furuno. Desde então, o Seibi revelaria desde Takaoka até Flávio Shiró (hoje radicado em Paris). Nestes dias o Grupo Seibi realiza seu 12º Salão no Centro Cultural Brasil-Japão, em São Paulo. O período de incertezas passou. E Mabe gosta da tranqüilidade quase roceira do Jabaquara ("sou como o rato do campo"), que lhe permite morar na cidade grande sem perceber. Com um gesto que abrange seu jardim e as colinas ao longe, êle diz: "Contemplo a paisagem emprestada que o Brasil me deu e me sinto mais em harmonia com o todo".
Copyright © 1998, Abril
S.A. |